Guilherme Fiúza
Guilherme Fiuza
O GLOBO - 16/04/11
No Brasil é assim: quando o culpado morre, alguém tem que ser posto rapidamente no seu lugar, para o ritual da malhação do Judas. Algum alvo fácil e visível, que permita aos justiceiros ao menos uma bordoada com estilo, no meio da praça.
A chacina de Realengo desnorteou os justiceiros, confundiu os explicadores. O assassino, que se matou, não representa significativamente nada, nem ninguém. Não era terrorista, nem traficante, nem pitboy.
Também não era um excluído da sociedade de consumo. Era só um pobre coitado, alucinado por seu próprio sofrimento e desordem mental. E agora? A quem metralhar?Sobrou para os brasileiros que votaram contra a proibição da venda de armas. Dentre os Judas de ocasião, esses foram os preferidos para expiar o pecado sanguinário de Wellington Menezes de Oliveira. Os 64% que disseram "não" no referendo de 2005 estão sendo chamados agora, pelas vozes da razão, a examinar suas consciências diante de 12 crianças inocentes mortas. Barra pesada.
Pesada e obtusa. A equação que liga o resultado do referendo aos disparos na escola de Realengo é tortuosa como a mente do assassino. Parte do princípio de que aqueles 64% votaram contra o desarmamento. Um princípio que é o fim. Difícil acreditar que mais de cinco anos não foram suficientes para a compreensão desta nuance. Aliás, os plantonistas do bem detestam nuances. Dividem o mundo entre bandidos e mocinhos, passam fogo no inimigo imaginário e correm para o abraço.
A ideia de proibir o comércio de armas de fogo está no hall daquelas boas intenções que abarrotam o inferno. É o pacifismo, mais uma vez, saindo pela culatra. Enquanto houver fabricação de armas e demanda por elas - e haverá, até o fim dos tempos -, a proibição da venda terá um efeito principal: o formidável crescimento do mercado negro, vitaminando traficantes, atravessadores e varejistas piratas como os que armaram Wellington.
Considerando que o atirador de Realengo não faz o tipo que compra revólver em loja e exige nota fiscal, o "sim" no referendo seria uma ótima notícia para os candidatos a serial killer. A oferta dos brinquedinhos de matar certamente explodiria nesse camelódromo subterrâneo. Talvez até com serviço de delivery, munição de brinde e venda a crédito (no paralelo, o SPC é a vala. Muito mais eficiente).
A patrulha pacifista não está nem aí para os efeitos colaterais da sua bondade. Prefere ficar repetindo anos a fio - como se vê volta e meia nos jornais, na TV e no rádio - que o voto contra a proibição da venda de armas foi um voto contra o desarmamento. Não perca tempo explicando que são coisas diferentes. Os que apertaram o "não" são 60 milhões de Rambos em potencial, e ponto final. E ajudaram Wellington a apertar o gatilho. Se você é um desses, fique na sua. Daqui a pouco o Michael Moore aparece por aí para botar o dedo na sua cara.
Enquanto o justiceiro americano não vem, José Sarney vai fazendo a sua parte. Como se sabe, justiça é com ele mesmo. (Que o diga o "Estadão", há quase dois anos sob censura judicial, impedido de publicar notícias sobre a investigação da família Sarney por tráfico de influência.) Rápido no gatilho, o presidente do Senado entrou no duelo das manchetes: municiado pela comoção geral com o massacre de Realengo, propôs um plebiscito para rever o referendo de 2005. Generoso, Sarney decidiu dar à sociedade a chance de corrigir seu erro e votar direito. Afinal, se ela fosse boa nisso, talvez ele não estivesse onde está.
Sarney fazendo campanha pela proibição da venda de armas é a melhor foto desse Sábado de Aleluia antecipado. Entre bofetadas no bom senso, pontapés de oportunismo e cusparadas de diagnósticos levianos, o que importa é tirar sua casquinha do Judas enquanto é tempo. A tragédia já está escorregando para os pés de página, daqui a pouco não tem mais graça.
Curiosamente, há uma corrente de opinião defendendo exatamente um freio no noticiário sobre Realengo - pelo menos quanto às mensagens deixadas pelo atirador. Um doido covarde não pode se apresentar como vítima da covardia, encerram os virtuosos. É um "animal", concluiu o governador do Rio. Talvez esse Brasil voluntarista, que quer fuzilar a violência proibindo a venda de armas, ache que pode também proibir os Wellingtons. Basta bombardear as razões do facínora, e enterrá-las com ele para evitar contágio.
Doce ilusão. Desprezar a mente e o contexto do assassino, desclassificando-o como um aborto da natureza, é o maior dos riscos. Wellington não é uma assombração, não basta acender a luz para fazê-lo desaparecer. É preciso investigar meticulosamente a sua caixa-preta. Esse é o único caminho para se tentar, talvez, identificar e prevenir o aparecimento de outros.
É indigesto prolongar esse show de horrores. Mas é melhor do que ficar discutindo referendos e outros fantasmas da boa-fé. 
 

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