Comissão de transição
Disposição de Dilma para reduzir gastos não convence
Alexandre Rodrigues
O Estado de S. Paulo 
Economistas e cientistas políticos não acreditam nos planos e pedem reformas tributária e política
A presidente eleita Dilma Rousseff ainda não convenceu os agentes econômicos de sua disposição para reduzir os gastos públicos e retomar uma agenda de reformas que possa superar as limitações do crescimento País. Essa foi a conclusão de um debate que reuniu economistas e cientistas políticos ontem na Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio.
O participantes se disseram surpresos com a falta de uma pauta de reformas, como a tributária e a política.
O coordenador da Área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), Armando Castellar, apontou a agenda de reformas iniciada há duas décadas e que permanece incompleta como um dos principais limitadores para o crescimento da economia. A alta esperada do PIB de 7,5% este ano, diz ele, não é uma mudança de patamar. Só é possível depois da retração de 0,2% em 2009. A média dos dois anos fica em 3,65%. Em 2011, a previsão é de pouco mais de 4%. "O País não consegue crescer mais de 4,5% sem gerar inflação e uma deterioração grande das contas externas", disse Castellar. Para ele, o novo governo deveria ter como prioridade reformas na área fiscal, como a previdenciária e tributária.
Castellar disse que Dilma sinalizou positivamente com a meta de reduzir o endividamento público a 30% do PIB, mas não disse como vai fazer. "O compromisso de reduzir gastos é uma coisa. Já reduzir o endividamento como proporção do PIB depende de outras coisas que não estão totalmente sob o controle dela. A meta sozinha, sem explicar como vai ser feito, não é suficiente."
O cientista político Amaury de Souza, da MCM Consultores, lembrou que o eleitorado tem votado em favor da expansão do gasto público. Isso faz com que reformas sejam evitadas. "A carga tributária é quatro, cinco vezes maior entre as famílias pobres, que não sabem do imposto embutido no que compram. Se soubesse disso, o pobre entenderia que é ele que sustenta tudo isso", disse Souza, em referência ao modelo de expansão dos gastos com elevação de carga tributária do governo Lula que deu lugar à expansão do endividamento do governo Fernando Henrique.
Para o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), Fernando Limongi, o que inviabiliza reformas são interesses corporativos e resistências dos governadores, como no caso da tributária. Ele mostrou que o número de legendas com representação na Câmara dos Deputados subiu de 19 em 2006 para 22 este ano. Essa pulverização aumenta a dependência dos partidos pequenos do Executivo. "O que me surpreende é que Dilma está sendo tímida em relação a mudanças logo no primeiro ano. A composição do ministério mostra que não está interessada em marcar diferença em relação a Lula, o que é preocupante."
 
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