Sequestro do consul japonês Nobuo Okuchi
Produzido e editado por Maria Joseita Silva Brilhante Ustra -  
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A aparente  inércia da Vanguarda Popular Revolucionária - VPR - nesses dois primeiros meses de 1970, seus planejamentos, sua preparação e, particularmente, o sigilo com que procurava cercar suas ações permitiam prenunciar grandes atividades da organização nos meses a seguir.

No Rio Grande do Sul, afim de desviar de Sâo Paulo a atenção dos órgãos de segurança, a Unidade de Combate /Militar do Rio Grande do Sul - UC/MRS - da VPR iniciava as ações armadas. No dia 2 de março assaltou um Volks do Banco Brasul que transportava dinheiro da Companhia Ultragás, levando 65.000,00 cruzeiros.
A VPR havia iniciado o treinamento de militantes para a guerrilha rural. A área de Registro/SP estava em pleno funcionamento e sua existência e localização eram consideradas do mais alto sigilo.

Prisão de Damaris Lucena
No dia 20 de fevereiro,  quatro policiais militares ao investigar o roubo de um carro, chegaram a uma casa na região de Atibaia e, sem saber que  era um "aparelho" da VPR, ao

 
 Antônio Raimundo Lucena-"Doutor"
pedirem  documentos do morador foram recebidos a bala. Um deles, o segundo sargento PM Antonio Aparecido Posso Nogueró, foi  morto e o segundo sargento PM Edgar Correia da Silva foi  ferido gravemente. Os outros dois policiais reagiram e, no tiroteio, foi morto Antônio Lucena que militava no PCB desde 1958.
No "aparelho" foram encontrados: material cirúrgico, 11 FAL, 24 fuzis, 4 metralhadoras, 2 carabinas, 2 espingardas, 1 Winchester, explosivos e cartuchos diversos.Tanto Lucena , como sua mulher Damaris eram militantes ativas da VPR e ligados a Lamarca.
 Damaris Lucena foi presa e seus três filhos menores, depois de várias tentativas de colocá-los em instituições, acabaram abrigados na Febem, porque, segundo depoimento de um dos filhos do casal - Kito -,  publicado no livro  Mulheres que foram à luta armada de Luiz Maklouf Carvalho, nenhuma instituição os quis abrigar por medo de que Lamarca os tentasse resgatar.
A prisão de Damaris trouxe preocupação para a cúpula da VPR. Ela sabia a localização da área onde Lamarca instalava as bases para a guerrilha rural.

Prisão de Chizuo Ozava - " Mário Japa"
No dia 27 de fevereiro, Chizuo Ozava ("Mário Japa"), também militante da VPR, que em 1969  tinha ido à Argélia e feito curso de guerrilha, sofreu um acidente automobilistico em São Paulo.
Ao ser socorrido, foram encontrados farta documentação e armamento dentro de seu carro, o que provocou a sua prisão.
 
