A sumidade e o apagão
Por Roberto Freire* - Brasil Econômico - 11/02/2011
"Nós também temos uma outra certeza, que não vai ter apagão, é que nós hoje voltamos a fazer planejamento". Esta declaração foi dada, em fins de outubro de 2009, pela então ministra da Casa Civil do governo Lula, Dilma Rousseff, duas semanas antes de um apagão, quando três linhas transmissoras de energia elétrica se desligam na região da divisa entre Paraná e São Paulo afetando 18 estados brasileiros.
Pela primeira vez Itaipu apagou totalmente. Até mesmo o Paraguai ficou sem luz.
Na oportunidade, além das causas climáticas, culpou-se a sempre recorrente herança maldita do governo FHC como o motivo central pelo evento, não tocando em uma questão essencial: o apagão tinha sido consequência de problemas na transmissão de energia.
A falha foi técnica e nada mais, apesar dos ditos investimentos maciços governamentais na área, que evidentemente não ocorreram.
O então ministro das Minas e Energia Edison Lobão, com sua proverbial competência afirmou o seguinte à época: "Esse é um episódio que, Deus queira, não acontecerá novamente".
Esquecendo-se que caberia ao governo, e especificamente ao seu ministério, tomar as devidas providências, para que fenômenos dessa espécie não ocorressem. E não esperar intervenções divinas.
Muito bem. Com o providencial nome de interrupção temporária de energia, mais uma vez um apagão, desta vez no Nordeste, deixou sem energia oito estados por mais de cinco horas, afetando mais de 40 milhões de brasileiros.
O mesmo ministro das Minas e Energia até hoje não sabe exatamente o que motivou esse novo apagão, apesar do pedido de apuração rigorosa da, hoje, presidente Dilma Roussef.
Durante muito tempo sendo apresentada como uma sumidade do setor, pela prestidigitadora propaganda do governo Lula, a presidente Dilma Rousseff, quando ministra das Minas e Energia, agiu dentro dos parâmetros dos interesses do grupo Sarney, que domina o setor elétrico há décadas.
A decantada informação de que nosso sistema elétrico é um dos mais sofisticados e seguros do mundo, não tem assento na realidade, como sabe a população que sofre todos os dias os pequenos apagões de que ninguém fala.
O problema do setor elétrico, além da falta de investimentos na manutenção do sistema, é oriundo do compadrio nas indicações dos responsáveis pelas unidades produtoras regionais, da ausência de um planejamento que priorize as pequenas hidrelétricas, que fortaleça as linhas de transmissão interestaduais, e tenha na geração de energia limpa (eólica, solar, bioenergia, etc.) não apenas um fator de desenvolvimento tecnológico, mas sobretudo a reutilização de resíduos na perspectiva de um desenvolvimento ecologicamente sustentado.
Para tanto seria fundamental quebrar a lógica que ainda orienta o preenchimento de cargos de postos-chave, tanto na parte executiva como na fiscalização, pelo critério político e investir na qualificação de uma gestão técnica de excelência.
No fim das contas o que está mais do que comprovado é que nosso sistema de energia elétrica é extremamente vulnerável e que o governo, se já fez alguma coisa como diz, precisa fazer muito mais. Mas fazer mesmo.
* Roberto Freire é presidente do PPS

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