Por Vinicius Torres Frete - Folha de São Paulo  - 03/02/11
Disputa de PT e PMDB por boquinhas oficiais suscita vazamento de dossiês sobre bandalha em estatais
A OPOSIÇÃO quer arrumar uma CPI a fim de azucrinar logo de cara o governo de Dilma Rousseff. Trata-se de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar os rolos de Furnas. Essa estatal elétrica é uma sesmaria que Lula havia concedido ao PMDB do Rio de Janeiro.
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Nos anos Lula, os peemedebistas gastaram muita energia tentando, por exemplo, botar a mão na direção do fundo de pensão da estatal, pelo jeito com o objetivo de dar um choque de gestão na dinheirama dos investimentos do fundo.
O rolo do momento é a amizade desse deputado Eduardo Cunha (RJ), cabeça dos peemedebês do Rio, amigo de uma empresa que faz negócios de alta voltagem com a estatal. Cunha e cia. não querem largar a rapadura da estatal, beliscada pelos petistas do Rio. Como Dilma, parece, quer dar uma moralizada mínima nessa e noutras estatais, os petistas do Rio ficaram animados com a hipótese de a partida do PMDB abrir vagas de boquinhas.
O perrengue é justamente esse. O vice-presidente da República e ministro extraordinário para rolos do PMDB, Michel Temer (PMDB), dizia ontem que o zunzum sobre CPI é apenas fruto da disputa entre PT e PMDB pela boca rica. Segundo Temer, a situação vai se acalmar assim que houver uma "readequação e realocação de cargos no governo".
Como se escrevia aqui em dezembro: "O PMDB está quieto demais depois de ter levado uma carraspana de Dilma [broncas e perdas de ministérios]. Quando virá o troco?". Quando estouraria o escândalo? Quando houvesse "...gente interessada em colocar documentos no ventilador. Tal interesse surge quando há bastante gente contrariada. Um escândalo puxa outro. O grupo parlamentar pilhado numa bandalha logo pode revelar a lama da bancada vizinha."
O PT do Rio colocou papeis sobre Furnas no ventilador. Cunha, o elétrico, respondeu com ameaça de "vendetta", no Twitter. A desorientada e desmiolada oposição ameaça tirar uma casquinha da turumbamba. Pelo menos isso. Uns tipos parlamentares governistas, fazendo pose de estadistas do cafezinho e de entrevistas de corredor do Congresso, dizem que isso é "politização baixa" do problema, uma tentativa espírito de porco de fazer escândalo e de não apurar nada. É tudo verdade. Portanto, nada mais adequado à baixeza política do país.
Que venha a CPI. Não haverá provas conclusivas, ninguém será condenado, depoimentos e interrogatórios serão aquela vulgaridade oportunista e analfabeta que conhecemos, mas algum resultado haverá. Mas o circo das CPIs é uma instituição informal do país, uma versão carnavalizada da Justiça, pois a Justiça formal praticamente inexiste para os estamentos de cima: é um circo burocrático criado justamente para não chegar a lugar algum.
Na CPI, pois, haverá "wikileaks" de documentos e fichas sujas que jamais conheceríamos de outro modo, vazamentos em geral instrutivos. Algumas figuras das sombras ou sombreadas serão algo desmoralizadas e linchadas moralmente em público, dir-se-á que fulano ou beltrano é "ligado" a isso ou aquilo.
Mas, no fim das contas, alguns dos bandalhos sofrerão uma espécie de ostracismo político-midiático-moral provisório, que é a "pena" possível que conseguimos infligir aos desclassificados no poder.

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