Cel Jarbas Passarinho
Jarbas Passarinho - Coronel reformado, foi governador, senador e ministro de Estado
Correio Braziliense - 23/08/2011 
Sylvie Brunel, professora universitária dirigente da Ação Internacional Contra a Fome (AICF), atua diretamente contra a subnutrição nos países do Terceiro Mundo. No livro Une tragédie banalisée, diz ser inadmissível que se possa ter, no Brasil, maior exportador de alimentos, pessoas passando fome em estado de profunda miséria, sendo que, no país, nem mesmo "nos casos mais graves não se veem os esqueletos ambulantes que caracterizam os famintos da África".
No Brasil temos dois tipos de fome, o silencioso, dos que não possuem poder de compra, e o conjuntural, decorrente das secas do Nordeste e das inundações das cidades ribeirinhas.
Lutamos sem sucesso, do Império à República, para eliminar os flagelos usando recursos orçamentários. O caminho correto deu-o a Índia, sob o governo da presidente Indira Gandhi. Ela chamou o agrônomo M. S. Swaminathan, chefe da pesquisa agrícola do país. Deu-lhe a missão e os meios para acabar com o flagelo das monções. Contratados renomados estrangeiros e técnicos locais, poucos anos depois selecionadas sementes de arroz, milho e trigo, produziram 50 toneladas de cereais — foi o começo da Revolução Verde. Analistas apontam para o êxito um bom governo conjugado com um bom técnico em pesquisa. E não leigos ministros da Agricultura, como no Brasil, que acabam demitidos por falta de decoro.
Dom Pedro II teria dito que venderia até as últimas joias da Coroa para mitigar o sofrimento causado pelo flagelo nordestino. Nos anos 1970, o presidente Médici, ao ver o efeito da seca nordestina, disse: "A economia vai bem, mas o povo vai mal". Ordenou a criação de frentes de trabalho para evitar o agravamento da fome silenciosa. Afora isso, temos banalizado a tragédia da fome, mas tem ela sido um permanente desafio indomado ao longo dos tempos, desde o Império.
Ao empossar-se, perante o Congresso Nacional, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou que seu governo iria "varrer do mapa do Brasil a fome e a miséria e fazer uma autêntica revolução social". Logo no ano seguinte, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU mostrava a existência de cerca de 40 milhões de miseráveis, mais de 30% dos pobres. Ao bom sucesso inicial do Plano Real, quando milhões de pobres melhoraram a qualidade de vida, sobreveio, anos depois, a desvalorização do real. O poder de compra reduziu-se e, no programa de sua reeleição, voltou a prometer a erradicação da pobreza.
Lula apresentou o Projeto Fome Zero, com a cobrança de 5% sobre as contas de restaurantes de luxo e a criação de um ministério extraordinário. Categórico, bradou: "Vamos combater a fome e, depois, exportar", como se as exportações fossem de alimentos para os ricos do mundo em detrimento dos pobres do Brasil. Ao concluir seus oito anos de mandato, o balanço do Fome Zero mostrou-se um fracasso. Vários colaboradores expressivos, clérigos e leigos já lhe tinham desertado certos anos antes do malogro. Salvou-o o Bolsa Família, somando assistência social já existente — Bolsa Escola, auxílio-alimentação, vale-transporte, vale-gás —, retocada, mais bem paga e renomeada.
Com discurso supostamente socialista e pretensamente assistencialista, Indira Ghandhi foi notável exemplo para o Terceiro Mundo na luta contra a fome. Em 1967, a Índia era conhecida como "o continente da fome". Centenas de milhares de crianças e idosos no estado de Bihar, ao norte do país, haviam perecido de fome. Decidiu salvar o país desse símbolo nefasto: a fome, devastada nos períodos das monções que a inundavam, liquidando as plantações de cereais, deixando o povo pobre sem alimentos. Convocou o agrônomo talentoso M. S. Swaminathan, encarregado da pesquisa agrícola na Índia. Desafiou-o a fazer produzir, em cinco anos, um estoque de 10 toneladas de cereais. "Por que 10?", perguntou ele. Porque é o que o primeiro-ministro vai pedir aos americanos, respondeu ela. Selecionando novas sementes de arroz e trigo, M. S. Swaminathan, com seus auxiliares, 22 anos depois, cumpriu o desafio, não de 10 mas de 50 toneladas.
Iniciava-se a Revolução Verde, favorecendo não só a Índia mas as "Ásias das monções". Indira Ghandhi demonstrou que o subdesenvolvimento não é fatalmente vítima da fome nem é inevitável. A prova foi a sua vitória resultante de uma política de aliança com alguns agrônomos premiados, notadamente devido às sementes miraculosas e a sua técnica. Analistas da Revolução Verde, examinando o resultado magnífico que livrou a Índia do tradicional flagelo que sacrificou milhares de centenas de vidas por tanto tempo, atribuem-no a um bom governo, o de Indira, incapaz de fazer promessas demagógicas, e a um técnico, um pesquisador honesto e sábio, enquanto no Brasil atual ministro da Agricultura, que se implicou com falta de decoro, imitando outros, do Transporte e do Turismo, é demitido.
 

  

 

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