Com esses conselheiros não se poderia
  esperar coisa melhor....
O Globo - 23/06/2011
O presidente da Bolívia, Evo Morales, poderia ser comparado, com alguma imaginação, ao equilibrista que mantém vários pratos rodando na extremidade de varetas. Ora é preciso dar mais impulso a um deles, ora é necessário um esforço maior para reequilibrar outro. A diferença é que o equilibrista tem um tempo limitado para manter os pratos no ar. Morales tem mandato até 2015. É tempo demais.
O primeiro presidente indígena do país fez carreira como líder dos cocaleros, na oposição aos governos anteriores. Pelo menos um mérito ele tem: ao tomar posse, em 2006, estancou o troca-troca de governos em La Paz - a média era de um por ano. Ele é um discípulo aplicado do socialismo bolivariano de Hugo Chávez, mas teve de adaptá-lo às condições bolivianas, com sua população de 55% de indígenas e 30% de mestiços. Além disso, há um forte movimento separatista com base em Santa Cruz de la Sierra, que opõe as províncias orientais às do altiplano, onde estão a capital, La Paz, e a vizinha El Alto, uma das bases do poder do presidente.
Morales partiu para o populismo enquanto claudicava em outros itens do kit bolivariano por nunca ter assumido inteiramente o figurino de ditador - por sorte da Bolívia. Ainda assim, fez aprovar uma nova Constituição, na qual criou formalmente nações indígenas dentro da Bolívia. Segundo o presidente, a Carta vai "descolonizar o país".
E dos pratos rodando? Resultam o "Estado socialista bolivariano", que é o maior empregador, controla as maiores empresas e arbitra os salários. E asfixia o crescimento da empresa privada, enquanto desestimula os investimentos. Conforme reportagem publicada segunda-feira no GLOBO, as despesas estatais crescem em velocidade muito superior à arrecadação de impostos, impulsionadas por aumentos salariais extraordinários que Morales concedeu ao funcionalismo público, empregados de estatais, aposentados e pensionistas.
Em consequência, a Bolívia está hoje com um déficit de 5% do PIB, com projeção de chegar a 6%, e não consegue financiá-lo. A saída seria reduzir os gastos estatais, mas isto vai contra a dinâmica populista do governo; e/ou aumentar a receita tributária, mas isto encontra compreensível resistência na população. Aumentar a competitividade da economia seria outra saída, mas isto bate de frente com a estatização. O melhor exemplo disso foi a desastrada nacionalização, no início do governo, dos ativos do maior investidor estrangeiro na Bolívia - a Petrobras. O resultado foi uma redução brutal na perfuração de novos poços de gás.
Uma abrupta tentativa do presidente de cortar subsídios, reduzindo o gasto estatal, fez os preços dos combustíveis subirem 80% em janeiro. Sob ameaça de convulsão nacional, voltou atrás. Mas alguns preços não: os alimentos, por exemplo, estão 50% mais caros, e este é um dos motivos das passeatas diárias contra o governo em La Paz.
A reportagem mostrou que a situação boliviana é grave, e que o governo não parece ter instrumentos para mudá-la. O país passa por um processo de degradação que poderá levá-lo a se tornar o maior fracasso do modelo bolivariano - depois, é claro, da própria Venezuela.
 
 

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