Tambor em outro ritmo
CELSO MING - O Estado de São Paulo - 17/04/11
Em ambiente inédito (em muitos anos) de deterioração das expectativas e certa perda de credibilidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reunirá nesta quarta-feira para redefinir o nível dos juros básicos (Selic), que hoje está nos 11,75% ao ano.
O contexto é de disparada dos preços. Se não for agora em abril, provavelmente em maio ou junho, a inflação medida em 12 meses terá saltado para além da meta expandida, ou seja, para além dos 6,5% toleráveis, já incluídos aí os dois pontos porcentuais de escape admitidos.
A perda de credibilidade ficou evidenciada pela divergência de projeções da inflação entre a autoridade monetária e o resto do mercado.
Enquanto o Banco Central acena com uma inflação de 5,6% em 12 meses, os agentes econômicos, auscultados semanalmente pelo próprio Banco Central e divulgados pela Pesquisa Focus, vão trabalhando com números cada vez mais altos.
Essa quebra na capacidade de condução das expectativas pelo Banco Central é consequência, a um só tempo, de apostas de alto risco, incomuns entre autoridades monetárias, e da tentativa de forçar demais essas apostas para fazer a cabeça dos “marcadores de preços”.
Em vez de atuar como cão de guarda contra a inflação, o Banco Central do novo presidente Alexandre Tombini assumiu postura mais tolerante, que começa com os diagnósticos benevolentes a respeito da natureza da atual escalada dos preços internos.
Em vez de focar a disparada excessiva da demanda interna, o Banco Central comprou a tese do Ministério da Fazenda de que a alta de preços é preponderantemente causada pelo choque externo das commodities agrícolas, dando a entender que não há muito o que fazer para neutralizar suas consequências a não ser esperar que as cotações internacionais voltem espontaneamente a seu curso anterior.
Nessas condições, na sua comunicação com os agentes econômicos, tirou importância da criação “siliconada” de renda provocada pela disparada das despesas do governo federal nos dois últimos anos; insistiu prematuramente em que a atividade econômica está em franca retração – o que, até agora, não foi evidenciado; não pareceu impressionado pelo forte avanço dos preços do setor de serviços; minimizou os efeitos inflacionários provocados pela situação de praticamente pleno emprego no mercado interno; e deu excessiva importância ao impacto sobre os preços da forte expansão do crédito interno.
Parte da mesma síndrome, em vez de se concentrar nos instrumentos clássicos de contra-ataque à inflação, o Banco Central propagou as excelências dos instrumentos macroprudenciais, cuja função principal é melhorar a qualidade do crédito e da dívida externa e não submeter a inflação, embora possam ter subsidiariamente alguma proporção desse efeito.
Na maior parte destes primeiros 110 dias de governo, o Banco Central pareceu mais empenhado em conter o mergulho do dólar no câmbio interno do que em reverter a alta dos preços. (Sobre isso, veja o Confira.)
Há evidentemente alguma probabilidade de que o Banco Central esteja certo e os demais, errados. Mas no mister da condução das expectativas, da qual depende o sucesso do sistema de metas de inflação, não é isso que importa. Importa que o Banco Central está tocando seu tambor em ritmo diferente daquele em que vai marchando o resto do pelotão.
CONFIRA
É o juro alto demais. Em Pequim, a presidente Dilma Rousseff afinal concluiu que “enquanto não conseguir botar os juros para baixo, não há como evitar a valorização do real”.
E a inflação? Isso posto, é preciso baixar os juros. Só que não é possível baixá-los enquanto a inflação não for drasticamente derrubada. Segue-se que a quase única maneira de conter a inflação é praticar uma política de austeridade orçamentária.
Superávit nominal. Se o governo se comprometesse, sem deixar dúvidas, a obter um superávit nominal (incluídos os juros da dívida pública) equivalente a zero em pelo menos três anos, os juros cairiam naturalmente.
E o câmbio não se reverte. A opção é deixar tudo mais ou menos como está. Nessas condições, a inflação poderia até ser reencaixada na meta, os juros cairiam mais devagar, mas também o câmbio não seria revertido tão prontamente. 
 

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