ISTOÉ
O ex-presidente ataca seus sucessores, diz que o País não tem oposição e que o marqueteiro substituiu o político.

Por ALAN RODRIGUES

 

 

 

 

 

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Aos 76 anos, o ex-presidente da República Itamar Augusto Cautiero Franco ainda conserva o topete. Treze anos depois de deixar o Palácio do Planalto, ele faz diariamente exercícios em uma esteira e alimenta-se de forma equilibrada. Hoje na presidência do Conselho do Banco de Desenvolvimento do Estado de Minas Gerais (BDMG), ele se gaba de ter abdicado das aposentadorias a que teria direito como ex-prefeito de Juiz de Fora e senador. Na manhã da quarta-feira 15 recebeu ISTOÉ e concedeu três horas de entrevista. Usando óculos Giorgio Armani e um terno risca de giz bem cortado, Itamar bateu forte no presidente Lula, revelou bastidores que antecederam a candidatura de Fernando Henrique Cardoso em 1994 e fez questão de deixar bem claro ser ele o verdadeiro pai da estabilidade econômica. “Posso dizer que dei ao País a estabilidade e que, não foi fácil, mas conduzi o Brasil democraticamente”, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista:

ISTOÉ – Em 40 anos de vida pública, o sr. nunca sofreu uma denúncia de enriquecimento ilícito, corrupção ou outro desvio ético. O sr. se considera uma exceção?

Itamar Franco – Não me considero exceção. Assim como eu, existem outros. A formação vem de dentro de casa. A corrupção é um problema de caráter. O sujeito diz assim: eu vou fazer uma reforma política. A reforma política não vai mudar o caráter do indivíduo, se ele quiser continuar a ser um corrupto, ele continuará sendo, com ou sem reforma política.

ISTOÉ – Nos últimos anos, o Judiciário foi atingido com vendas de sentenças. No Executivo e no Legislativo as denúncias são quase diárias. O que acontece com as instituições brasileiras?

Itamar – O Brasil vive um momento muito triste, em que nós começamos mais uma vez a perder e deixar de acreditar nas instituições. Perdemos a indignação. As vozes murmuram, mas elas não ressoam. Estamos vivendo um período de falta de ética. Agora por exemplo, o presidente da República faz uma barganha vergonhosa.

ISTOÉ – Qual?

Itamar – Furnas. O deputado que era o relator do projeto da CPMF – que interessa muito ao governo – sentou em cima do projeto e disse: “Enquanto não for nomeado o Luiz Paulo Conde para Furnas eu seguro o projeto.” O presidente da República tem o direito de trocar seus auxiliares, mas não através de barganhas. É a falta da ética, da compostura, e as vozes estão caladas.

ISTOÉ – E essa forma de fazer política sempre foi muito criticada pelo presidente Lula.

Itamar – Ele era um homem simples, mas hoje atingiu um estágio social e perdeu a humanidade. Ele ainda consegue convencer boa parte da população de que ele é ainda aquele homem simples. Mas não é isso, hoje o presidente Lula gosta dos palácios, gosta de ser um bon vivant, mas consegue enganar. O governo dele está indo numa descida rápida, abandonando todo sentido ético e de dignidade. Um presidente da República, quando barganha, emite um mau sinal para a nação. Ele não precisava fazer isso. Isso traz o descaso.

ISTOÉ – As reformas políticas em discussão no Congresso podem mudar esse quadro? No parlamentarismo seria diferente?

Itamar – Não adianta você tirar o presidencialismo e pôr o parlamentarismo se as pessoas não tiverem caráter. Os homens públicos antigamente eram eleitos por sua opinião. Hoje, o sujeito vota, com raríssimas exceções, em quem tem mais dinheiro. O marqueteiro passou a substituir o político. Ele chega lá, emboneca o sujeito e diz: “Fala isso que vai agradar.”



 
"Ter criado o instituto da reeleição foi o pior erro de Fernando Henrique. Isso quebrou a ordem constitucional brasileira"


ISTOÉ – O sr. disse no passado que o presidente Lula é arrogante. Esse comportamento é fruto da arrogância?

Itamar – O Lula não era arrogante, ele se tornou arrogante. Ele só ainda não quis ser intelectual. Mas arrogante, ele é.

ISTOÉ – Já do ex-presidente Fernando Henrique, o sr. disse que ele acha que inventou a democracia...


Itamar – Nós estamos mais ou menos apaziguados, eu nunca tive ódio dele. Mas umas coisas precisam ser ditas. O Fernando Henrique não era o meu candidato. Meu primeiro candidato era o Antônio Brito (ex-governador do Rio Grande do Sul). Minhas pesquisas indicavam, naquele instante, o FHC em terceiro lugar. Abaixo do Brito e do Lula.

