Por Paulo Carvalho Espíndola, Coronel Reformado
            Neste capítulo, trato de declarações, de entrevistas e de verborragias diversas, que eriçaram a minha já escassa e grisalha cabeleira.
            Por ser militar reformado, sem nenhum vínculo de trabalho no momento, disponho de muito tempo para recostar-me na minha poltrona e assistir quase o dia todo ao noticiário de televisão, por meio de um canal de TV a cabo exclusivamente voltado ao jornalismo televisivo.
          
Dessa forma, delicio-me com verdadeiras “pérolas” merecedoras de constar do Festival da Besteira que Assola o País (FEBEAPA), obra do inteligentíssimo e falecido Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), criador também do delicioso Samba do Crioulo Doido, no tempo em que favela não era “comunidade”, crioulo era o epíteto até carinhoso do cidadão negro, e não existia o politicamente correto.
Acompanhei inúmeras entrevistas de profissionais dos mais diversos, desde juízes, secretário de segurança, policiais militares da ativa, ex-integrantes do BOPE, agora respeitáveis consultores de segurança - digo respeitáveis porque realmente o são -, antropólogos, sociólogos, promotores de justiça, advogados criminais e até “achólogos”, muito bem remunerados, que ligam o nada a coisa nenhuma.
 A minha incipiente cultura foi sobejamente agredida, salvo honrosas exceções, por rolando-leros engravatados. Pena que a televisão ainda não disponha do recurso do cheiro, pois assim eu sentiria o aroma dos caros perfumes dessa fauna variada.
Os jornalistas entrevistadores, então, ostentam riquíssima cultura resultante das apostilas, pelas quais estudaram nas faculdades brasileiras de jornalismo de fundo de quintal. Hoje o termo logística é a palavra de ordem, quase tão em voga quanto o gerundismo, ao nível de, através de (certamente dispõem de raios-X, que atravessam corpos e mentes), nunca nesse país, menas, enquanto que e outras baboseiras mais, igualmente grotescas. Inicio pela reportagem apresentada por belíssima, embora já iniciada balsaquiana, que mostrou o voo de um helicóptero da polícia militar sobre o Complexo do Alemão, dizendo que se tratava de aeronave realizando uma “ação de logística”. Por acreditar piamente que se tratava de missão de reconhecimento aéreo, senti-me apequenado pelo fato de ter recebido goela abaixo a lição nunca dantes aprendida por mim nos bancos das escolas militares. A novel senhora entende mais de logística do que os meus venerandos instrutores da Escola de Comando e Estado-Maior. Agora entendo, perfeitamente, os versos do outrora maldito menestrel Geraldo Vandré, hoje autopropalado amigo da Força Aérea, que raivosamente cantava “nos quartéis lhes ensinam antigas lições...”.
Recebi preciosos ensinamentos de emprego de tropa do secretário de segurança, que disse que não importa promover baixas nos bandos de traficantes, muito menos derrotá-los em combate, pois o que interessa é tomar-lhes o terreno. A mente privilegiada dessa autoridade não explicou, entretanto, como se conquista o terreno inimigo sem inevitáveis baixas e sem confronto, em um ambiente operacional extremamente adverso e na presença de oponentes fortemente armados. Eu não acreditava em milagres, mas agora estou convencido de que eles existem. Rápida e prontamente surgiram notáveis “experts” entre repórteres, que a todo o momento repetiam que o importante é tomar o terreno, todos sob a expectativa de um milagre operacional.
De um eminente promotor do Ministério Público do Rio de Janeiro aprendi importante lição de salvaguarda do sigilo, por vê-lo anunciar, alto e em bom som, que o Ministério Público desencadearia nesta semana uma grande operação contra advogados e familiares de importantes traficantes hospedeiros de confortáveis “spas” federais, digo, de presídios de segurança máxima, que desfrutam da assídua assistência de caríssimos rábulas e de freqüentes visitas íntimas, por intermédio das quais controlam os seus bandos de malfeitores. Com certeza, a anunciada operação foi beneficiada pelo boquirroto perfumado.
