Folha de S. Paulo
Abandonado pelo Palácio do Planalto e por parte dos senadores aliados e oposicionistas com os quais ele mantém boa relação pessoal, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), jogou duro nos bastidores ontem. Ameaçou revelar fatos incômodos para colegas e paralisar a articulação política do governo.



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A Folha ouviu de um dos últimos aliados fiéis de Renan que o senador pretende seguir até o final na cadeira de presidente da Casa, sem se licenciar ou renunciar. O alagoano já está, aos poucos, revelando reservadamente fatos desabonadores de colegas do Senado.

Pelo menos dois casos específicos são citados por Renan. Primeiro, o de um senador que teria viajado com a namorada para os Estados Unidos com as diárias do casal pagas pelo Congresso. Outro líder partidário teria uma dívida de R$ 50 milhões com um banco estatal.

A frase-síntese das ameaças de Renan é uma metáfora alusiva a personagens da Revolução Francesa (1789): "O Renan pode falar como o Danton quando caminhava para o cadafalso: atrás de mim virás tu, Robespierre". Essa declaração tem freqüentado o gabinete da presidência do Senado como linha-mestra da estratégia renanzista para tentar se salvar.

Esse clima de terror e ameaça explica em parte porque tantos senadores se sentem constrangidos em condenar o alagoano em público.

George Jacques Danton foi personagem da Revolução Francesa. Defendeu posições moderadas depois da vitória. Acabou decapitado na guilhotina, em 1793. Foi substituído em suas funções por Maximilien de Robespierre, considerado incorruptível, mas um grande incentivador do terror que se seguiu ao período pós-revolucionário.

Antes de morrer, consta que Danton teria dito: "Minha única tristeza é que vou antes de Robespierre". No ano seguinte, em 1794, Robespierre também acabou guilhotinado.

No Senado, acuado e abandonado, Renan dividiu sua estratégia de sobrevivência política em duas faces. A pública é demonstrar cordialidade. Vai se prestar a depor no Conselho de Ética. A reservada é espalhar tacitamente o terror para outros senadores que no passado lhe pediram favores.

O presidente do Senado pediu apoio do governo anteontem e ontem. Por meio do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), tentou costurar uma acordo com o PT para que votar ainda ontem uma absolvição-relâmpago no Conselho de Ética do Senado.

Auxiliares de Lula disseram que o presidente não se envolveria na questão. Para Renan e seus aliados, o presidente segue o roteiro tradicional já adotado em relação a outros aliados. Apoio público num momento inicial e desembarque quando a situação se complica.

Solidão

Em conversas reservadas, Renan admitia a aliados que estava praticamente sozinho. Senadores antes simpáticos, como Renato Casagrande (PSB-ES) e Eduardo Suplicy (PT-SP), engrossaram o coro a favor de mais tempo de investigação para que o conselho julgasse se houve ou não quebra de decoro.

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