Editorial - Jornal do Commercio (PE) - 05/2/2011
O caos espalhou-se velozmente. A escuridão tomou contas das ruas, deixando as pessoas amedrontadas e vulneráveis à violência em várias cidades. Nos condomínios residenciais, elevadores em pane fizeram as equipes técnicas de plantão trabalhar a noite toda.
Voos tiveram que ser cancelados no Rio Grande do Norte. Saques foram anotados no Recife, e até os detentos no presídio Aníbal Bruno aproveitaram a oportunidade proporcionada pelas sombras para se rebelar. Mas a falta de energia simultânea em oito Estados nordestinos durante várias horas na noite de quinta e madrugada de sexta-feira não passou de falha corriqueira do sistema elétrico nacional, que seria confiável e imune a críticas por se tratar de um sistema “robusto e moderno”, na expressão do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. O mesmo sistema que em novembro de 2009 deixou 50 milhões de brasileiros de 18 Estados sem luz, devido a um curto-circuito que desligou Itaipu.
De acordo com a Chesf, após uma madrugada de desinformação, em que pronunciamentos oficiais foram raros e vagos, a “falha” desta vez foi provocada por um problema em uma placa de proteção na subestação Luiz Gonzaga, localizada em Jatobá, no Sertão pernambucano. Com a interligação do sistema, a região foi automaticamente isolada por inteiro das demais estações do País, gerando o blecaute que o ministro não considerou como apagão. As causas concretas serão investigadas, e a Chesf poderá inclusive ser multada, segundo resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em 1% do faturamento ou sobre o valor estimado de energia produzida nos últimos 12 meses.
A ocorrência de falhas deste porte tumultua a vida de milhões de pessoas e expõe um problema de fundo mais obscuro ainda. Na verdade, robusto é um sistema político que perpetua donatários no poder em pastas sobre as quais não possuem qualquer expertise técnica. Em 2009, o leitor deste jornal pôde ler neste mesmo espaço o editorial “Apagão dos apadrinhados”, em que destacamos: “A entrega das chaves do Ministério de Minas e Energia ao PMDB de Edison Lobão, ligado ao senador José Sarney, é emblemática do equívoco costumeiro de se trocar a competência técnica de áreas essenciais por apadrinhados políticos de última hora.”
Infelizmente, a prática parece ter sido transmitida à sucessora de Lula como um dos esteios da governabilidade – ou seja, o loteamento de cargos e verbas públicas que garantiria o apoio maciço de deputados e senadores aos projetos governistas no Congresso. Trata-se de prática anacrônica que desabona a democracia brasileira e ameaça concretamente a sustentabilidade do desenvolvimento econômico que temos experimentado na última década, especialmente no tocante à recuperação da economia nordestina. A propósito, a presidente Dilma Rousseff poderia rever esse mau hábito que configura, a bem dizer, um emblema de seu partido, o PT, ao menos em consideração aos milhões de votos obtidos na região Nordeste, que garantiram a sua vitória nas urnas nas últimas eleições. O contínuo favorecimento de apadrinhados de um dos Estados mais miseráveis da nação, como o Maranhão, e de um partido deteriorado pela disputa nas entranhas dos poder, como o PMDB, tem gerado prejuízos graves para o País. Está na hora de dar fim a esta monarquia sem nenhuma razão de ser que não a mais baixa conveniência política, da política com “p” minúsculo.
Se não há nada no mundo mais moderno do que o sistema elétrico no Brasil, como afirmou o ministro Lobão, o mesmo não se pode dizer do nosso sistema político. O apadrinhamento em lotes de poder nos ministérios de vultosos orçamentos torna os cidadãos reféns de esquemas mofados de tão velhos, precursores dos piores vícios e reprodutores de obstáculos que empatam o nosso amadurecimento como nação. O avanço da politicagem sobre o setor elétrico tem dificultado os investimentos, e chegou a provocar o enfraquecimento de uma instituição de larga tradição de gestão e conhecimento na área, como a Chesf. É preciso dar fim a este apagão gerencial. O blecaute nordestino veio coroar uma esculhambação que não pode prosseguir impune.
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