O ESTADO DE SÂO PAULO.
Por mais que já tenham causado estranheza e revolta os abusos nas indenizações (algumas milionárias) concedidas aos chamados “perseguidos políticos” da ditadura militar, muitos dos quais com as mãos manchadas de sangue inocente e o que menos pretendiam com seu radicalismo era ver a Democracia reinstaurada no País, a decisão da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, concedendo pensão equivalente ao soldo de general-de-brigada à viúva do capitão desertor Carlos Lamarca, ultrapassa todos os limites do bom senso e reflete a profunda inversão de valores que se pretende impor à sociedade brasileira nos dias que correm. “É uma recompensa a quem queria instaurar uma ditadura socialista no Brasil; Lamarca não combateu em nome da democracia” - sintetizou a respeito, da maneira mais lúcida, o cientista político Leôncio Martins Rodrigues.

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Antes de mais nada Carlos Lamarca foi um desertor, que por livre e espontânea vontade em 25 de janeiro de 1969 roubou 10 metralhadoras, 63 fuzis e farta munição do quartel de Quitaúna, em Osasco, partindo para a “luta armada”, com operações de assaltos a agências bancárias e seqüestros. Entre suas façanhas mais notáveis estão dois assaltos a banco que resultaram na morte do gerente Norberto Draconetti e do guarda-civil Orlando Pinto Saraiva - morto com um tiro na nuca e outro na testa, disparados pelo próprio Lamarca; a ação no Vale do Ribeira em que torturou e assassinou cruelmente o tenente Alberto Mendes Júnior, esfacelando-lhe o crânio a coronhadas; e o assassínio do agente da Polícia Federal Hélio Carvalho de Araújo, durante o seqüestro do embaixador suíço.

Lamarca não foi um “perseguido político” por suas idéias, como ocorreu com tantos homens íntegros, durante a ditadura militar. Perseguido passou a ser depois de roubar armamento, desertar e praticar crimes com extrema crueldade. Por ter rompido unilateralmente o vínculo com o Exército - ao qual traiu -, deixou de ter direito a qualquer promoção e à atualização simbólica de sua patente. Sua viúva, no entanto, já recebia pensão de acordo com a patente de coronel, posto ao qual foi promovido postumamente por decisão do Superior Tribunal de Justiça, que considerou, de forma arbitrária e descabida, que Lamarca teria chegado a esse posto se tivesse continuado na carreira militar. A partir dessa decisão, a viúva pediu que sua pensão correspondesse ao soldo de general, um posto acima do de coronel. O ministro Tarso Genro, a quem cabe homologar ou não a decisão da Comissão de Anistia, julga “juridicamente correto e politicamente adequado” esse benefício concedido à viúva de quem considera um símbolo da “resistência radical” à ditadura militar.

Além dessa promoção póstuma, que é um verdadeiro prêmio ao facínora desertor, constituir uma provocação às Forças Armadas - ainda que não tenha sido essa a intenção da Comissão de Anistia -, existe aí algo ainda muito mais sério, que é o exemplo invertido que se passa à juventude brasileira. As sociedades precisam de seus heróis, figuras históricas que se tornam modelos de comportamento, por seus atos de coragem, generosidade e descortino em defesa de valores fundamentais para o interesse coletivo. Tentar colocar o terrorista Carlos Lamarca nessa categoria histórica é pura aberração. Muitos foram os que lutaram contra a ditadura militar e contribuíram, decisivamente, para o processo de redemocratização - especialmente a partir do memorável movimento das Diretas-Já. Seguramente, entre esses não estavam Carlos Lamarca, Yara Iavelberg e seus companheiros militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) ou do MR-8. O que queriam era derrubar uma ditadura para implantar outra, mais cruel e liberticida.

Reconhecer a exemplaridade da figura de Carlos Lamarca é fazer reconhecimento de valor de seus métodos de luta pelo Poder. É particularmente alarmante que isso ocorra em um momento crítico, como o que vivemos, em que o uso da violência dos chamados “movimentos sociais” é não só tolerado, mas enaltecido, nesse despencar generalizado de valores éticos que parecem querer nos impingir.

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