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Eduardo Kattah
Para tentar acelerar a tramitação de seu pedido de indenização, o aposentado Otávio Ângelo, de 72 anos, tornou pública nesta sexta-feira, 4, a identidade falsa que utiliza desde que retornou clandestinamente ao Brasil, em 1971, durante a ditadura militar.

O ex-guerrilheiro da Aliança Libertadora Nacional (ALN) vive desde então em Belo Horizonte com o nome de Antônio Luiz Carneiro Rocha e é apontado pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas como o último clandestino do regime militar no País.

"Minha mulher, minhas filhos, meus netos, não aceitam que eu volte para a identidade original", contou o ex-guerrilheiro, que casou e constituiu família com os documentos falsos e só em 2001 deu entrada ao pedido de indenização junto à Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.
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 Até então, Otávio não havia revelado seu segredo aos familiares. "Perdi o meu filho caçula, de 18 anos. Por incrível que pareça, não era intenção minha que eles ficassem sabendo disso. Mas quando meu filho morreu, eu me senti culpado. Ele morreu com 18 anos sem saber o que o pai dele tinha feito, quem tinha sido".


Marighella

Nascido em Rancharia (SP), Otávio ingressou ainda jovem no Partido Comunista, em 1955. Nessa época, ele morava em São Paulo e atuava como militante em sindicatos operários. Quando os militares alcançaram o poder, em 1964, foi recrutado por Carlos Marighella para a luta armada contra o regime. Junto com o líder da ANL, viajou para Cuba, em 1967, onde recebeu treinamento de guerrilha.

Otávio afirma que foi uma das últimas pessoas a ter contato com Marighella, morto em 1969. "Nos encontramos numa padaria, no bairro do Tatuapé, em São Paulo, por volta das 20 horas. Pouco depois veio a notícia de que ele havia morrido", recorda.

Depois da morte de Marighella, Otávio acabou preso e torturado. Mas no dia 14 de março de 1970 integrou um grupo de cinco presos políticos trocados pelo cônsul japonês Nobuo Okuchi, que havia sido seqüestrado pela ANL.

Foi banido para o México, onde ficou apenas dois meses, seguindo depois para Cuba. Na ilha de Fidel Castro, conseguiu documentos falsos e voltou ao Brasil cerca de um ano depois, já como militante do Movimento de Libertação Popular (Molipo) e disposto a retomar a guerrilha contra o governo militar. Mas depois de se estabelecer na capital mineira, o ex-guerrilheiro viu frustradas suas tentativas de reencontrar antigos companheiros. A opção foi trabalhar como pedreiro e atuar no Sindicato da Construção Civil de Belo Horizonte. "Minha intenção, como sempre, era fazer atividade política. Eu nunca dissociei atividade política de atividade armada".

História secreta

Durante seis anos, andava armado para as "eventualidades". Nesse período, casou-se e teve filhos. Otávio sustentou sua história secreta mesmo após a redemocratização do País e afirma que não tomou conhecimento do processo de anistia.

Com a identidade falsa, formou-se em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e recebe uma aposentadoria de técnico de nível médio do Estado. O advogado de Otávio, Willian dos Santos, afirma que a Lei da Anistia permite que seu cliente mantenha a identidade adotada durante a clandestinidade.

A esposa Zilda só consegue chamá-lo de "Tonho". Otávio não anda mais armado, mas continua acompanhando a política. Se define como marxista e costuma ser crítico em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Apesar de eu votar no PT, nunca tive muita ilusão", observou.

"Meu objetivo agora é acelerar o processo (de indenização), não só o meu, mas também o de busca dos desaparecidos. É uma memória que se perde, como se não tivesse acontecido".

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia de Minas, deputado Durval Ângelo (PT), informou que próxima segunda-feira será lançado, em Belo Horizonte, um projeto de coleta de material genético de familiares de desaparecidos políticos mineiros. O objetivo é formar um banco de DNA dos familiares para auxiliar na identificação dos desaparecidos.

Observação do site: Otávio Ângelo era o armeiro da Aliança Libertadora Nacional - ALN
Sua irmã, Tereza Ângelo - da Vanguarda popular Revolucionária( VPR) -, participou dos seqüestros do  embaixador da Alemanha (1969) e do embaixador suiço (1970)
Tereza, por sua vez, era dada por muitos como morta na Argentina nos anos 70, como no livro Mulheres que foram à luta armada, do jornalista Luiz Maklouf.(ISTO É - Independente -12/09/2001)
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