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Categoria: Contra Revolução de 1964
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 Julgamentos da Revolução
Rachel de Queiroz - O Cruzeiro - 4 de julho de 1964
Não há repouso para o guerreiro
"Com a vitória da revolução de 31 de março, houve um guerrilheiro que resolveu ensarilhar armas declarando que ia repousar, depois de tantos anos de diário combate. Mas creio e espero que não consiga se manter afastado por muito tempo do serviço ativo: o espírito não se aposenta, e o espírito de Eugênio de Gudin – pois é dêle que falo – não conhece fadiga, nem velhice, nem carece de repouso, nem se acomoda com a inação.
Quer fazer mestre Gudin como Deus Nosso Senhor depois do sétimo dia: considerou que tudo estava bem e que podia repousar. Mas isso era no mundo contemporâneo do Paraíso terrestre, professor. E assim mesmo, mal Deus começou o seu repouso, lá veio a serpente e arrastou anjos e homens na queda.
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Aqui então, tudo ainda está muito longe de andar bem – e as serpentes pululam como minhocas. Os homens da revolução estão fazendo um esfôrço hercúleo – e o senhor quer tirar de debaixo do pêso os seus ombros, só aparentemente frágeis, mas que nós sabemos capazes de levantar montanhas? Ah, isso não.
Muito engraçado: quando estavam no poder os desatinados, os corruptos, os levianos, os malvados, o senhor aceitava a obrigação de clamar diàriamente, quase sòzinho; êles eram o inimigo, mas o senhor não lhes negava o favor da sua advertência, a ajuda dos seus sábios conselhos, chegavam a dar a honra do debate aos mais esclarecidos, embora de vez em quando os castigasse com o bom açoite da verdade e da ironia. (Mas quem castiga faz obra de amor, não é mesmo?
Agora, porém, que os nossos amigos estão tomando conta deste País saqueado (a expressão é do Presidente da República) e tratam de reerguer o que virou ruína, e tentam recuperar o que não caiu por terra, e se empregam a caçar os facínoras fugitivos, e iniciam o processo dos grandes criminosos, o senhor – testemunha e profeta solitário que passou tantos anos, tão compridos, a clamar naquele deserto cuja fauna quase única eram os escorpiões e os gafanhotos – o senhor agora quer encostar o seu cajado à parede e ser apenas espectador? Torno a dizer que não.(...)"

(Editorial do Jornal do Brasil, de 31 de março de 1973 ) "Vive o País, há nove anos, um desses períodos férteis em programas e inspirações, graças à transposição do desejo para a vontade de crescer e afirmar-se.
Negue-se tudo a essa revolução brasileira, menos que ela moveu o País, com apoio de todas as classes representativas, numa direção que já a destaca entre as nações com parcela maior de responsabilidades"

Editorial assinado por Roberto Marinho - O Globo - 07/10/1984,
“Participamos da Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada. Quando a nossa redação foi invadida por tropas antirevolucionárias, mantivemo-nos firmes em nossa posição. Prosseguimos apoiando o movimento vitorioso desde os primeiros momentos de correção de rumos até o atual processo de abertura, que se deverá consolidar com a posse do novo presidente.
Temos permanecido fiéis aos seus objetivos, embora conflitando em várias oportunidades com aqueles que pretenderam assumir o controle do processo revolucionário, esquecendo-se de que os acontecimentos se iniciaram, como reconheceu o marechal Costa e Silva, “por exigência inelutável do povo brasileiro”. Sem o povo não haveria revolução, mas apenas um "pronunciamento" ou "golpe" com o qual não estaríamos solidários.
O Globo, desde a Aliança Liberal, quando lutou contra os vícios políticos da Primeira República, vem pugnando por uma autêntica democracia, e progresso econômico e social do País. Em 1964, teria de unir-se aos companheiros jornalistas de jornadas anteriores, aos "tenentes e bacharéis" que se mantinham coerentes com as tradições e os ideais de 1930, aos expedicionários da FEB que ocupavam a Chefia das Forças Armadas, aos quais sob a pressão de grandes marchas populares, mudando o curso de nossa história.
Acompanhamos esse esforço de renovação em todas as suas fases. No período de ordenação de nossa economia, que se encerrou em 1977. Nos meses dramáticos de 1968 em que a intensificação dos atos de terrorismo provocou a implantação do AI-5.
Na expansão econômica de 1969 a 1972, quando o produto nacional bruto cresceu à taxa média anual de 10 %. Assinale-se que, naquele primeiro decênio revolucionário, a inflação decrescera de 96 % para 12,6 % ao ano, elevando-se as exportações anuais de 1 bilhão e 300 mil dólares para mais de 12 bilhões de dólares. Na era do impacto da crise mundial do petróleo desencadeada em 1973 e repetida em 1979, a que se seguiram aumentos vertiginosos nas taxas de juros, impondo-nos uma sucessão de sacrifícios para superar a nossa dependência externa de energia, a deterioração dos preços dos nossos produtos de exportação e a desorganização do sistema financeiro internacional. Essa conjunção de fatores que violaram a administração de nossas contas externas obrigou- nos a desvalorizações cambiais de emergência que teriam fatalmente de resultar na exacerbação do processo inflacionário.(...)
