Cel Jarbas Passarinho, em
entrevista recente
* Por Jarbas Passarinho 
 Correio Braziliense  - 30 de março de 2004

O embaixador americano Gordon impressionara-se com a inconfidência que lhe fez Samuel Wainer. Íntimo de Jango, dele ouvira dizer-lhe sob grande emoção que "poderia manter a rotina de cortar fitas em inaugura ções e fazer discursos nos feriados nacionais, ou renunciar como fizera Jânio, ou poderia dar o salto!" Ainda assim, foi cauteloso ao sintetizar para Washington, nos últimos dias de março, sua avaliação. Telegrafou informando a probabilidade de "haver um golpe dado por Goulart, um golpe contra Goulart ou o início de uma longa luta armada".
 A preparação legitimada do autogolpe, tentou-a Jango, ao propor o Estado de Sítio, mas malogrou a manobra porque - revela Prestes - não contou com os comunistas, receosos de que, depois de aniquilado o governador Carlos Lacerda, fossem eles os próximos. O autogolpe de 1937 contou com respaldo total dos militares. Falto disso, Jango buscou o apoio dos subalternos das Forças Armadas. Tenho, para mim, que o autogolpe não teria êxito se baseado somente nas greves políticas da ilegal CGT, ou no discurso carbonário de Brizola para fechar o Congresso, nem mesmo com o apoio de Prestes. Era preciso sublevar os subalternos das Forças Armadas.
Dois exemplos falam por si sós. Em setembro de 1963, sargentos da Aeronáutica e da Marinha revoltaram-se em Brasília. Dominaram o ministério da Marinha, o quartel dos Fuzileiros Navais e perderam um marinheiro, morto no ataque ao Minist ério da Aeronáutica. Foram vencidos e presos. Mas o motim ficaria impune. As gotas d`água vieram sucessivas. O motim dos marinheiros, no Rio, no dia 25 de março de 1964, desafiou o ministro da Marinha, que mandou prendê-los pelos fuzileiros - que não só se recusaram a cumprir como confraternizaram com os amotinados. O presidente preferiu exonerar o ministro da Marinha e nomear outro, dos três indicados pelos rebelados. Finalmente, o presidente, em 30 de março, aceita receber homenagem dos sargentos no Rio de Janeiro. Dois discursos são ovacionados: o do marinheiro Anselmo e o do presidente Jango, na mais radical fala de sua vida pública, ao acenar com "as represálias do povo". Que precisava mais, para o golpe vindo de cima?
O general Castello Branco, chefe do Estado Maior do Exército, tentou ainda, em 20 de março, advertir o governo sobre os rumos que tomava. Distribuiu uma circular destinada aos seus subordinados. Ainda era o legalista de sempre, mas advertia: "A insurreição é um recurso legítimo de um povo. Está ele pedindo ditadura militar ou civil e Constituinte? Parece que ainda não". Até 20 de março, pois, éramos antigolpistas. Depois do motim dos marinheiros e do discurso incendiário no Automóvel Clube, as Forças Armadas foram
atingidas no âmago de seus pilares: a disciplina e a hierarquia. Nada mais havia a aguardar, senão o golpe preventivo ou contragolpe.
Tudo o que está aqui citado é indesmentível, exceto por quem, como canta Camões, "negue também ao sol a claridade e certifique-se mais que o fogo é frio". Pois esses negativistas abundam. Mentem deslavadamente. Um que a despeito de religioso católico, que não deveria mentir, disse que a CIA foi a mentora dos oficiais do contragolpe e que Lincoln Gordon isso  admitiu. Grossa patranha. Mentem os que negam o apoio maciço da sociedade civil ao contragolpe que matou o golpe. Cínicos são os que dizem ter lutado contra uma ditadura quando defendiam ardorosamente a ditadura de Fidel Castro e Stálin. Tartufos, os que simulam ter lutado por direitos humanos ofendidos ao mesmo tempo
em que os aplaudia violados em Cuba. Não foi à toa que Voltaire disse, diante de farsas dessa natureza: "Assim se escreve a História".
* Coronel Reformado - Foi ministro de Estado, governador e senador pelo Pará.

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