Jovens egípcios formam corrente para proteger
  o Museu Egípcio do Cairo e suas relíquias
Por Ruy Castro - Folha de São Paulo - 04/02/2011
Rio de Janeiro - Alguém já disse que a Grécia produziu mais história do que foi capaz de digerir. Pois imagine o Egito, por ser ainda mais antigo e carregar nas costas, pelos séculos, grande parte dessa história -pelo menos a que não foi desviada para Paris, Londres, Berlim e outras cidades que se sentiram no direito de pilhá-lo.
Uma importante amostra do que sobrou está no Museu Egípcio do Cairo, um repositório do engenho humano, exibindo artefatos com até 6.000 anos de existência -por cuja integridade o rei Tutancâmon, ele próprio quase dessa idade, vela com seus olhos arregalados e carapaça de ouro.

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Por uma dessas fatalidades, o museu fica no pior endereço do mundo esta semana: a praça Tahrir, no centro do Cairo, palco do protesto de milhões contra o ditador Mubarak e, desde quarta-feira, cenário da violência provocada pelos esbirros deste homem que está há décadas no poder. Se a brutalidade recrudescer e alguém usar armamento pesado, a história é que levará o primeiro tiro.
A ameaça ao Museu do Cairo, na verdade, começou ainda antes, no fim de semana, quando, aproveitando-se da aglomeração -e pisoteando o passado, o histórico e o sagrado-, saqueadores internacionais tentaram furtar o tesouro. O Exército os reprimiu, mas disso resultaram múmias destruídas, estátuas danificadas, vitrines quebradas, peças de joalheria roubadas.
Dias depois, foi emocionante ver dezenas de jovens de braços dados, formando uma corrente humana para cercar o museu, tentando protegê-lo de pessoas que, em nome da política, poderiam voltar à carga. Em nome da política, só isso -porque, não raro, esta apenas acoberta interesses outros, ainda menos nobres. O ser humano não falha, e um canalha de mão leve pode provocar maior prejuízo do que centenas de idealistas, de qualquer naipe, armados de coquetéis molotov

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