Rodrigo Craveiro 
Correio Braziliense - 24/08/2011
Todos os dias, o presidente sírio, Bashar Al-Assad, concede carta branca a seus soldados para executar dezenas de opositores, quase sempre civis desarmados. O Brasil prefere fechar os olhos e os ouvidos, mesmo ante um massacre com 2,2 mil mortos. Na Líbia, o ditador Muamar Kadafi perdeu toda a legitimidade. Para a comunidade internacional, não passa de um ditador aos farrapos e aferrado ao poder, que manteve laços com terroristas e bombardeou o próprio povo.
Mesmo assim, o Brasil prefere fingir-se de cego e surdo. A diplomacia de extrema cautela desacredita o Itamaraty aos olhos do mundo. Um país que se orgulha de ser um baluarte dos direitos humanos não pode — nem deve — se omitir ante os crimes bárbaros cometidos a mando de dois facínoras.
A diplomacia brasileira tem se pontuado pela polêmica. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva abrigou o líder deposto Manuel Zelaya na embaixada brasileira em Tegucigalpa, talvez imbuído da solidariedade para com um colega da esquerda. Zelaya transformou a representação em palanque. Lula recebeu Mahmud Ahmadinejad em Brasília e o visitou em Teerã, enquanto os Estados Unidos e a Europa condenavam o programa nuclear do iraniano. Lula também se orgulhava da amizade de Kadafi, a quem chamou certa vez de "meu amigo, meu irmão, meu líder". O ex-presidente visitou Havana um dia após a morte do dissidente Orlando Zapata Tamayo, que sucumbiu a uma greve de fome em protesto ao regime. Mas Lula não proferiu uma palavra sequer sobre a repressão em Cuba.
Ao mesmo tempo em que o Brasil reconhece a existência de um Estado palestino independente — assunto espinhoso e delicado —, evita se pronunciar sobre Kadafi e Al-Assad para não ferir a soberania dos respectivos países. Uma política no mínimo dúbia e contraditória. Será preciso que metade do mundo condene a repressão na Primavera Árabe para que o Itamaraty decida se pronunciar? Para a maior nação da América do Sul e uma potência em ascensão, com a Índia e a China, o Brasil tem a obrigação de se posicionar sobre temas controversos da política externa. Melhor pecar por excesso do que adotar um silêncio vexatório e alinhado com interesses econômicos. Por várias vezes, ouvi de cidadãos sírios e líbios a cobrança de uma condenação do governo brasileiro. Será preciso morrer mais inocentes para que o Itamaraty desça do muro?
 

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