OS ALIADOS DO PCC

 Existem duas explicações alternativas para o que motiva as pessoas a ingressarem na criminalidade. A primeira, a da tradição judaico-cristã, que afirma a responsabilidade do indivíduo sobre os seus atos, sendo de sua livre escolha a prática das virtudes ou dos vícios. É a base lógica em que está montado o sistema jurídico-penal do Ocidente, que prevê penas proporcionais aos crimes tipificados, não cabendo a terceiros a responsabilidade por quaisquer malfeitos de quaisquer pessoas, mesmo aquelas que são parentes próximas.

 A explicação alternativa é a de origem marxista, que atribui a criminalidade não a uma falha moral do indivíduo que a pratica, mas à luta de classes, com os “ricos” impondo sua lógica ao sistema jurídico, especialmente naqueles crimes ligados ao direito de propriedade. Assim, não haveria que se falar em culpa individual pelos crimes, na medida em que há um viés de classe determinando o que seja e o que não seja crime. Na verdade, a simples existência de um direito de propriedade, para um seguidor de Marx, já é um crime em si. Nesse sentido, o criminoso torna-se a vítima de um sistema maior, o que lhe isenta totalmente da responsabilidade sobre seus atos.

 Da mesma forma, violências praticadas pelas classes subalternas ou por aquelas pessoas que falam em seu nome estão previamente justificadas. Os fins justificam os meios. Daí que ações criminosas de organizações como MST, MSLT e PCC não deveriam ser questionadas ou, no mínimo, deveriam ser relevadas e mesmo apoiadas. Afinal, criminosos não são autores de seus atos individuais, mas sim, vítimas do “capitalismo”, significando este termo a ausência de uma sociedade comunista, por definição totalitária.

 Em complemento, não são os indivíduos os responsáveis em última instância pelo provimento de sua própria existência e pelo bem-estar de suas famílias, mas o Estado, ente coletivo que supostamente teria o poder de enriquecer a todos, mais ou menos, de acordo com o grau de socialização empregado na sua política. Ao Estado caberia todo o poder sobre os meios para beneficiar o conjunto das pessoas, não o fazendo meramente ou por falta de vontade política ou por “atraso” em sua estrutura de poder, ou seja, por falta de socialismo.

 Digo isso a propósito do artigo escrito na Folha de São Paulo de hoje por Jânio de Freitas (“A escala”), um exemplar típico dos muitos marxistas que recheiam a nossa imprensa. Vejamos o que escreveu:

 “A lógica brasileira de administração pública, portanto, ainda não teve motivo para incluir a insegurança urbana nas suas preocupações prioritárias. Tal como ocorre com o saneamento, o déficit habitacional, a saúde e o ensino públicos, a aposentadoria e o horror chamado INSS, a reforma agrária, o emprego. E tudo o mais que só diz respeito aos que elegem, mas não influenciam. Inclusive a favelização e o encarceramento. Não por acaso, o sórdido encarceramento à brasileira e as condições subumanas da favela têm muito em comum: um como versão extremada da outra”.

 A insegurança urbana, para ele, não é produto da somatória das falhas morais dos indivíduos, que livremente decidem fazer do crime o seu meio de vida. É culpa da pobreza que, por sua vez, é culpa do Estado. O próprio ato de apenar e fazer cumprir a pena é uma exorbitância do Estado a serviço das classes superiores. Assim pensa Jânio de Freitas, assim pensa quase a totalidade da classe letrada do Brasil. E talvez por isso o crime tenha alcançado as proporções que alcançou. Daí a justificar a ação do PCC é um passo lógico:

 “O PCC também é uma forma de defesa. À sua maneira, corresponde a uma necessidade: outra vez não por acaso, nasceu pouco depois do massacre no Carandiru. E como o Carandiru, até que o próprio Estado envergonhou-se dele e o desfez, continuou sendo o que era antes da grande rebelião e quase todos os demais presídios são carandirus menos à vista, os governos proporcionaram a prosperidade da idéia -convenhamos que inteligente- de uma organização de criminosos para pressionar o Estado. Claro, pelos modos próprios de quem deu motivo para estar encarcerado”.

 Veja bem, meu caro leitor, o PCC não é uma força de ataque que tem assassinado policiais e que conseguiu pôr em fuga toda a população paulistana no último 15 de maio. Não. É supostamente uma forma de defesa. A cegueira expressa nessa afirmação não pode ser minimizada, bem como o viés politicamente correto, que tem destruído a capacidade de a sociedade brasileira combater de forma eficaz as suas mazelas. Os mortos do Caradiru não fizeram sedição e não enfrentaram ferozmente a força policial pacificadora que cumpria o seu dever, mas foram tão somente vítimas. Haviam sido feitos prisioneiros por serem vítimas e não algazes daqueles a quem mataram e roubaram repetidas vezes. Da mesma forma, os membros do PCC são uma nova espécie de heróis urbanos, os novos Lampiões, que enfrentam de peito aberto o Estado “burguês” e insensível.

 É claro que isso é uma falsificação da realidade. O PCC é uma mera forma de organização criminosa, a mais letal que o Brasil já viu. E que é comandada politicamente desde fora dos muros dos presídios e nesse momento objetiva fazer depreciar a autoridade constituída, em prejuízo do candidato José Serra ao governo de São Paulo e de Geraldo Alckmin à Presidência da República, em benefício dos oponentes. Negar isso é negar a realidade enquanto tal.

É preciso desmascarar esse tipo de análise. Ela entorpece as pessoas, atando as mãos das autoridades constituídas para fazer o que precisa ser feito. O PCC é o crime organizado que tem agido politicamente e assim deve ser enfrentado, de forma sóbria, corajosa e implacável.

 Nivaldo Cordeiro - 16/07/2006

www.nivaldocordeiro.org

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