Rosângela Bittar 
Valor Econômico - 22/06/2011 
O governo, que já vinha envelhecendo precocemente pela irresistível vocação apolítica das suas principais autoridades, vai tangenciando uma zona de maior risco à medida que cresce a percepção de parlamentares e, sobretudo, governadores, de que, reiteradamente, apesar dos incompletos seis meses de gestão, a presidente Dilma Rousseff não tomou gosto o suficiente para disputar um segundo mandato.
 Assim sendo vai se formando o vácuo, e como ele assim não fica por muito tempo, aparecem no horizonte os primeiros sinais da corrida para preencher os vazios.O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está absoluto na frente. Perde-se no tempo a ideia, difundida durante a campanha eleitoral de 2010, de que Lula não pensaria voltar a disputar a Presidência se o governo que criou para sucedê-lo estivesse, no momento da definição, dando certo.
Os acontecimentos do mundo real só comprovam que, dando certo ou não lá na frente, agora não está dando, e o ex-presidente não se sentiu constrangido a sentar-se no trono da perspectiva de poder, diante do qual formam-se as filas do beija-mão.
Os sinais do momento indicam que Lula não vai ligar para momento certo algum, e não há, na sua equipe, quem esteja preocupado em fazer o cotejo entre a prática de hoje e os argumentos construídos para provar, durante a disputa, que o de Dilma não seria um governo de transição. Um soluço, apenas enquanto Lula adquirisse condições legais para disputar um terceiro e até um quarto mandato.
Os fatos mostram aos políticos que começou a corrida sucessória e, embora discreta, recolhida aos seus afazeres, sem partir para qualquer tipo de enfrentamento, a presidente se mostra cada vez mais conformada, ou combinada, com a missão de fazer a travessia.
A atividade política do ex-presidente Lula não deixa sombra de dúvida. Depois de rápidas férias ao deixar o governo, iniciou, e não parou mais, uma frenética agenda de reuniões partidárias, palestras que lhe dão projeção nacional e internacional, assessoria profissional para mantê-lo no proscênio, retomada das rédeas do PT, autoria de decisões que impõe goela abaixo de seus seguidores. A investida governo Dilma adentro, sem qualquer cuidado, para tentar enquadrar a crise Palocci em moldura de menor desgaste, mostra como o ex-presidente se vê à vontade no antigo papel.
Lula não se contem, não espera, demonstra que ainda se sente o presidente, queixa-se de saudade, admite que não desencarna, e há pelo menos duas semanas voltou a atuar - a pretexto de esquentar o PT para as eleições municipais - em um circuito de palanques tão fortes quanto os montados em campanhas eleitorais.
Na parada mais recente, retomou inclusive um de seus assuntos prediletos quando tem em mãos o microfone e fala a auditório petista: o ataque à mídia e a pressão sobre as autoridades para que enquadrem a imprensa em regras de controle. O ex-presidente vem novamente insuflando, no discurso, como é do seu feitio, os que não fazem debate de ideias. Tem intensificado seu périplo pelo país e pelo mundo e, claro está, suas reuniões político-eleitorais não se limitam às públicas e ruidosas.
"Se a Dilma enfrentar mais um problema sério, como a crise Palocci, e continuar agindo contra a política, vamos assistir a uma romaria a São Bernardo..." Essa equação, formulada por um aliado fiel da presidente e do ex, tem o tom de alerta sobre algo que já está existindo. Há políticos que estão preferindo procurar Lula para a montagem do futuro.
Difícil compreender a movimentação do ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, em torno de cargos que não lhe deram. Já foi rebaixado cinco vezes desde que decidiu aceitar convite para colaborar com o governo Dilma Rousseff. Sonhava ser candidato a vice-presidente na chapa que se sagrou vitoriosa, e o presidente do PMDB à época, Michel Temer, enrolou-o até a negativa final, num indício já claro de que o lugar tinha dono, ele próprio. Temer lhe prometeu, em troca, que seria o primeiro nome do PMDB no ministério Dilma. Não foi nem o último.
Sua prioridade passou a ser manter o título de ministro, de qualquer forma, de qualquer jeito, e pretendeu ficar onde estava, no BC. Mas foi avisado que a presidente tinha outros planos para o posto - como se viu, Alexandre Tombini.
A conjectura seguinte para Meirelles foi ser o ministro de uma supersecretaria de Portos e Aeroportos, um conjunto apartado da área de Transportes do governo, onde impera o PR. Nesse cargo Meirelles poderia ser o executivo capaz de realizar um trabalho para o país vencer, finalmente, os gargalos que levam o caos na aviação civil ser um problema permanente e insuperável. Perdeu a disputa. O PR não concordou em abrir mão dos portos, o Ministério da Defesa perdeu a aviação Civil, mas cedeu o espaço já tarde, e a presidente preferiu entregar essa estrutura a egressos do BNDES e do Banco Central, outros que não Meirelles.
Às custas de muito vai-e-vem com o PCdoB, patrono do ministro dos Esportes, e com o governador e o prefeito do Rio, que entraram com força política no Congresso para moldar à sua face a regulação da Olimpíada, Meirelles sofreu revezes e humilhações quando passou a ser cogitado para comandar a Autoridade Pública Olímpica. Não se entregou.
Depois de ficar alguns meses tido e havido como titular da APO, que se não tinha status de ministério continha algum poder - cargos, verbas e prestígio entregues ontem a Márcio Fortes, afilhado de Francisco Dornelles (PP) - Henrique Meirelles foi, finalmente, defenestrado desse e indicado, na última sexta-feira, membro do Conselho da APO, onde já chega como voto vencido: ele representa o governo federal e há dois outros representantes, do governador Sergio Cabral e do prefeito Eduardo Paes, aliados de fé nessa empreitada. Instância sem poder e até sem prestígio. Inexplicável, para os leigos, a permanência de Henrique Meirelles no declive.
Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras
 

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