Por Cel Carlos Alberto Brilhante Ustra 

Há uns dois meses atrás fui contatado pela secretária do jornalista Paulo Henrique Amorim, que me solicitava uma entrevista em seu programa “Domingo Espetacular”. Em princípio, disse-lhe que proporia algumas condições para conceder a entrevista, pois imaginei que seria sobre o meu livro. Assim, como primeira condição, combinei que remeteria o livro para que ele o lesse e julgasse se seria conveniente me entrevistar. Após a remessa, fui informado, também pela sua secretária, que o jornalista continuava julgando oportuna a entrevista.  

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Então, solicitei que me enviasse, por escrito, as perguntas que faria no seu programa, para que eu tivesse tempo para me preparar, já que, 35 anos depois, muitos fatos e nomes não são mais lembrados. A outra condição que propus, foi a de ser o único entrevistado.

Em resposta recebi a informação que a entrevista não seria sobre o livro e sim sobre o processo a que estou sendo submetido e que, durante o programa, a família Teles, que está me processando, também seria entrevistada.

Informei-lhe, então, que não tinha interesse em fazer uma entrevista nesses moldes. Portanto, não me neguei a dar entrevista como o jornalista afirmou no programa.

No “Domingo Espetacular”, 03/06/2007, pessoas da família Teles foram entrevistadas a respeito do processo e das pretensas torturas que teriam sofrido durante o período da prisão no DOI/CODI/II Exército.

Infelizmente, quando fui avisado da entrevista, já estava encerrando o relato sobre a prisão dos Teles em São Paulo. Nesse momento, o senhor Paulo Henrique Amorim sacudia uma bandeja de talheres, que não entendi bem o porquê.

A seguir, em tom dramático, ele mostrava as celas onde as crianças teriam estado presas, e uma cela solitária onde elas teriam visto os pais serem torturados.

Continuando a dizer os maiores absurdos, a senhora Criméia passou a contar como teria sido o tempo em que permaneceu presa em Brasília.

Disse que esteve presa no prédio do Ministério do Exército, na Esplanada dos Ministérios, onde as baratas subiam pelo seu corpo e ela as retirava a tapas e que, deitada de bruços sobre uma barriga de quase nove meses, escondia o rosto de lâmpadas fortíssimas que ofuscavam seus olhos. Além disso, contou que tomou banho de sol apenas duas vezes, em pleno fevereiro, ao meio dia, descalça, e que o calor do chão queimava os seus pés.

O parto, segundo ela, foi uma tragédia.

Primeiro, levada ao Hospital de Base de Brasília, disseram que ainda não havia chegado a hora e a mandaram de volta à cela infectada de baratas, onde a bolsa se rompeu e as baratas, enlouquecidas pelo líquido, a atacaram sem dó nem piedade. Os outros presos é que a socorreram, começando a gritar para buscar atendimento.

Finalmente, a levaram, segundo ela, ao Hospital da Guarnição do Exército, onde depois de imaginar que seu martírio havia terminado, uma médica disse-lhe que só poderia fazer o parto no dia seguinte, pois seu plantão estava no final.

O médico militar que fez o parto a teria tratado com brutalidade. Os pontos que lhe colocaram na vagina teriam sido aplicados sem anestesia e o material usado não era adequado, pois a absorção deles pelo organismo durou vários meses e, durante esse período, sentia na vagina uma dor constante, como se lá estivesse colocado arame farpado.

Segundo ela, apesar de todos essas torturas e 24 horas de trabalho de parto, a criança nasceu saudável, mas como os  torturadores não a deixavam amamentar , a criança perdeu peso , chegando a pesar, 52 dias depois de nascida, pouco mais de 2 quilos. O menino parecia, segundo ela, com aquelas crianças africanas, magras e desnutridas, que o mundo horrorizado vê na TV.

 

Quanto ao senhor Paulo Henrique Amorim, que se propôs a vir a Brasília fazer a entrevista comigo, bem poderia, se tivesse interesse em apresentar versões que levassem o tele espectador a tirar suas próprias conclusões, ter mandado alguém a Brasília para verificar em que situação a gestante chegou nessa cidade, como foi tratada, como nasceu a criança. Deveria, também, ter procurado entrevistar o irmão de César Augusto Teles, que acolheu as crianças em sua casa  em Belo Horizonte.

 

Estou tentando conseguir uma gravação do programa para poder rebater as mentiras que foram ditas e, para que o meu advogado possa estudar se cabe um pedido de resposta.

 

Criméia foi presa, em 28/12/1972, no 7º mês de gravidez, pelo DOI/CODI/IIEx, onde permaneceu por 24 dias, até ser encaminhada para Brasília, que era a área encarregada de combater a Guerrilha do Araguaia.