(...)Volvendo os olhos para as realizações nacionais dos últimos vinte anos, há que se reconhecer um avanço impressionante: em 1964, éramos a quadragésima nona economia mundial, com uma população de 80 milhões de pessoas e uma renda per capita de 900 dólares; somos hoje a oitava, com uma população de 130 milhões de pessoas, e uma renda média per capita de 2.500 dólares.  
O presidente Castello Branco, em seu discurso de posse, anunciou que a Revolução visava “ à arrancada para o desenvolvimento econômico, pela elevação moral e política”. Dessa maneira, acima do progresso material, delineava-se o objetivo supremo da preservação dos princípios éticos e do restabelecimento do estado de direito. Em 24 de junho de 1978, o presidente Geisel anunciou o fim dos atos de exceção, abrangendo o AI-5, o Decreto-Lei 477 e demais Atos Institucionais. Com isso, restauravam-se as garantias da magistratura e o instituto do habeas-corpus. Cessava a competência do presidente para decretar o fechamento do Congresso e a intervenção nos estados, fora das  terminações constitucionais. (...)
Enquanto vários líderes oposicionistas pretenderam considerar aquelas medidas fundamentais como "meros paliativos", o então deputado Tancredo Neves, líder do MDB na Câmara Federal, reconheceu que a determinação governamental ´foi além do esperado´.
Ao assumir o governo, o presidente Flgueiredo jurou dar continuidade ao processo de redemocratização. A concessão da anistia ampla e irrestrita, as eleições diretas para governadores dos estados, a colaboração federal com os novos governos oposicionistas na defesa dos interesses maiores da coletividade, são demonstrações de que o presidente não falou em vão.
Não há memória de que haja ocorrido aqui, ou em qualquer outro país, que um regime de força, consolidado há mais de dez anos, se tenha utilizado do seu próprio arbítrio para se auto-limitar, extinguindo os poderes de exceção, anistiando adversários, ensejando novos quadros partidários, em plena liberdade de imprensa. É esse, indubitavelmente, o maior feito da Revolução de 1964. Neste momento em que se desenvolve o processo da sucessão presidencial, exige-se coerência de todos os que têm a missão de preservar as conquistas econômicas e políticas dos últimos decênios.
O caminho para o aperfeiçoamento das instituições é reto. Não admite desvios aéticos, nem afastamento do povo. Adotar outros rumos ou retroceder para atender a meras conveniências de facções ou assegurar a manutenção de privilégios seria trair a Revolução no seu ato final.”
O Globo publicou, em 07/10/1984, o seguinte editorial, assinado por Roberto Marinho, onde ressalta os méritos do regime militar.
Depoimento de Luiz Inácio Lula da Silva, dado, em 03/04/1997, a Ronaldo Costa Couto e publicado no livro Memória Viva do Regime Militar. Brasil: 1964-1985 - Editora Record 1999.
“... Agora, com toda a deformação, se você tirar fora as questões políticas, as perseguições e tal, do ponto de vista da classe trabalhadora o regime militar impulsionou a economia do Brasil de forma extraordinária. Hoje a gente pode dizer que foi por conta da  dívida externa, “milagre” brasileiro e tal, mas o dado concreto é que, naquela época, se tivesse eleições diretas, o Médici ganhava. É o problema da questão política com as outras questões. Se houvesse eleições, o Médici ganhava. E foi no auge da repressão política mesmo, o que a gente chama de período mais duro do regime militar. A popularidade do Médici no meio da classe trabalhadora era muito grande. Ora, por quê? Porque era uma época de pleno emprego. Era um tempo em que a gente trocava de emprego na hora que a gente queria. Tinha empresa que colocava perua para roubar empregado de outra empresa ...”
... Eu acho que o regime militar, ele com todos os defeitos  políticos, com todas as críticas que a gente faz, acho que há uma coisa que a gente tem de levar em conta. Depois do Juscelino, que estabeleceu o Plano de Metas, os militares tinham Planos de Metas.
O Brasil vai do jeito que Deus quer. Não existe projeto de política industrial, não existe projeto de desenvolvimento. E os militares tiveram, na minha opinião, essa virtude. Ou seja, pensar o Brasil enquanto Nação e tentar criar um parque industrial sólido.
Indústrias de base, indústrias de setor petroquímico...
Isso, obviamente, deu um dinamismo. É por isso que os exilados, quando voltaram tiveram um choque com o Brasil. Porque o Brasil, nesse período, saiu de um estado semi-industrial pra um estado industrial...”