  Chizuo Osava -
  " Mario 
Japa " 
Lamarca enfurnado nas matas de Jacupiranga e  o Comando da VPR, ao tomnarem conhecimento do fato ficaram mais  apreensivos. "Mário Japa" já. tinha estado na área, em Registro, e poderia, ao ser interrogado, "abrir" a preparação guerrilheira da organização. Era necessário libertá-lo rapidamente  para preservar o sigilo das operações no Vale da Ribeira.
A forma mais expedita seria o sequestro de uma autoridade ou de um representante diplomático.
O sucesso da ação contra o embaixador norte-americano, em setembro de 1969, no Rio de Janeiro, pesou decisivamente na opção pelo seqüestro do cônsul japonês em São Paulo, Nobuo Okuchi. Mas, a VPR necessitava de auxIlio para executar a ação. Seus quadros mais experientes estavam empenhados no Vale da Ribeira ou fazendo levantamentos nas áreas de Goiás e do Norte do Rio Grande do Sul, visando á implantação das "áreas estratégicas".
Em ações mais arriscadas as organizações agiam “em frente” (duas ou mais organizações). Para o seqüestro foram empregados os seguintes militantes, coordenados
por Ladislas Dowbor (Jamil):
- Pela VPR - Vanguarda Popular Revolucionária: Liszt Benjamin Vieira (Fred); Marco Antônio Lima Dourado (Orlando ou Elói); Mário de Freitas Gonçalves (Dudu); Joelson Crispim; Osvaldo Soares (Miguel ou Fanta); José Raimundo da Costa (Moisés).
- Pela REDE - Resistência Democrática: Denise Peres Crispim (Célia); Eduardo Leite (Bacuri); Fernando Kolleritz (Ivo, Raimundo).
- Pelo MRT - Movimento Revolucionário Tiradentes: Devanir José de Carvalho (Henrique); Plínio Petersen Pereira (Gaúcho); José Rodrigues Ângelo Júnior.
O levantamento coube a Liszt Benjamin Viera, Mário de Freitas Gonçalves e Joelson Crispim.
No dia 11 de março, após terminar seus trabalhos no consulado, Nobuo Okuchi dirigia-se para a residência oficial na Rua Piauí, 874. Cerca das 18,20 horas, quando o Oldsmobile dirigido por Hideaki Doi trafegava pela Rua Alagoas, passando pela Praça Buenos Aires, um Volkswagen azul, aparentando realizar uma manobra descuidada, interpôs-se no caminho do veiculo consular na esquina da Rua Bahia. Hideaki freou o carro e chegou a reclamar da barbeiragem. Okuchi, no banco  traseiro do Oldsmobile, também não se preocupou quando viu um rapaz alto apanhar uma metralhadora,junto ao volante do Volkswagen e se dirigir para seu carro. Julgava ser uma verificação policial de rotina.
O planejamento tinha funcionado a contento. Liszt Benjamin Vieira, parado na Praça Buenos Aires, tinha assinalado para Ladislas Dowbor, na esquina das ruas Bahia e Alagoas, a aproximação do carro do cônsul. Ladislas fez o sinal convencionado para Devanir José de Carvalho que arrancou como Volks azul, cololocando-se no caminho do Oldsmobile. Marco Antonio Lima Dourado era o rapaz alto que apanhara a metralhadora no carro de Devanir e, para surpresa de Okuchi, ameaçava o motorista Hideaki Doi.
Plínio Petersen Pereira, que se encontrava junto a Ladilas, auxiliou Liszt a retirar o cônsul de dentro do carro, sob a ameaça de armas, e a conduzí-lo para um Volkswagen vermelho  que estava estacionado na Rua Alagoas, do outro lado da esquina.
  
     Notícia no Jornal do Brasil - 14/03/1970
Os militantes da VPR Osvaldo Soares e Mário de Freitas Gonçalves, ao longo da Rua Bahia, faziam a segurança e interrompiam o trânsito nas proximidades da esquina.
Okuchi, colocado no banco traseiro, teve os olhos vendados com esparadrapo e foi forçado a colocar a cabeça sobre os joelhos de Liszt, que se postara a seu lado. O motorista do carro era "Bacuri"  que partiu em velocidade, após Ladislas ocupar o outro banco da frente. O Volks azul seguiu à retaguarda, na segurança, até a Avenida Dr Arnaldo, com os outros participantes do sequestro.
"Bacuri" conduziu o carro para a Avenida Ceci, nº 1216, em Indianópolis, "aparelho" que ocupava com Denize Peres Crispim, onde Okuchi ficou "guardado" até o dia 15. Os contatos com o cônsul eram feitos por Ladislas e Liszt, que se comunicavam em inglês. Okuchi, que tinha pouco tempo de Brasil, não entendia corretamente português.
No "aparelho", permaneceram vigiando o cônsul, até a sua libertação: "Bacuri", Ladislas e. Liszt. Denize, além de cuidar das compras e da alimentação, foi a única
  
