Mais um fugindo ao vivo (TV)

Por Ernesto Caruso

  A expressão deserção tem um caráter nitidamente militar, até porque se constitui em crime se for perpetrado. Uma falta por mais de oito dias consecutivos sem justificativa à unidade em que serve ou deixar de se apresentar no momento da partida do navio ou aeronave, de que é tripulante, ou do deslocamento da unidade ou força em que serve, pode levar o ausente a uma condenação de acordo com o Código Penal Militar, nosso, a quatro anos de reclusão ou mais, agravadas as penas.

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            Pois, é esse o tratamento que a imprensa amestrada repetiu entusiasticamente através de jornalistas afinados com o "grande comandante" no poder desde 1959 -- civil que anda fardado até hoje, não considerado ditador -- no caso dos atletas cubanos que abandonaram as suas equipes, e não batalhões, durante o PAN 2007. O espantoso é que a polícia brasileira, logo os prendeu, por "ingresso ilegal no país", sem lenço e sem documento, o dito passaporte que afiança os estrangeiros e lhes dá o direito de circular pelo país que os recebe. Por certo cuidadosa a chefia da delegação cubana que retém os passaportes dos seus atletas para que não os percam. Tal ação policial eficaz e oportuna, característica de um governo atento, nos faria rir, se o constrangimento porque passaram não nos provocasse repulsa maior. Parece mentira diante de tanto estrangeiro refugiado e clandestino, com endereço certo, explorado por patrícios em trabalho escravo, desassistido, jamais molestado, mas também não protegido.

Surpresa maior foi a notícia que iriam investigar quem aliciou os atletas cubanos.

Imaginem se fossem agir da mesma maneira as polícias do mundo quando nossos jogadores de futebol, basquetebol, voleibol, etc, fossem convidados a pelejar em plagas distantes e receber em dólares. Quantos dos nossos atletas sonham com essas verdinhas e muita glória. E todos nós vibramos e torcemos pela vitória de cada um no exterior. Já de há muito ocorre com os jogadores de futebol e mais recentemente no futebol feminino; algumas meninas fizeram, primeiro, o sucesso lá fora e choraram de alegria com o estádio pleno a reconhecer os seus méritos. Ganharam no campo as adversárias e nas arquibancadas o preconceito. Liberdade, liberdade. Ame-o, deixe-o, fique sem amar, vá se quiser.

Por quê não funciona da mesma forma com Cuba? Lá não podem sair e entrar quando quiserem. Enfrentam o mar e os tubarões em precárias embarcações ou os pelotões de fuzilamento do "grande comandante", se são descobertos e presos.

O esporte tem sido a rota de fuga da ilha infernal de Fidel, como se fosse um grande campo de prisioneiros e não um campo de paz, onde o amor patriótico se faz presente pela disputa da bola, pelo salto maior, pela velocidade nas pistas, nas piscinas, pela resistência e vigor de punhos, braços e pernas nas lutas e ginásticas, pelo sorriso, graça, ritmo nas acrobacias e por fim a emoção, o Hino, a medalha no peito e o reconhecimento dos patrícios. Sente-se que jogam com amor por Cuba, mas que lá nem todos querem retornar e confraternizar.

Não há porque chamá-los de desertores; são refugiados como faziam os que enfrentavam as metralhadoras russas "furando" o muro de Berlim de triste memória. Mas, essa imprensa monta teatrinho, chama alguém com diploma para dizer que não são perseguidos políticos, que não têm direito a asilo; são até prestigiados, pois fazem parte de uma delegação esportiva. O "grande comandante", deveria mandá-los com bolas de ferro nos pés, além de só recolher os passaportes, para assegurar o regresso de todos.

Por quê outros não abandonam as suas delegações?  Se desejam, simplesmente aderem a outras praças esportivas e quando convocados defendem as cores das suas pátrias.

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