 

Seu filho, João Carlos Schimidt de Almeida Grabois, atualmente com 34 anos, nasceu no Hospital do Exército de Brasília, em 13/02/1973. Em 2005 foi indenizado porque estava no útero de sua mãe quando ela foi presa, segundo consta na sentença.

 

Julguem os leitores pela fotografia tirada no Hospital Militar de Brasília, após o parto, onde Criméia aparece com o filho recém nascido.

 Reparem as suas roupas, o seu olhar de felicidade junto com o filho.

Pela fotografia seu filho parece estar esquálido e desnutrido, como ela afirma no programa da Record?

Será que essa moça, pela sua aparência, parece ter sido torturada há pouco tempo?

Reparem nas roupas de seu filho, bem vestido. Pois o enxoval dessa criança foi comprado pelo Exército, por ordem do General Antonio Bandeira, comandante da Brigada de Infantaria, em Brasília, onde Criméia estava presa.

Aliás, esse enxoval foi entregue a Criméia por D. Léa, esposa do General Bandeira, quando foi visitá-la no Hospital.

Criméia se refere a essa visita como sendo da esposa do General Kruel e que, segundo ela, se “tornou mais tarde a prova do episódio tenebroso”.

Pelos móveis pode-se ver que Criméia está num hospital e não em uma cela.

 

 Analisem a fotografia do batizado do filho de Criméia, feito pelo Capelão Militar. Vejam o semblante dos padrinhos, familiares de Criméia.

Será que o Exército que a “torturou” teria a preocupação de organizar o batizado?

 

 

Fotos da Revista ISTOÉ - 04/09/1985

  

 

 

    

Ao final de dezembro de 1972 o DOI de São Paulo estava preocupado com o trânsito de guerrilheiros que, da capital paulista, eram encaminhados para a área de guerrilha do Araguaia, onde pretendiam estabelecer uma área liberada, semelhante a ocupada, até os dias de hoje, na Colômbia, pelas FARC.

 

Durante essas investigações a gráfica clandestina do PCdoB foi localizada e “estourada”. Os responsáveis por esse “aparelho de imprensa” eram Maria Amélia Teles e seu marido César Augusto Teles. Na ocasião, estavam com eles os dois filhos do casal - Janaína, de 5 anos, e Edson Luis, de 4 anos.

 

Era contato freqüente do casal, Carlos Nicolau Danielli, membro do Comitê Central do PCdoB, que fizera curso de Guerrilha em Cuba e tinha estreitas ligações com o casal e, principalmente, com Maria Amélia. Toda a matéria que a imprensa clandestina do Partido publicava tinha que ter sua aprovação.

 

No aparelho, homiziada, encontrava-se Criméia Schimidt de Almeida, irmã de Maria Amélia, que na ocasião se fazia passar por babá das crianças. Criméia era militante do PCdoB e integrava o “Destacamento A”, na Guerrilha do Araguaia.

 

Seu marido, André Grabois, era filho de Mauricio Grabois, o comandante dos guerrilheiros naquela região.

Uma das normas da guerrilha era a proibição de que as guerrilheiras engravidassem.

Criméia, no entanto, engravidou e, em agosto de 1972, por estar com 3 meses de gravidez, contrariando todas as determinações existentes, foi retirada da área de guerrilha por determinação do comandante, Maurício Grabois,  avô da criança. Criméia foi poupada. Era nora do comandante.

 

Quando a gráfica foi “estourada” Maria Amélia, César Augusto e Criméia foram presos. As crianças, como não poderiam continuar no local, foram encaminhadas ao DOI. As máquinas de impressão e as armas apreendidas.

Ao chegarem, entrevistei o casal e lhes disse que as crianças não poderiam permanecer naquele local. Perguntei se tinham algum parente em São Paulo que pudesse se responsabilizar por elas. Responderam que as crianças tinham tios em Minas Gerais. Pedi o telefone deles para avisá-los do que acontecia e indagar se poderiam vir a São Paulo para receberem os dois filhos do casal. Feito o contato, esses familiares pediram alguns dias de prazo para viajar à capital paulista. Decidi que, enquanto aguardávamos a chegada dos tios, as crianças permaneceriam sob o cuidado do Juizado de Menores.

Nesse momento, Maria Amélia e César Augusto pediram para que seus filhos não fossem para o Juizado. Uma policial militar, que assistia ao diálogo, se ofereceu para ficar com Janaína e Edson Luis até a chegada de seus tios, desde que os pais concordassem com o oferecimento, o que foi aceito, na hora, pelo casal.

Movido mais pelo coração do que pela razão, achei que essa era a melhor solução. As crianças foram levadas para a casa da agente e para que não sentissem a falta dos pais, diariamente, eram conduzidas ao DOI para ficar algum tempo, aproximadamente duas horas, com eles. Isso se repetiu até a vinda dos parentes. Quando chegaram, Janaína e Edson Luis foram entregues aos seus tios, na presença dos pais.

