Levante popular na Líbia - Oriente em chamas
Jorge Fontoura
Doutor em direito internacional, professor titular do Instituto Rio Branco e presidente do Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul
Correio Braziliense - 26/02/2011
Na escalada de violência que assola o mundo árabe, em poucas semanas o que era sólido desmancha-se no ar e os ditadores vão caindo, fulminados um a um pela avassaladora descoberta da liberdade. Foi a partir de revoltas populares, na Tunísia e no Egito, que a sociedade civil atreveu-se a repudiar seus tiranos, sem que governos ocidentais ou que organizações internacionais tivessem previamente condenado os despotismos caricatos da região. Parece claro que a história se acelera, provocada pela informação instantânea na internet e em seus tentáculos incontroláveis.
Se a verdade é a realidade, não há propaganda oficial que resista à nudez cruel dos fatos, repercutidos em Facebooks, Twitters e YouTubes. Pena que George Orwell não esteja vivo para constatar que, ao contrário de seu livro 1984, a tecnologia da informação e sua parafernália também pudessem ser ferramentas da liberdade, em vez da opressão totalitária do Big Brother contra o indivíduo e seus anseios. Em meio à crise que se propaga, do norte da África para a Península Arábica e para a Mesopotâmia, uma nova Héjira, em sentido contrário, agora não confessional, mas de caráter político e ideológico, não há como deixar de revisitar os velhos traumas do ocidente em relação ao mundo islâmico. Em particular, do “choque de civilizações”, para evocar a obra e a expressão de Hobsbawm.
No rol das culpas, a leniência de Washington e da União Europeia com ditadores convenientes também está na origem do atraso endêmico dos Estados árabes. A convivência entre as nomenclaturas ricas e, no caso, untadas de petróleo, ao lado de povos miseráveis e alijados de esperança sempre esteve no receituário das revoluções. Aliás, esses contrastes têm constituído fórmulas infalíveis para o levante das massas, das pedras da Bastilha ao muro de Berlim.
A veemente condenação do Brasil à violência repressora de governos contra manifestantes civis desarmados, na fala contundente do ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, seguramente não irá agradar os defensores da política externa seletiva, onde há os amigos e os menos amigos e, depois, eventualmente, os interesses e os princípios do Estado. Não só o governo Obama agiu assim, em primeiro momento, com relação a Mubarak, como os países europeus têm negligenciado o absurdo deficit democrático do mundo árabe, em troca de pretensa ordem regional e contenção dos fundamentalismos.
Porém, o Brasil tem responsabilidades que transcendem aos humores e às falácias do tempo, tanto como país que exerce a Presidência da Comissão de Direitos Humanos da ONU, quanto na confiança que lhe é depositada, como democracia estável, com tradição diplomática e compromissos constitucionais de solução pacífica de controvérsias. Na América Latina, não chega a ser surpresa, no entanto, constatar o esforço dos comandantes Daniel Ortega e Fidel Castro em solidarizarem-se com Kadafi, para denunciar o suposto complô internacional que estaria a persegui-lo. Seria cômico se não fosse trágico. Enquanto as revoltas se propagam ao Yemen, a Barein, onde ancora a quinta frota da Marinha dos Estados Unidos, ao Marrocos e à Argélia, sem poupar os aiatolás iranianos e seu impetuoso presidente atômico, os mortos já são contados às centenas. E, infelizmente, deverão ainda se multiplicar. Ao fim e ao cabo, no entanto, já é claro que os ditadores serão depostos e que os árabes poderão ser protagonistas de seu tempo, em busca da cultura política da qual foram alijados. De novo, contarão com a internet para olhar o mundo ao redor, onde as distâncias virtuais estão ao alcance dos dedos, a comprometer o preconceito e o dogmatismo tão próprio de suas realidades. A lamentar o sacrifício de tantas vidas — e das muitas que ainda haverão — não há como deixar de recordar a memorável frase de John Fitgerald Kennedy: os que fazem impossível a revolução pacífica tornarão inevitável a revolução violenta.
 
 

Comments powered by CComment