Do Observatório de Inteligência
Causa indignação a descaracterização da nossa história e a clara intenção de cristalizar a falsa idéia de que Luiz Inácio da Silva foi o único presidente do Brasil que merece consideração do povo brasileiro. Não há nada melhor para um perfeito teomaníaco que fazê-lo sentir-se Deus.

O site deturpa, de A a Z, a história do país, apresenta-se como instrumento de inconscientização, alimentando a doutrina gramscista a que estamos todos submetidos. Marco Antonio Villa *, em matéria do ESP de domingo, afirma que o "site da Presidência é um verdadeiro “samba do crioulo doido” que reescreve a história do País":

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O site da Presidência da República é muito curioso. Ao abri-lo, o leitor verá um trem em alta velocidade, inclusive com som, simbolizando o PAC, isso quando há mais de meio século as ferrovias foram consideradas símbolos do atraso e as rodovias a essência da modernidade. Deixando isso de lado, vale a pena clicar no retângulo azul, no alto da página: “Versão para crianças”. Nele o leitor encontrará uma lista dos presidentes da República, de personalidades históricas, fará um passeio virtual (pobre, é verdade) pela sede do governo e ainda lerá um vocabulário, chamado abc.

A lista dos presidentes é muito estranha. Primeiro, na versão para crianças, as fotos foram 'rejuvenescidas', ou seja, o retrato de cada presidente ficou em forma de caricatura e com vários anos a menos, não necessitando, como o atual presidente, de periódicas aplicações de botox. Segundo, não é possível entender por que lá estão presentes as Juntas Militares de 1930 e 1969, que somente ocuparam interinamente a Presidência. E mais: lá está Júlio Prestes, o candidato vencedor das eleições de 1930, mas que não assumiu o cargo, pois um mês antes (outubro) começou a Revolução que levou Getúlio Vargas ao poder.

Quando a criança, para usar o linguajar do pecuarista Renan Calheiros, clicar no “leia mais”, encontrará as fotos dos presidentes. A de Lula, estranhamente, é a única colorida. Todas as outras são em preto e branco e algumas delas mostram informalmente os presidentes.

As biografias de vários presidentes foram redigidas de forma crítica, especialmente os do regime militar. Mas a biografia de Lula, a mais longa, é só recheada de elogios. E ainda há um link para quem quiser também conhecer a palpitante história da primeira-dama. De acordo com a hagiografia, em 1975, Lula “deu uma nova direção ao movimento sindical brasileiro”. As célebres greves de 1968, em Osasco e Contagem, não devem ter ocorrido: “Em maio de 1978, aconteceu a primeira greve de operários metalúrgicos desde 1964, em São Bernardo do Campo, sob a liderança de Luiz Inácio da Silva, Lula” (esta passagem está na biografia reservada a Ernesto Geisel). Em 1979, ele “começou a pensar na criação de um partido”. Cita a prisão, mas omite a generosa aposentadoria que recebe há anos. Ele, sempre ele, “liderou uma mobilização nacional contra a corrupção que acabou no impeachment, processo que afastou Fernando Collor da presidência”. (Não se sabe se isto será mantido, pois hoje Fernando Collor faz parte da base governamental no Senado e foi recebido de forma efusiva, recentemente, no Palácio do Planalto.)

A biografia de Lula é tão importante que “invadiu” a de outros presidentes: Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Como se ele fosse um personagem onipresente na história do Brasil dos últimos 30 anos. Ficamos sabendo, na biografia de Lula, claro, que a sua posse “reuniu pela primeira vez na história do país, uma multidão de 150 mil pessoas”.

Depois dessa overdose de Lula, a criança passa para o segundo item: o ABC. É um vocabulário para ensinar o dia-a-dia do governo. Das 26 letras, seis não mereceram nenhuma entrada, algumas até justificáveis (w, k, y). Infelizmente o vocabulário está recheado de erros e aqui serão expostos somente alguns deles. A letra j apresenta uma curiosa definição da palavra justiça, até explicável frente à conjuntura que vivemos: “Antigamente, era função da lei definir o justo e o injusto. Assim, o permitido por lei seria justo. E o que a lei proibisse, injusto. Mas, depois da ascensão do fascismo (Itália, 1922), esse conceito deixou de ser aceito. Os fascistas mostraram ao mundo que era possível criar uma sociedade injusta baseada em leis”. Convenhamos que a explicação é esdrúxula, revelando um absoluto desconhecimento histórico (entre outros, até sobre fascismo: somente em 1926 é que é possível dizer que a Itália é fascista) e uma pobreza analítica de fazer inveja a um senador do Conselho de Ética.

Depois de “explicar” fascismo para uma criança, o vocabulário na letra n resolveu apresentar o significado de Nação. Definiu Nação como um grupo que vive em determinado território, limitado por fronteiras, e que respeita as mesmas instituições (leis, governo) e deu como exemplo (?) os ianomâmi. Em seguida, ficamos sabendo que “o Brasil se tornou uma nação em 1822” (confundindo a noção de Estado e Nação), “quando o país ganhou a sua primeira Constituição.” Aí já é demais: a primeira Constituição é de 1824. Em tempo: não sei se é um ato falho, mas o tema das constituições não é o forte do redator. Ele diz, na introdução da galeria dos presidentes, que a Constituição de 1891 adotou o voto secreto, o que também não é correto (o artigo 47 fala em sufrágio direto).

Mas é na letra p que há o maior número de barbaridades. Logo ficamos sabendo que “o presidente da república é o chefe do Executivo e escolhe quem vai chefiar o Judiciário.” (??!!) Evidentemente que está absolutamente errado: a escolha do presidente do STF é prerrogativa dos 11 ministros que compõem aquela Corte. Na frase posterior, a criança é informada que o “presidente da Câmara dos Deputados é o chefe do Legislativo”. Presume-se que o verbete queria informar sobre o presidente do Congresso Nacional, ou seja, o presidente do Senado Federal. O verbete termina dizendo que os “representantes do povo são eleitos por um período determinado, que pode variar de quatro a seis anos.” Mais uma informação incorreta, pois os senadores têm mandato de oito anos.

Ainda tem o link para as cerimônias. O site cita o hasteamento da bandeira e apresenta 10 fotos, das quais Lula está em seis; e também faz referência às cerimônias de posse, expondo nove fotos, todas de Lula. É como se na história da República somente ele tivesse sido o presidente que tomou posse. A criança, continuando neste passeio pela História do Brasil pelo método confuso, como já fez Mendes Fradique, pode acessar o link das personalidades históricas. Aí, recordando Sérgio Porto, é o samba do crioulo doido (e pior: teve a participação de historiadores). Na biografia de Duque de Caxias, a criança será informada de que ele participou do afastamento de D. Pedro II. O redator do verbete mais uma vez exagerou: Caxias morreu nove anos antes, em 1880, portanto não poderia ter participado, ao menos na forma corpórea, do 15 de novembro de 1889.

Como o governo Lula está preocupado com a educação política das crianças, o mais recomendável seria retirar do ar esse conjunto de desinformações. É um misto de aparelhamento do Estado, de culto da personalidade do presidente, de profundo desconhecimento básico da história do Brasil e de suas instituições: mantê-lo no ar é um desserviço. Em tempo: só para efeito de comparação, convido o leitor a visitar o site da Presidência da República francesa.


* Marcio Antonio Villa é historiador, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor, entre outros, de Jango, um Perfil (Editora Globo)

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