O ESTADO DE SÃO PAULO
Por Jarbas Passarinho *

A única atividade não militar que tive enquanto no Exército foi na Superintendência da Petrobrás na Amazônia. Foram três anos dos mais fascinantes de minha vida, onde testemunhei a integridade profissional e pessoal do geólogo Walter Link, um dos cinco mais competentes e respeitados do mundo. O general Juraci Magalhães, quando presidente da Petrobrás, contratara-o para dirigir a pesquisa e a exploração de petróleo no Brasil, e a quem os comunistas caluniavam de 'Sabotador nº 1 da Petrobrás'.

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Embora estivesse empenhado em descobrir o que esperava ser uma das maiores províncias petrolíferas do universo, a pesquisa não prosperou, não obstante a esperança indevidamente publicada de descoberta do óleo em Nova Olinda, no Amazonas. Lembro-me do general Juarez Távora, chefe do gabinete militar de Café Filho, falando em rede radiofônica sobre a descoberta e fazendo comparação ingênua com a produção dos poços venezuelanos, 'com vantagem para nós'. Mas Nova Olinda não passou de fogo fátuo. Eram poços estratigráficos de pequena produção antieconômica.

Perto do fim de sua gestão, o saudoso Walter Link reuniu todos os geólogos e geofísicos da Petrobrás e pediu para cada um que estimasse por escrito a possibilidade da existência de petróleo em todo o território continental do Brasil. Daí saiu o Relatório Link, que não era pessoal dele, mas de todos os técnicos. Tenho comigo essa avaliação coletiva, em que técnicos brasileiros eram mais pessimistas que ele, que ainda avaliava como promissoras as rochas não-paleozóicas de Sergipe e sugeria a criação de uma empresa da Petrobrás para aproveitar as sondas disponíveis, com a finalidade de fazer contrato de risco no exterior. As esquerdas, todavia, atribuíram-lhe má-fé.

Jango assumiu a Presidência da República e a Petrobrás, sob nova direção, contratou os geólogos da estatal francesa para rever o relatório. Não divergiram. Vieram, então, os soviéticos e tudo o que conseguiram foi vender sondas de maior capacidade de perfuração. Petróleo, nada.

O general Ernesto Geisel, presidindo a Petrobrás no governo Médici - que tomou a corajosa iniciativa de estender a soberania brasileira até 200 milhas a partir da costa -, tomou a vital decisão de priorizar a pesquisa no mar. Em 1964, descobriu-se petróleo no litoral de Sergipe e, posteriormente, na Bacia de Campos, que nos vai garantir a auto-suficiência se forem construídas as plataformas gigantescas, recomendadas pelo atual presidente da Petrobrás, que nossos estaleiros não têm as dimensões necessárias para construir. Mas o presidente Lula anulou a licitação ao vencer as eleições de 2002, iludido por falsos nacionalistas.

Resta fazer com que o gás figure na matriz energética contribuindo com a implantação de 5 mil MW/ano, se não quisermos enfrentar, em médio prazo, as agruras de racionamento não apenas domésticas, mas industriais e conseqüente estagnação do desenvolvimento econômico.

Até 1996, expressei pelo Estado as dúvidas que tinha a respeito da construção do gasoduto Bolívia-Brasil como a melhor solução do suprimento de gás. A compra do gás boliviano já era intenção antiga do Brasil. Começou em 1938 com a proposta do Brasil, presidido por Getúlio Vargas, feita ao presidente boliviano German Bush, quando ainda não produzíamos petróleo. Morto o presidente boliviano, o projeto foi extinto. Em 1974, ainda na Petrobrás, o general Geisel foi aconselhado por técnicos da matriz energética a voltar ao assunto. No seu estilo direto, sem se preocupar com sutilezas diplomáticas, perguntou aos defensores da idéia: 'E quando os bolivianos fecharem as torneiras do gasoduto?' A sua pergunta traduzia a insegurança de negociar com um país de extrema inconstância e volubilidade política, onde, por mero chiste, se dizia que nenhuma companhia de seguro se arriscava a contratar planos de seguro de vida para os presidentes de nosso país vizinho, que matara e pendurara em poste o corpo de um de seus dirigentes.

Nos anos 90, retomou-se a idéia, gerando enorme polêmica, e a possibilidade de negociar o gasoduto com o Peru em condições mais favoráveis. Técnicos respeitáveis, a começar pela Associação dos Engenheiros da Petrobrás, consideravam o projeto uma temerária aventura. Entre eles figurava um técnico da maior competência, o geólogo Walter Campos, ex-diretor da Petrobrás e o primeiro brasileiro chefe da pesquisa e exploração no meu tempo de superintendente da Petrobrás na Amazônia. Nesse saudoso e eficiente geólogo me baseei para escrever, no Estado, os artigos com reserva sobre o acerto da Carta de Intenções. Ademais, uma questão intrigante me deixava perplexo. O superintendente do Projeto de Gás, em conferência, no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, disse: 'O projeto que está aí não seria aquele que a Petrobrás montaria, mas o que mandaram fazer.'

A oferta de gás não acompanha a demanda, a menos que queiramos conter o desenvolvimento, o que é impensável. A descoberta recente, na Bacia de Santos, de jazidas de vulto de gás, é uma solução que requer tempo, e não pequeno, e ainda está atrasada. A produção de energia limpa de origem hidráulica ou nuclear, igualmente.

As usinas hidrelétricas projetadas para o Rio Madeira levaram muitos anos para receber a licença do Ibama, até que o presidente Lula exigiu celeridade. Belo Monte, no Xingu, já mudou o projeto várias vezes para atender à imposição dos ambientalistas. Desta vez não teremos - espero - um projeto desvantajoso 'mandado fazer'. Sendo a profecia uma arte perigosa da qual é melhor fugir, calei, mas, agora, em face das exigências contínuas do senhor Evo Morales, amparadas pelo caudilho Chávez, a profecia do general Geisel pode confirmar-se.

Jarbas Passarinho, ex-presidente da Fundação Milton Campos, foi senador pelo Estado do Pará e ministro de Estado

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