 

Em 31/01/1997, matéria de Rose Spina, sob o título Memória: Filhos da Resistência, publicado no Portal da Fundação Perseu Abramo consta:

“Sem saber ao certo quanto tempo foi mantida nas instalações do órgão repressor, Janaína lembra de brincar com o irmão no estacionamento e de dormirem em camas improvisadas em uma copa localizada no andar térreo de um grande sobrado. Posteriormente foram levados, no mesmo Opala azul, para Belo Horizonte, onde vivia boa parte da família, pessoas que estavam longe de aprovar a opção feita por César e Amelinha. Os dois irmãos ficaram aos cuidados de uma tia e de seu marido, um delegado de polícia com relações com o DOPS.”  (O grifo é meu)

“César e Amelinha saíram da prisão no final de 1973, após cumprirem pena de um ano. A família unida foi morar na Bela Vista, bairro de São Paulo. Novamente sua casa era um aparelho. A fachada era de uma gráfica comercial, mas clandestinamente era a gráfica do partido.”(O  grifo é meu)

 

E, continuando o seu depoimento a Rose Spina, Janaína assim se refere aos tios que, a pedido de seus pais, foram a São Paulo apanhá-la, junto com seu irmão, e os acolheram em sua casa:

Esse infeliz disse que meus pais tinham me abandonado e minha tia me fez sua empregada, me fazia dar mamadeira para meus primos, de 3, 4 e 6 anos, praticamente de minha idade”.

 

Em depoimento de Maria Amélia, publicado no site http://emilianojose.com.br ela assim se refere a esses mesmos tios:

Ficaram na casa de uma policial por um dia e depois foram mandados pra casa de um outro policial parente do pai das crianças. Ali as crianças sofreram toda a sorte de privações e humilhações Eram insultadas por serem filhos de “comunistas”, etc. Qualquer desobediência, por parte das crianças, diziam que eram assim porque tinham sido doutrinados pelos pais” (O grifo é meu)

 

Na Ação meramente declaratória que a família Teles move contra mim, na página 11/46 e 20/46, respectivamente, consta:

 

“29) Em seguida, Criméia foi levada para a cela, enquanto as crianças ficaram dias perambulando pelos corredores do aparelho de repressão sendo testemunhas de gritos de dor dos presos políticos, além de serem usadas como instrumento de tortura psicológica de seus pais.” (O grifo é meu)

“54) Após terem sido libertados, os Co-Autores continuaram sendo vítimas de perseguições políticas.”

“55) A residência de César e Maria Amélia era, frequentemente, vigiada por militares e todas as pessoas da casa eram seguidas por agentes, que não faziam questão de se esconder.” 

 

Eles mesmos afirmam que, ao serem libertados, voltaram para o trabalho clandestino num “aparelho”. Não eram, portanto, inocentes sendo vigiados pela polícia.

 

Os advogados dos Co-Autores, na página 6/46 da Ação Declaratória, afirmam: “eles trabalhavam no departamento de imprensa do partido, fazendo oposição política, de maneira clandestina, ao regime militar instalado no Brasil.”

 

O objetivo do PCdoB, partido dos Co-Autores, era muito diferente. Segundo o professor de História Contemporânea da UFF, Daniel Aarão Reis Filho, um dos 40 militantes banidos para a Argélia, em 15 de 1970, em troca do embaixador do Alemanha, em entrevista ao jornal O Globo, de 23/09/2001, declarou:

“As ações armadas da esquerda brasileira não devem ser mitificadas. Nem para um lado nem para o outro. Eu não compartilho da lenda de que no final dos anos 60 e início dos 70 (inclusive eu) fomos o braço armado de uma resistência democrática. Acho isso um mito surgido durante a campanha da anistia. Ao longo do processo de radicalização iniciado em 1961, o projeto das organizações de esquerda que defendiam a luta armada era revolucionário, ofensivo e ditatorial. Pretendia-se implantar uma ditadura revolucionária. Não existe um só documento dessas organizações em que elas se apresentassem como instrumentos da resistência democrática.”

 

Afinal, qual é a versão verdadeira?

 A declarada a Rose Spina, a outra a Emiliano José ou a formalizada por seus advogados no processo?

 As crianças foram abrigadas na casa da policial feminina, como afirmo, ou ficaram perambulando, e dormindo em camas separadas, no DOI?

Por que, no processo, não relatam o fato do irmão de César Augusto Teles ter ido buscá-las, em São Paulo, tê-las recebido, em perfeitas condições físicas e psicológicas na presença de seus pais, e abrigá-las em sua casa em Belo Horizonte?

Por acaso, terão receio que o tio, ou, se ele já tiver falecido um outro parente dele, desminta, em Juízo, a versão dos Co-Autores? 

 

 

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