Tempo perdido , vidas destroçadas...
Tempo perdido
Folha de São Paulo 19/01/2011
Depois de "falar muito e fazer pouco", governo ressuscita plano para prevenir desastres naturais, mas dá prazo muito longo para iniciar operação
"A gente falou muito e fez muito pouco." Não foram raras as áreas do governo Luiz Inácio Lula da Silva às quais se poderia aplicar o diagnóstico surpreendentemente franco de Luiz Antonio Barreto de Castro, secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).



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Que ele tenha pronunciado a frase para se referir a um sistema de alerta contra desastres naturais, no dia em que já se contavam mais de seis centenas de corpos na região serrana do Rio de Janeiro, só amplifica o estupor diante da paralisia do governo.
Em breve a cadeira de Barreto de Castro será ocupada pelo climatologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que havia proposto há seis anos um centro para tratar do assunto. Não encontrou apoio.
Após o tsunami de 2004 na Ásia, o governo federal se propôs a criar um sistema de alerta. Mas enveredou pelo caminho que quase sempre não leva a lugar algum: formou uma comissão.
Nada menos que 22 integrantes -de ministérios, institutos, Marinha e Aeronáutica- debateram a proposta por dois anos, sob a coordenação de Barreto de Castro. Chegou-se a formatar um projeto-piloto, mas os R$ 36 milhões solicitados nunca saíram.
É à sombra dessa omissão continuada que se deve receber a notícia de que o governo Dilma Rousseff pretende criar um Sistema Nacional de Alerta e Prevenção de Desastres Naturais. O anúncio equivale a dar nome próprio a uma ideia sufocada no nascedouro. E chama a atenção, após tanto tempo perdido, o prazo de quatro anos estipulado para pôr o plano completo a funcionar.
Decerto não se ergue um sistema desses da noite para o dia. Testes para a região metropolitana de São Paulo já estão em andamento, com base em levantamento de risco do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), para implementar os alertas ainda em 2011. Com outros estudos do gênero prontos, novas áreas seriam incorporadas ao longo de quatro anos.
Compreende-se a necessidade de avançar com prudência, mas é de esperar que autoridades se empenhem para concluir a tarefa em menos tempo. Em matéria de desastres naturais, compete ao governo demonstrar responsabilidade, diligência e eficácia.
Em favor do novo titular do MCT, Aloizio Mercadante (PT-SP), registre-se que havia demonstrado senso de oportunidade ao ressuscitar a ideia de um programa de previsão de catástrofes naturais no dia 10. As chuvas já castigavam então Minas Gerais, mas não haviam ainda determinado a tragédia no Estado do Rio.
Governar é decidir o que fazer e fazer o que se decidiu. A era Lula foi de dificuldades em ambos os setores. Resta saber se a presidente Dilma fará jus à fama de chefe intolerante com a rocrastinação.
 

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