Por Paulo Carvalho Espíndola, Coronel Reformado        
Prosseguindo em meus comentários sobre a grave situação em que se encontra o Rio de Janeiro, desejo abordar a política das Unidades de Política Pacificadora (UPP).
 Tudo indica que essa iniciativa do governo estadual coroou-se de êxito, uma vez que treze favelas da cidade decerto foram pacificadas e os bandos de traficantes que as infestavam deram lugar à paz e à benfazeja rotina de suas populações ordeiras e trabalhadoras. Há quem diga que nelas o tráfico de drogas ainda se faz presente, mas não estou lá para conferir e tenho de me louvar pelas notícias alvissareiras da mídia.
Nos quatro anos iniciais do ciclo Sérgio Cabral, em que essa nova ótica de segurança pública foi implementada, intrigou-me o fato de que a PMERJ subiu e ocupou esses morros sem nenhuma ou quase nenhuma resistência por parte dos criminosos que os dominavam. Hoje sei o porquê.
 Na verdade o governo do Estado, por uma preocupação “humanitária”, determinou que as operações policiais de ocupação fossem feitas sem riscos para os moradores, bem como para os policiais, coisa absolutamente improvável em combate desse tipo. Além disso, desejava resguardar os tão propalados direitos humanos de bárbaros criminosos. Tudo muito louvável, se não fosse a matreirice da PM, que avisou aos inimigos a hora e a data das operações, provocando a fuga dos bandidos e a sua conseqüente instalação em morros ainda não pacificados.
 Foi novamente o velho e demagogo hábito político de varrer a sujeira para debaixo do tapete, protelando a verdadeira destruição desse cancro que corrói o Rio de Janeiro. Com isso, os “usuários” (abordados no Capítulo I), mais uma vez, não foram de fato importunados, a não ser pelo estafante trabalho de buscar outras bocas-de-fumo para a continuação de seus vícios e a manutenção inconsciente (?) do financiamento aos traficantes. Diante disso, os bandos de outras favelas receberam reforços de aliados, e bandos rivais destes deflagraram sangrentas guerras contra outras facções “expulsas” dos morros pacificados. Na prática, UPP passou a significar Unidades de Polícia Protelatória... Lamentável, militar e honestamente...
Nuvens negras começaram a surgir no horizonte do Rio de Janeiro. Por seu lado o governo sabia que a ação protelatória não evitaria um confronto mais grave e perigoso. De outro, os malfeitores viam as UPP como um estorvo real para os seus negócios ilícitos, sentindo cada vez mais reduzido o seu espaço de manobra. Ademais, fugir da capital do Estado e atuar em centros menores seria danoso para os seus negócios. Urgia desencadear ações de terrorismo com o objetivo de desmoralizar o Estado, no afã desesperado de recuperar o terreno perdido. 
Finalmente, o momento tão temido pelo governo chegou. A política de “os incomodados que se mudem” não tinha mais sentido, diante da grave crise de afronta à lei e à ordem. A mobilização de todo o aparato policial fez-se necessária. Como se diz no jargão militar, até a banda teria de ser empregada. Não há BOPE que atenda a esse desafio de segurança pública em uma cidade como o Rio de Janeiro. Todo o efetivo foi empregado e as atividades de rotina dos aquartelamentos passaram a cargo de policiais da PM na reserva, para isso rapidamente convocados. O clamor social se fez forte, exigindo enérgica e urgente reação do governo. Acresça-se a isso o inevitável desgaste na imagem internacional da cidade, palco em futuro próximo de uma Copa do Mundo e de uma Olimpíada.
Nos primeiros momentos da reação, o Secretário de Segurança teceu rasgados elogios à Marinha do Brasil, que prontamente atendeu ao pedido de apoio feito pelo governador. Cerca de seis Viaturas Blindadas de Transporte de pessoal foram, assim, alocadas pelo Corpo de Fuzileiros Navais. O apoio da MB ensejou a curiosidade da mídia sobre a razão pela qual o Exército Brasileiro não se fez logo presente. O aturdido secretário respondeu à imprensa, dizendo que o Exército reiteradas vezes se nega a colaborar, mas que ele, secretário, entendia as razões do EB, sem esclarecer, no entanto, quais eram. Ficava no ar a idéia de que o EB fugia de sua participação nesse estado de guerra.
Ninguém disse, na verdade, quais são essas razões. Ocorre que o governo do Rio de Janeiro estava com a capacidade de emprego operacional de suas forças de segurança completamente exaurida. Isso indicava, no caso de um governo honesto e de bom senso, a declaração de que não dispunha mais de condições de intervir eficazmente no conflito, o que obrigaria o governo federal a decretar estado de defesa no Rio de Janeiro, como determina a Constituição Federal. Aí, sim, O EB poderia ser empregado na sua plenitude e com embasamento legal, passando ao seu controle operacional todas as forças em presença, sejam estaduais ou federais. Eram essas as misteriosas razões do Exército Brasileiro. Razões de sobras para não operar na manifesta ilegalidade
O Exército poderia ser empregado, como era o desejo dos políticos cariocas, sem poder de polícia e sem respaldo legal? Absolutamente não. Comentaristas maldosos levantaram bazófias, segundo as quais a situação não poderia estar regida por vaidades de quem constitucionalmente tem o dever de garantia da lei e da ordem, insinuando que os chefes do Exército estavam presos a picuinhas legais para justificar vaidades.
O jeitinho brasileiro, mais uma vez, mostrou a sua força. Os dirigentes do Circo Brasil, diante disso tudo, enrolou o EB na Bandeira Nacional e, esdruxulamente, na prática, o Exército Brasileiro passou ao controle operacional de uma polícia militar, sem nenhum respaldo. A tropa do verde-oliva foi desdobrada em uma operação de cerco, acompanhada de agentes da Polícia Federal para o ladino estratagema de assumir eventuais baixas desferidas pelos militares em cidadãos inocentes ou, mesmo, em bandidos que a agredissem.
Situação surreal, bem ao gosto do apedeuta, que deve estar às gargalhadas, por parir uma ideia “nunca antes empregada na história desse país”. A rês passa a tanger o cavaleiro. Realmente, nunca na história deste país surrealista...
Mais curiosidades no próximo e derradeiro capítulo.
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