Por Igor Gielow - Folha de São Paulo - 24/04/11
BRASÍLIA - No mundo político-econômico, e nas parcelas afetadas na vida real, apenas um assunto interessa até aqui neste ano: inflação.
O monstro, o dragão, o cramulhão intangível está na praça, com desenvoltura não vista desde a estreia de Lula no Planalto. Se o governo Dilma Rousseff acabasse hoje, seu único legado concreto seria a volta do vocábulo à vida nacional. Não é precisamente elogioso.
É sobre essa realidade que os cálculos todos do governo estão sendo feitos.
Como se diz dentro do Banco Central hoje, "este ano acabou". Traduzindo: meta de inflação de 2011 virou pó, e o esforço todo visa domar o bicho até a metade de 2012, nas contas mais otimistas.
Explica-se: há eleições no ano que vem. Tudo gira em torno dessas efemérides. Se o pleito fosse hoje, os governistas teriam vários problemas para explicar por que está tão caro encher o tanque do carro ou comprar verduras no mercado.
Mas há o reverso da moeda. Há um temor generalizado na área econômica em dar um cavalo de pau na economia. Argumenta-se no BC que o Brasil é o país que mais subiu juros, entre as principais economias do mundo, no último ano. E que as tais "medidas macroprudenciais" para conter o crédito ainda irão mostrar a que vieram.
O BC acredita que o gradualismo está bom por ora. O mercado está, segundo esse raciocínio, testando o presidente Alexandre Tombini -já carimbado como menos independente que o antecessor, cuja "autonomia", convenhamos, não ia além do terceiro andar do Planalto. Assim, o negócio seria esperar.
É um jogo perigoso. Há pressões externas fortes, como a enxurrada de dólares vinda dos EUA, a indexação bizarra da economia e o real sobrevalorizado. Existe inflação de demanda e o imponderável em ação: o petróleo reagindo à guerra na Líbia, o álcool nas alturas, as preocupações com os americanos.
Pode dar certo. Apenas pode.

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