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Os arquivos das FARC
Apoio de Chávez às Farc incluía uso do aparato diplomático e imigratório venezuelano, mostra dossiê
Por Fernando Duarte, correspondente  em Londres - O Globo 12/05/2011 
O apoio do regime de Hugo Chávez às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) incluiu o uso do aparato diplomático e imigratório venezuelano para facilitar o trânsito de guerrilheiros no país e no exterior, segundo o farto material analisado para um dossiê publicado na terça-feira pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), de Londres.
 De acordo com o livro, pelo menos 2.500 documentos foram expedidos entre 1999 e 2002, nos primeiro anos do governo Hugo Chávez.

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A emissão em massa de carteiras de identidade venezuelanas frias para integrantes da guerrilha e o esquema de vistos, que incluiu a participação do
 
   Raul Reyes e o ex-padre Olivério Medina - refu-
   giado no Brasil -, cuja mulher foi nomeada pela
   então  chefe da  Casa Civil - Dilma Rousseff -
   funcionária do Ministério da Pesca
consulado do país em Manaus para a emissão, vem à tona no "Dossiê das Farc: os arquivos secretos de Venezuela, Equador e Raúl Reyes", escrito com base em dados encontrados no computador do guerrilheiro morto.
Entre outros pontos, os emails do homem que foi o número 2 das Farc revelam que Rodrigo Granda, porta-voz da guerrilha, teria chegado a ser detido brevemente no aeroporto de São Paulo, onde se identificou como comerciante de ouro. E mostram como alguns guerrilheiros identificaram uma rota segura de entrada na Venezuela, passando pelo norte do Brasil.
Apuros no Aeroporto de Guarulhos
Numa das comunicações em poder de Reyes, Manaus é recomendada por um outro representante do alto clero da guerrilha, Rodrigo Granda, como uma rota segura para a movimentação de pessoal usando o território brasileiro.
De acordo com os emails trocados por ambos, pelo menos dois guerrilheiros fizeram esse percurso em 2003, contando com a cumplicidade do então cônsul venezuelano, Manuel José Montañés Lanza, quem forneceu o visto.
Outro ponto de apoio teria sido a Embaixada da Venezuela em Cuba, que em 2002, teria facilitado a entrada de até três guerrilheiros. Um deles, Ovidio Salinas, era procurado pela Interpol e, segundo os documentos, contava com um passaporte venezuelano falso.
Granda foi um dos agraciados, mas não antes de passar por apuros durante uma viagem de La Paz para Caracas, com uma escala em São Paulo. Conhecido como o "chanceler das Farc" - e que ficaria famoso na virada de 2004 para 2005, ao ser sequestrado na capital venezuelana -, ele foi detido e questionado tanto por autoridades bolivianas, quanto brasileiras.
Num email enviado a Reyes no dia 6 de janeiro de 2002, ele contou ter sido impedido pela Polícia Federal de embarcar no vôo de Guarulhos para Caracas, quatro dias antes.
Granda, que disse ter se identificado na chegada ao Brasil como comerciante de ouro, contou ter sido levado por policiais. Enquanto esperavam sua mala voltar, ele se desfez de um disquete com informações sobre a guerrilha, jogando-o "embaixo de um estande da Varig".
Desconfiado, abordou um policial uniformizado quando caminhavam para uma sala e disse que estava sendo levado contra sua vontade por pessoas que não haviam se identificado. "Instintivamente, mostraram os distintivos e ameaçaram me bater, e entre empurrões e palavras de baixo calão, seguimos", escreveu.
Não está claro o que se segue, mas Granda afirma ter seguido viagem na noite de 3 de janeiro. Na época, já havia contra ele uma ordem de captura internacional pedida à Interpol por Bogotá, explica Alfredo Rangel, diretor da Fundação Segurança e Democracia, de Bogotá, e um dos principais especialistas em guerrilha na Colômbia.
- Não se tem notícias de viagens de Granda por outro países - disse Rangel por telefone.
Em Brasília, a Polícia Federal informou que não encontrou registro de prisão de alguém chamado Granda.
O dossiê do IISS alega ainda que ordens para facilitar a entrada ilegal de colombianos em território venezuelano seriam comuns junto às repartições públicas, com comandos invariavelmente vindos da agência nacional de inteligência venezuelana, a Sebin.
Além da vista grossa nas fronteiras, o esquema incluiria o transporte de guerrilheiros por território venezuelano - ainda que a correspondência analisada pelo IISS refira-se bastante a integrantes do chamado Comitê Internacional (Cominter), uma rede de representantes e simpatizantes das Farc no exterior.
Outro expediente usado foi uma ONG, Projeto Renascer, fundada pelas Farc com o objetivo oficial de zelar pelos direitos humanos de refugiados colombianos vivendo em áreas fronteiriças da Venezuela, mas que também serviu de fachada para emitir documentos para guerrilheiros.
Os chamados Arquivos Reyes fazem parte do conteúdo de computadores apreendidos na operação do Exército colombiano, em 2008, contra um acampamento das Farc no Equador e que resultou na morte do número 2 das Farc e de mais 24 pessoas.
Apenas de emails entre integrantes da guerrilha há mais de 854 páginas. O material foi entregue ao IISS há dois anos pelo governo colombiano, depois de passar por uma análise da Interpol para checar sua veracidade.
Para compor o dossiê, porém, o IISS se utilizou de outras fontes, entre contatos militares e relatos de ONGs internacionais.
COLABOROU: Cristina Azevedo
Leia no Jornal O Globo íntegra da matéria na página  32

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