U’a muito bem falante e jovem repórter relatou que uma senhora dos seus cinqüenta anos, moradora da Vila Cruzeiro, entregou-lhe, sem proferir nenhuma palavra, uma caixinha de fósforos e foi-se embora. Aberta a caixinha, nela encontrou um comovente bilhete, pelo qual a senhora manifestava júbilo pela expulsão dos traficantes que por anos dominaram o lugar. Com uma expressão de viva inteligência e indisfarçável saber, a repórter referiu-se a um verso do bilhete, que dizia, “liberdade, oh liberdade, abre as asas sobre nós”. Num “grand finale”, coroou a reportagem dizendo: “foi esse o refrão do grande samba da Imperatriz Leopoldinense...”. A jovem, nas apostilas em que estudou, não aprendeu ser do Hino da Independência o referido refrão, apropriado pela escola de samba mais de um século depois. É esse o resultado da falta de civismo praticada nas escolas de hoje, muitas delas por considerar que o culto desses hinos é coisa de milicos nos quartéis. Alguém ouviu qualquer referência, no dia 19 de novembro deste ano, sobre o Dia da Bandeira? Só os militares comemoraram-no...
Um elegante advogado criminal deitou sapiente e demorada falação sobre o dever de respeito à legalidade, de respeito aos direitos humanos e ao estado de direito da democracia brasileira, a ser exercido pela tropa na iminência da investida ao Complexo do Alemão. No entanto, ao ser questionado sobre a demora do Exército Brasileiro a atender ao chamado do governo estadual, criticou a Força, dizendo que ela se enredou em “questiúnculas constitucionais”. Ora, respeito à Constituição agora é questiúncula? Toda a pose do doutor se esvaiu para o ralo da incongruência, juntamente com as inúmeras consoantes do seu nome impronunciável por qualquer brasileiro de média capacidade de leitura.
E a antropóloga que a emissora foi buscar não sei onde? De uma feiúra de dar inveja ao Mike Tyson, a cientista exibiu notável saber sobre a arte da guerra, criando neologismos totalmente desconhecidos dos mais experientes táticos e estrategistas militares. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem tanto bonita, nem tanto estratega...
E os sociólogos e as sociólogas? Fiquei desesperado por eu ser tão ignorante em face de tanto conhecimento. Deveras, passei a achar que não tenho cérebro, mas, sim, um monte de estrume na cabeça!
De tudo isso, salvaram-se dois capitães da reserva, ex-integrantes do BOPE, que esgrimiram opiniões plenamente abalizadas sobre o assunto segurança pública, com admirável desenvoltura e respeito às instituições policiais. Salvaram-se nesse amontoado de pós-de-arroz de extraordinária “insapiência”. Se a moda é criar neologismo, este meu está criado. Só me falta retirar-lhe as aspas.
Não vejo a hora de assistir à investida da tropa sobre o Complexo do Alemão. Torço que a vitória do bem estraçalhe o mal, muito embora eu sofra, sem qualquer preconceito, ao ver a carroça na frente dos bois, ou seja, ao constatar que a tropa do Exército Brasileiro ficou sob o controle operacional de uma polícia militar. Não me venham de borzeguins ao leito, com a falácia de que as tropas federais apenas cumpriam missões de apoio, nunca dantes descritas em qualquer manual de emprego militar. À tropa do Exército foi dada a ação tática padrão de cerco, sem nenhum embasamento legal. É uma lástima, embora eu não torça contra.
Esperemos o desfecho disso tudo. Certamente terei mais assunto a explorar em um possível quarto capítulo. Auguro que ele não venha cheio de reparos, mas, sim, pleno de elogios por constatarmos que o dever foi muito bem cumprido.

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