Barrado - O senador Renato Casagrande (PSB-ES), convidado e "desconvidado" para relatar o caso Renan Calheiros no Conselho de Ética
Por Raphael Prado
Que o Senado Federal está desmoralizado, outro senador, Jefferson Peres (PDT-AM), já disse, aqui mesmo em Terra Magazine (leia aqui). Hoje, o senador Renato Casagrande (PSB-ES), o "quase-relator" do caso Renan Calheiros (PMDB-AL), vai além:

- O Senado está em processo de mais do que desmoralização. Porque a credibilidade do Senado já é muito baixa.

O País já assistiu a uma relatoria-relâmpago na investigação sobre a origem dos rendimentos do presidente do Senado. Foi a de Wellington Salgado (PMDB-MG), que deixou o cargo menos de 24 horas depois de ser nomeado. Alegou que o que estavam fazendo no Conselho não condizia com seus princípios - isso porque queria votar o relatório que pedia o arquivamento do caso e o Conselho, pressionado pela oposição, adiou a data.
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Agora, o País assiste a uma quase-relatoria-relâmpago. O senador capixaba Casagrande foi convidado pelo novo presidente, Leomar Quintanilha (PMDB-TO) - que assumiu depois da renúncia de Sibá Machado (PT-AC) - para ocupar a relatoria. Depois, por algum motivo que o próprio senador desconhece, foi "desconvidado", em público.

- Está claro que existem forças poderosas interferindo, seja na conduta do presidente (do Conselho) ou dos relatores. E essa interferência acaba criando instabilidade.

Casagrande não se arrisca a dizer quem estaria exercendo essa "força poderosa". Mas sabe que ela vem prejudicando o andamento dos trabalhos do Conselho de Ética, que, agora, ganha mais um personagem: Joaquim Roriz (PMDB-DF), flagrado em uma conversa telefônica negociando a partilha de de R$ 2 milhões no escritório do amigo Nenê Constantino, pai do dono da Gol.

Leia a íntegra da conversa com o senador Renato Casagrande:

Terra Magazine - Esse último episódio, do convite e do "desconvite" prova a teoria do senador Jefferson Peres (PDT-AM), por exemplo, de que a Casa está em processo de desmoralização?
Renato Casagrande - O Senado está em processo de mais do que desmoralização. Porque a credibilidade do Senado já é muito baixa. Quando uma instituição não consegue responder a sua crise, perde o sentido para a opinião pública, para a população. E o Senado hoje é o Conselho de Ética e, depois de 1 mês e 10 dias, ele não consegue dar dinâmica à investigação do caso Renan Calheiros, e agora chega mais uma investigação, do caso Joaquim Roriz. Não se consegue dar dinâmica nem estabelecer resultados nesses casos. E quando você não consegue responder a crise, você perde a credibilidade com a opinião pública.

Falta muita vontade, ou pelo menos existe um interesse de que falte vontade para conduzir a investigação. Por que a imprensa consegue ir aos açougues de Alagoas, por exemplo, e o Senado não?
Eu acho que os senadores não precisam ir aos açougues de Alagoas. Eles têm é que fazer diligências para a Polícia Federal e outros órgãos irem. Mas não consegue por isso, porque o Conselho paralisou e está engessado pela disputa interna no Conselho e por essas interferências externas, que fizeram com que criasse tanta instabilidade no Conselho, como tivemos nesses últimos dias. A saída de um relator, a renúncia do presidente... quando achávamos que tudo ia voltar ao normal com a escolha de um presidente e de um relator novo, não é bem assim, porque logo depois da eleição do presidente foi o dia de maior instabilidade no Conselho. Então essas interferências externas têm promovido uma paralisia no Conselho de Ética.

De onde vêm essas interferências externas?
Olha, como são interferências que não têm articulações explícitas, nós não podemos acusar quem faz. Mas com certeza, as pessoas que têm ligação com o presidente Renan Calheiros estão adotando uma tática de um quadro ideal que possa favorecer o presidente. E isso tem ajudado a travar o Conselho. As pessoas têm que compreender, até quem é amigo e está nessa cooperação com o presidente, que o único jeito de ajudá-lo é fazer a investigação.

Houve participação do presidente Renan Calheiros nesse episódio do "desconvite"?
Não sei se houve, não posso afirmar. Nada foi conversado comigo sobre isso. Mas está claro que existem forças poderosas interferindo, seja na conduta do presidente ou dos relatores. E essa interferência acaba criando instabilidade.

Se houver um novo convite para assumir a relatoria desse caso, o senhor aceita?
Vamos avaliar. Eu preciso avaliar as condições políticas no Conselho, porque agora o presidente (Leomar Quintanilha, do PMDB-TO) também está sofrendo um problema (há um processo contra ele no Supremo Tribunal Federal). Então eu tenho que avaliar as condições políticas, a resposta que o presidente solicitou à Assessoria Legislativa. Eu só posso responder isso no início da semana que vem. E eu não vou responder coisa que não existe. Como não tem um convite formal, eu também não posso nem responder.

Terra Magazine
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