Aprendizes de ditadores
Por Jarbas Passarinho (Foi ministro de Estado, governador e senador )

Iludi-me ao supor que 20 anos passados tivessem consolidado a reconciliação da família brasileira, objetivo sincero da Lei da Anistia, que acabou sendo unilateral. Em tudo é assimétrica, a ponto de para os vencedores só caberem os efeitos perversos do revanchismo. Estranho revanchismo, aliás, porque os comunistas e esquerdistas em geral são senhores de um poder que não conquistaram, como queriam, pelas armas. O paradoxo está em que os vencedores da mais recente tentativa comunista de conquistar o Brasil pagam hoje o absurdo preço por terem impedido que o Brasil se transformasse numa imensa Cuba.

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Dizem que é mero pretexto a alegada ameaça comunista. Não o diz Carlos Prestes, nos livros que ditou, em que ressalta sua aliança com Jango, de quem diz que “já compreendia o papel da União Soviética” na Guerra Fria, que dividia o mundo entre democratas e comunistas. Confirmam-no as guerrilhas, todas de facções comunistas. Fidel, o ditador mais velho do mundo, foi cabeça de ponte da revolução comunista na América do Sul. Em Cuba, os brasileiros comunistas foram treinados para a guerrilha, exceto os do PC do B, adestrados na China de Mao Tse Tung, ainda no governo Jango, já conspiradores comunistas e não democratas.

O culto dos vencidos é o mais amplo possível, na esfera mesma da luta armada que desencadearam. Oficiais brilhantes, que eram adidos militares na Inglaterra e no Uruguai, prováveis generais em breve, tiveram sua carreira encerrada sob acusações falaciosas, enquanto um desertor e assassino recebe o prêmio inédito de promoção de capitão guerrilheiro da Vanguarda Popular Revolucionária, a coronel post mortem, com vencimentos de general devidos à viúva que receberá ainda mais R$ 1 milhão de indenização, “por perseguição política”. Ora, essa família foi mandada pelo desertor para Cuba e lá hospedada enquanto o capitão Lamarca matava inocentes e indefesos brasileiros civis. É a isso que os donos do poder e seus asseclas chamam de democracia e me remetem raivosas críticas dizendo que fui quatro vezes ministro da ditadura. Incluem até o governo Collor, primeiro presidente eleito pelo povo após o ciclo militar. A redação dos e-mails é a mesma. Fazem-no hipocritamente em nome da democracia, como se algum tempo a amassem.

Em uma biografia de Hitler há um diálogo em que ele diz a um opositor: “Você não é nosso, mas seus filhos já o são”. Há poucos dias li resposta, igual à de Hitler, dada a um crítico do MST pelo líder dessa organização em cujas escolas centenas ou milhares de crianças recebem aulas das falácias da revolução comunista, imitando os nazistas ao inocular sua doutrina. Como complemento, ensinam a invadir e depredar propriedades produtivas privadas. Mas é a mim que esses hipócritas acusam de haver feito lavagem cerebral dos menores no estudo de moral e civismo, onde o único tema político era democracia. Enviam-me mensagens dignas de democratas indignados. Contrários ao ensino de moral, os mesmos “democratas” chegaram ao poder, assaltaram o Tesouro praticando escândalos escabrosos.

Depois de mentir descaradamente ao depor na CPI do Mensalão, acabam de reconhecer a dívida com bancos mineiros que lhes concederam empréstimos para pagar os vendilhões do Congresso, transportar dólares na cueca, receber Land Rover como “agrado” por licitações fraudulentas, e agora prosseguem com a ladroagem de milhões de reais da Petrobras. Essa é a moral deles, ladravazes garantidos pela impunidade, que corroem o âmago da República.

Aos “democratas” que me dizem defensor da tortura, sórdida mentira, pergunto: durante seu adestramento visitaram os presos que apodreciam de torturas nos cárceres de Cuba, na tristemente famosa cadeia de La Cabaña? Batem palmas ao assassínio recente dos quatro cubanos que tentavam sair do “paraíso comunista” num barco em fuga, para juntarem-se aos milhões de exilados em Miami, de onde enviam US$ 2 bilhões por mês para a pobre Cuba, de partido único, do único jornal e das rádios e TV do ditador? Que democracia é essa, pela qual morreram e mataram? E os que aprenderam na China de Mao Tse Tung não sabiam das torturas em massa da Revolução Cultural?

Defendendo a democracia dos comunistas armados tivemos de viver o dilema de Loewenstein: “Se o Estado constitucional, confrontado com a ameaça totalitária, usa fogo contra fogo e nega aos agressores totalitários o uso das liberdades democráticas para evitar a destruição total da liberdade, faltará à garantia das liberdades fundamentais, mas se as mantém, beneficia seus agressores e põe em risco a sua própria sobrevivência”. O notável intelectual marxista Antonio Cândido, o genial arquiteto Oscar Niemeyer e o piedoso Frei Betto disseram o mesmo, se necessário à vitória do socialismo. Respondemos fogo contra fogo, mas a história ensina que o regime autoritário tende a restaurar a democracia, ao passo que o totalitário tudo fará para manter-se cada vez mais tirânico. Em 1978 foram extintas todas as medidas não democráticas, por emenda constitucional. O nazismo e o fascismo, a guerra externa os venceu. O comunismo entrou em colapso depois de 74 anos, e um saldo de milhões de mortos.

Os fariseus hipócritas quiseram pela terceira vez implantar no Brasil a ditadura do proletariado aprendida em Marx. Odientos, apunhalaram meu irmão mais velho, que os combateu. A lei que defendi na tribuna impede-me o rancor, mas vestidos de professores de democracia causam-me náuseas e não contenho a exclamação: democratas, uma ova! Aprendizes de ditadores, sim.

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