Lula e o MST - amor antigo...
MST teria espiões no Incra para orientar invasões
Por Tatiana Farah - O Globo 19/12/2010
Telegramas do WikiLeaks avaliam que Bolsa Família e geração de empregos minaram movimento e que Lula e PT se afastaram dos sem-terra
O presidente Lula abraça o líder do MST José Rainha
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) usa informantes dentro do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para ocupar as terras que serão desapropriadas pelo governo.
A afirmação consta de telegramas enviados por diplomatas dos Estados Unidos ao Departamento de Estado americano e revelados ao GLOBO pelo grupo WikiLeaks. Os diplomatas acusam ainda os sem-terra de alugarem lotes dos assentamentos para o agronegócio no Pontal do Paranapanema (SP) e avaliam que o governo Lula esvaziou o movimento, que teve de se "reinventar".
"A prática do MST de distribuir lotes de terra fértil a seus fiéis e de alugar a terra de novo ao agronegócio é irônica, para dizer o mínimo. O presidente Lula tem sido flagrantemente silencioso com suas promessas de campanha de apoiar o MST por uma boa razão: uma organização que ganha terra em nome dos sem-terra e que depois a aluga para as mesmas pessoas de quem tirou tem um sério problema de credibilidade", escreve o cônsul-geral em São Paulo, Thomas White, em 29 de maio do ano passado. O comentário foi feito após o diplomata ouvir um relatório de seu assessor econômico, que conversara com empresários de Presidente Prudente, onde "poucas pessoas" apoiam o movimento social.
O assessor econômico ouviu também o historiador americano Clifford Welch, que integra o Nera (Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos em Reforma Agrária). Considerado por White como "pró-MST", o pesquisador revela que o movimento usa seus contatos dentro do Incra para determinar qual será a próxima fazenda desapropriada. "Welch disse ao assessor econômico que o Incra não torna essa informação publicamente disponível e que o MST só poderia acessá-la por meio de informantes dentro do Incra", informa o cônsul-geral. Segundo White, o Incra, usualmente, não desapropria com rapidez e, assim, "o MST invade a terra como prometido".
"Lula aprendeu que questão não é fácil"
Sete telegramas enviados ao Departamento de Estado entre 12 de abril de 2004 e 29 de maio de 2009 mostram a atenção dos americanos para o que consideram um declínio do movimento sem-terra no Brasil. Para os EUA, o MST decaiu justamente pela ação de um de seus aliados de primeira hora: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com o Bolsa Família e, posteriormente, as políticas de geração de emprego, o presidente teria desmobilizado a luta no campo. Já o programa de reforma agrária é visto com desconfiança desde o princípio, como escreve a então embaixadora Donna Hrinak, em 2004: "Durante a campanha presidencial de 1994, ele (Lula) disse: "Com uma simples canetada, eu lhes darei tanta terra que vocês não serão capazes de ocupá-la". Como presidente, ele tem aprendido que não é um problema de tão fácil resolução", escreve a embaixadora. Segundo ela, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso assinou "frustrado" a MP 2183 em 2000, que trata da reforma agrária, para conter uma onda de invasões do final dos anos 90.
Hrinak é ácida ao tratar do líder do MST João Pedro Stédile: "Ele frequentemente faz comentários inúteis (no ano passado, clamou por uma guerra contra os fazendeiros), anunciando recentemente: "Abril será um mês vermelho. Vamos fazer da vida um inferno. Abril pegará fogo""." A embaixadora prossegue contando que, criticado no Congresso, Stédile "voltou atrás".
Em 24 de março de 2006, o então cônsul-geral de São Paulo, Christopher McMullen, reportou aos EUA que o grupo não atrai "muita simpatia da imprensa nem do público". E apresenta números de invasões de terra em São Paulo, que seriam, segundo as lideranças do MST paulista, uma cobrança por promessas não cumpridas do governador Geraldo Alckmin (PSDB), que concorreria à Presidência.
Ao falar do mês de protestos dos sem-terra, o "abril vermelho", que marca o massacre de Eldorado de Carajás, McMullen destaca que o MST e outras organizações de camponeses têm atacado não só propriedades de terra, mas o "agronegócio", como a Aracruz Celulose e a Sygenta. Dois anos depois, já com Thomas White no lugar de cônsul-geral, os EUA são informados de uma mudança nas estratégias do MST: "Estão enfrentando uma significativa mudança em sua organização. O número de integrantes cai lentamente, assim como o número de invasões que realiza. Alguns observadores citam o programa de transferência de renda para os pobres, o Bolsa Família, como fator de declínio das atividades do MST. Além disso, o MST esperava por maior vontade política do governo Lula na redistribuição de terras. Uma aparente indisposição de parte do governo para fazer isso pode estar desgastando o MST e levando-o a procurar a acomodação em vez do confronto".
Em outro telegrama, de 2008, um diplomata escreve que o MST teve de "se reinventar" como movimento. O alvo é mesmo o agronegócio, esse tipo de empresa e a defesa do meio ambiente. A decepção dos líderes sem-terra com o presidente Lula é grande, explicam religiosos do Nordeste aos diplomatas americanos, mas as críticas não podem ser feitas publicamente. "Esperavam mais suporte do presidente Lula, mas não podem criticá-lo porque ele é muito popular com seu eleitorado graças ao Bolsa Família. Então, o jogo tem de ser feito nos bastidores. As invasões são moedas de troca, daí alguns créditos ou subvenções para os parceiros do movimento que garantam a paz", escreve Page, do consulado paulista.
"Assim como no Sul do Brasil, o MST e seus companheiros de viagem na sempre em desvantagem região Nordeste parecem estar mudando suas táticas: com o confronto menos atraente, eles parecem estar se reposicionando para tentar embarcar no "trem da alegria" do governo".
Em 1º de abril do ano passado, o cônsul White escreve que em seus 25 anos, o MST não tem o que comemorar. "Cada vez mais ignorado pelos seus ex-partidários, o presidente Lula e seu PT, e reduzido tanto pelo crescimento econômico quanto pelos efeitos positivos do Bolsa Família, o MST encontra-se na defensiva", diz ele. "A organização está respondendo aos desafios radicalizando suas ações". O diplomata cita a ocupação da fazenda do banqueiro Daniel Dantas, no Pará, "um banqueiro brasileiro sob investigação de corrupção".
Apesar de acreditar num enfraquecimento do MST, o diplomata americano avalia que haverá muitos anos de "abril vermelho pela frente": "Embora a base social do MST tenha diminuído, ela não desapareceu. White, aponta outro problema: "No Brasil, o sistema de posse de terra continua cheio de problemas de ordem jurídica".

 

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