Fui! Tô fora! Não tô nem aí !... Se virem!!!
O detalhe cruel
Nas entrelinhas
Por Alon Feuerwerker
Correio Braziliense - 11/02/2011
O corte orçamentário faz sentido. Afinal, é preciso combater a inflação. Como também faz sentido aumentar os juros para conter a demanda. Aperto monetário é para isso mesmo.
Faz sentido o governo arrochar o salário mínimo para aliviar as contas da Previdência. É a fórmula tradicional de quem precisa exibir aquele sempre exigido — pelos mercados — propósito de austeridade.
Outra coisa que faz bastante sentido é o megarreajuste concedido pelo Congresso Nacional a suas excelências, os parlamentares. Eles mereciam mesmo ganhar mais. Ganhavam pouco.
Igualmente merecido foi o reajuste ainda maior no salário da presidente da República e dos ministros.
Mais sentido ainda fazia o discurso do então presidente, quando garantia que não conduziria a economia brasileira com a bússola da eleição. Diferentemente do que, segundo ele, haviam feito os antecessores.
Até para não deixar ao sucessor uma herança maldita como a que, segundo ele, recebera em 2003.
Todas essas coisas fazem sentido, se tomadas isoladamente e analisadas apenas no plano do discurso. Juntas, ainda mais quando confrontadas com a realidade, formam um mosaico fantasmagórico, pintado com as tintas do nonsense.
O megacorte orçamentário executado pela presidente Dilma Rousseff é o reconhecimento de ter recebido uma pesada herança negativa.
A herança combina inflação em alta, juros ainda mais altos (e com tendência a subir), gastos públicos descontrolados, moeda supervalorizada, comércio exterior pouco saudável, dependência vital de investimento externo (venda de ativos, desnacionalização).
Em certo aspecto a herança é menos complicada que a de 2003. Uma coisa boa são nossas reservas cambiais. Mas elas carregam um custo altíssimo, pois o governo troca dívida barata por dívida cara.
Noutros pontos a herança é certamente mais complicada. Quem diz é o governo. Pois o aperto orçamentário agora é bem maior do que o de oito anos atrás.
Dilma tem o desafio de combater a inflação e, ao mesmo, tempo, desvalorizar a moeda. Não trivial. Ou pelo menos impedir a valorização ainda maior. A âncora cambial já parece ter chegado ao limite, um real ainda mais valorizado é impensável. E não há suporte interno para abrir ainda mais a economia, ao contrário.
O governo terá portanto dificuldade de escalar o uso de uma arma adequada nas batalhas antiinflacionárias: acelerar a importação.
Outra dúvida é se o corte orçamentário terá sido suficiente.
É uma encrenca e tanto, com consequências diretas sobre a base social do governo. Se um cenário assim tivesse que ser tratado por um presidente do bloco PSDB-DEM-PPS, o PT certamente deflagraria uma guerra santa, sob as bênçãos de todas as igrejas — religiosas ou laicas — autodenominadas antineoliberais.
Como o governo é petista, a dificuldade de mobilizar gente contra o governo será imensa. Pois a esmagadora maioria das máquinas de mobilização — sindicais, sociais, empresariais e ideológicas — estão no governo ou o apoiam politicamente. As que não apoiam o governo são devotas desse tipo de austeridade.
Ou seja, a base social vai ficar a ver navios.
O Planalto espera enfrentar a situação com o capital da presidente recém-eleita e com a disciplina da maioria parlamentar (motivada pela perspectiva da redistribuição de cargos governamentais, ou atemorizada pelas possíveis retaliações). É hora de queimar gordura e mostrar autoconfiança.
Política tem dessas coisas, desses momentos.
Mas crueldade tem limite, especialmente no plano simbólico. Governo e Congresso associarem-se num megarreajuste salarial para deputados, senadores, presidente da República e ministros semanas antes de promoverem o arrocho violento do salário mínimo e das aposentadorias — e o massacre do orçamento federal — é coisa de quem está se lixando mesmo, para valer.
Talvez estejam mesmo. Ou o poder é contido de fora ou vai desembestado. Parece ser o nosso caso.
 

 
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