         Presos partem para o méxico
pessoa que saiu do local para levar os comunicados dos seqüestradores e as mensagens do cônsul. Iniciou fazendo contato com José Raimundo da Costa, que tinha a tarefa de difundir o acontecimento através de notificações às estações de rádio e aos jornais.
Como a imprensa estampou, no dia seguinte, uma foto de José Raimundo, como um dos prováveis seqüestradores, ele foi substituído na missão· por Fernándo Kolleritz.
Os comunicados, escritos por Ladislas, exigiam a libertacão de cinco presos  e a obtenção de asilo político no México ou outro país que a isto se dispusesse. As exigências dos seqüestradores iam da paralisação das atividades de busca e da "suspensão das violências contra os presos políticos.
Os terroristas ameaçavam dinamitar o esconderijo do cônsul, com todos que lá estivessem, caso houvesse alguma tentativa de resgate. Todos os comunicados eram assinados pelo "Comando Lucena" da VPR, em alusão ao terrorista morto em Atibaia.
No comunicado nº 4, os terroristas divulgaram a lista dos cinco presos a serem libertados. Damaris de Oliveira Lucena, esposa do falecido Antonio Raimundo de Lucena, homenageado com a denominação do Comando, e seus três filhos encabeçavam a lista. Chizuo Ozava, o principal objetivo da ação, era referido como "um nissei de nome de guerra " Mário". Completavam a lista : Diógenes José de Carvalho Oliveira; Otávio Ângelo - "Tião" -, armeiro   da ALN ; e Madre Maurina , do Lar Santana para menores, que dava guarida a militantes  da Força Armada de Libertação Nacional - FALN - de Ribeirão Preto.
Libertados os presos  pedidos e os três filhos de Damaris e transportados em segurança para o México, teve inicio a operaçao de libertação de Nobuo Okuchi. No comunicado nº 6, os terroristas exigiam a suspensão do policiamento e advertiam sobre as conseqüências trágicas para o cônsul caso fosse tentado algo contra eles.
No domingo, 15 de março, às 16 horas,  "Bacuri" retirou Liszt do "aparelho" , deixando-o na Vila Mariana.  Por volta das 18 horas, Nobuo Okuchi foi vendado e levado por Ladislas para o banco traseiro do Volks vermelho. "Bacuri" e Denize, após revistarem a casa e queimarem documentos, trancaram a porta. O "aparelho" estava sendo abandonado por questões de segurança.
 
  Jornal notícia chegada dos 5 presos e dos 3 filhos de
  Damaris.
Após rodarem algum tempo, para se certificarem de que não estavam sendo seguidos, deixaram o cônsul Okuchi na Rua Arujá, atrás da Cervejaria Brahma. Ladislas saltou com o cônsul, enquanto "Bacuri" dava uma circulada pelas redondezas com o carro, para verificar se havia vestígio de polícia. Caso não voltasse, Ladislas assassinaria o cônsul japonês.
Para sorte de Nobuo Okuchi, o Volks vermelho retornou e recolheu Ladislas, afastando-se do local. De táxi, o diplomata retornou à sua casa, cansado, mas com sua integridade física preservada.
Respeitando os compromissos assumidos e resgatado o diplomata nipônico, teve prosseguimento a luta diuturna contra o terror.
Confirmando sua comprovada eficiciência, os órgaos de segurança, no período de abril/maio, já tinham prendido os seguintes terroristas envolvidos no seqüestro: Ladislas Dowbor, Liszt Benjamin Vieira, Oswaldo Soares, Fernando Kolleritz, Miguel Varoni.  Alcery Maria Gomes da Silva e Joelson Crispim foram mortos em combate com os órgãos de segurança. 
Mas a VPR também era eficiente. Logo após o banimento de "Mário Japa", Almir Dutton Ferreira enviou um de seus contatos, Maria Adelaide Valadão Vicente, aeromoça da BRANIFF, ao México, a fim de saber o que Chizuo havia falado. Num "ponto", ao qual também compareceu Diógenes José Carvalho de Oliveira, Maria Adelaide entregou 8.000 cruzeiros a Chizuo e ficou sabendo que a "repressão pensava que a área de guerrilha que Lamarca montava em Registro era em Goiás".
Transmitida a noticia, a VPR ficaria tranquila por mais um mês.
Fontes:
Projeto Orvil
A Verdade sufocada - A História que a esquerda não quer que o Brasil conheça- Carlos Alberto Brilhante Ustra
Mulheres que foram à luta armada - Luiz Maklouf Carvalho

 

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