Correio Braziliense - 20/03/2011
No encontro com o líder americano, Dilma Rousseff ressaltou a agenda comum entre os países, mas não abriu mão de cobrar o fim de medidas protecionistas dos EUA e uma vaga no Conselho de Segurança da ONU
Uma visita para definir marcos gerais, pautada por conversa cordial, mas franca. Assim pode ser sintetizada a agenda do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com a presidente Dilma Rousseff. Foram 11 horas e 35 minutos em Brasília na primeira passagem do líder da principal potência mundial pela capital federal.
 Apesar da novidade do contato, a presidente não se furtou ao direito de colocar o dedo na ferida que permeia as relações diplomáticas e comerciais entre Brasil e Estados Unidos e ressaltou a “retórica vazia” que marcou o diálogo das duas nações “no passado”. No Palácio do Planalto, Dilma reivindicou o fim de medidas protecionistas que prejudicam o comércio de carne bovina, algodão, laranja e etanol no mercado americano e cobrou uma vaga brasileira no Conselho de Segurança das Nações Unidas. “Temos pleiteado a ampliação do Conselho de Segurança da ONU. Aqui não nos move o interesse da ocupação burocrática da representação. O que nos mobiliza é a certeza de que um mundo multilateral produzirá benefícios para a paz e harmonia entre os povos.” A pungência do discurso de Dilma agradou a aliados e opositores.
A sinceridade da declaração pública foi mantida durante a reunião fechada entre os chefes de Estado e ministros dos dois países. Com o argumento de que antes do apoio definitivo dos EUA para que o Brasil conquiste assento no Conselho de Segurança é preciso “ampliar” regras de participação no órgão, a presidente voltou a tocar no assunto, mas não ouviu de Obama qualquer sinalização positiva. 
Insistência
“Nós gostaríamos que tivesse havido um apoio mais enfático, mas houve avanço em relação às posições anteriores dos EUA”, afirmou Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência para Assuntos Internacionais. Garcia contou que durante a conversa Dilma “insistiu” na necessidade de os Estados Unidos aceitarem a criação de mecanismos para garantir maior equilíbrio entre o comércio das nações e que a presidente foi assertiva ao dizer a Obama que a política monetária dos EUA cria “complicadores”, pois tem influência sobre a política cambial.
Diante dos assuntos espinhosos, o presidente americano apenas “tomou nota”, segundo o assessor para Assuntos Internacionais. “Não estávamos condicionando a viagem a isso. A viagem tem importância em si, é a primeira dele à América do Sul em um governo recém-iniciado”. De concreto, Obama anunciou o acordo de intercâmbio entre instituições de ensino americanas e brasileiras, que pode beneficiar 100 mil estudantes e professores.
Os 10 acordos internacionais assinados não representam compromissos definitivos, observam analistas de políticas internacionais. Os documentos, contudo, têm valor simbólico para definir uma agenda de negociação entre Brasil e Estados Unidos. Obama precisa do aval do Congresso para bater o martelo sobre mudanças nas relações exteriores.
O caráter simbólico da visita, contudo, é aplaudido por especialistas (leia mais na página 6). Ao decidir manter o cronograma no país, incluindo a visita ao Rio de Janeiro, mesmo durante o conflito da Líbia, Obama demonstrou que tem interesses em melhorar a relação com a América do Sul. Se decidisse desmarcar a visita para dar atenção aos conflitos internacionais, a mensagem seria potencialmente negativa. Ao manter o compromisso, Obama “elegeu” o Brasil como potência não somente regional, mas mundial. Deu ao país o status de representante formal da América do Sul na comunidade internacional.
No almoço das autoridades no Itamaraty, a presidente demonstrou interesse pelo modelo de saúde americano. Obama explicou em detalhes o funcionamento do sistema de financiamento do setor e contou que o Congresso analisa mudanças para incrementar os recursos da área. Dilma  prometeu visitar os Estados Unidos no segundo semestre
 

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