ISTOÉ – Como se deu a opção por FHC?

Itamar – Muitos me disseram: “Não cometa a tolice de indicar o FHC para presidente. Ele vai te trair e não vai ser bom para a Nação.” Mas não tive outra opção. Aconteceu até um episódio interessante no Palácio. Estávamos eu, o Pedro Simon, o governador de Minas, Hélio Garcia – que pedi para comparecer ao Palácio sem saber para que –, e o Fernando já candidato. Eu disse: “Fernando, eu gostaria que o vice-presidente dessa chapa fosse o Hélio Garcia.” Ele disse: “Mas eu já escolhi o meu vice.” Ao dizer isso, o Hélio, coitado, surpreendido, foi embora. Pouco tempo depois, o Fernando Henrique espalhou que eu tinha vetado o nome do filho do senador Antônio Carlos Magalhães, o que faleceu. O senador Pedro Simon, depois de ouvir a negativa ao Hélio Garcia, deu um chute na parede do gabinete presidencial e disse: “Itamar, você não pode mais manter o Fernando Henrique como candidato depois dessa negativa, humilhando até o governador.”

ISTOÉ – E o sr...

Itamar – Disse que naquela hora era complicado mudar o candidato e o Simon respondeu: “Então, que você fique com ele.” E saiu do gabinete falando uma frase que eu prefiro não repetir.

ISTOÉ – Foi um erro ter indicado FHC para presidente?

Itamar – Naquele momento eu deveria ter mudado. Não tive a devida prudência. Se não fosse eu, ele não estaria com a nota de real nas mãos fazendo campanha.

ISTOÉ – Qual foi o maior erro de FHC?

Itamar – São vários, mas ter criado o instituto da reeleição foi o pior. Ele quebrou a ordem constitucional brasileira, quebrou nossa cultura. Este mal o presidente Fernando Henrique causou ao País. Mal irreparável.

ISTOÉ – Por que o sr. não optou pelo Lula?

Itamar – Porque o Lula combatia o nosso governo. O PT não soube entender que o nosso governo era um governo ao qual eles poderiam ter incorporado. Mas eles não entenderam o Plano Real, foram contra.

ISTOÉ – O presidente Lula se beneficia da estabilidade conquistada com o Real?

Itamar – O Lula acha que inventou o Brasil. Quero que ele me responda uma coisa: se a economia está tão bem, por que o País cresce tão pouco? No meu governo, crescemos 5,6%. O que eu sei é que “nunca na história deste País” um presidente fez os ricos ficarem muito mais ricos. O Lula se beneficia da estabilidade criada por nosso governo, embora ele tenha combatido o Plano Real...

ISTOÉ – Não é deselegante um ex-presidente criticar tanto seus sucessores?

Itamar – Como cidadão, tenho o direito de falar. O Lula se tornou elitista. Ele gostou de viver nos palácios. Na época em que eu era presidente, eu mesmo pagava minha comida. Vai ver quanto ele gasta lá hoje. Ele nunca vê, só escuta de um ouvido, acho que tem hora que ele não escuta dos dois. Ele não sabe nada... Pobre de mim ou do Fernando Henrique se disséssemos que não sabíamos de nada. Nós iríamos ser pendurados no primeiro poste. Digo com pesar: o Lula gostou do poder. Acho que no dia em que deixar o Palácio ele vai sofrer.

ISTOÉ – Quais foram os piores problemas que o sr. enfrentou na Presidência?

Itamar – Quando assumi, a crise era muito profunda. Tínhamos que manter a democracia e derrubar a inflação. Convidei um personagem para ser o ministro da Fazenda, que é muito meu amigo e por isso não vou citar seu nome, e ele me disse: “Itamar, seu governo não dura 48 horas.” Cheguei a reunir todos os partidos no Palácio e disse a eles: “Estou assumindo a Presidência. Se vocês quiserem eleição, eu convoco.” Deixei claro que se eles quisessem eu faria isso.

ISTOÉ – O sr. teve medo de golpe?

Itamar – Não. Pude substituir os três ministros militares na maior ordem possível. Os militares tinham no meu governo uma compreensão do que era o aspecto democrático e o que significava para o País a manutenção do Estado de Direito.

ISTOÉ – Que conselhos o sr. daria ao governador Aécio Neves, que briga no PSDB para disputar a Presidência?

Itamar – Eu diria a ele que um homem prudente escolhe seu caminho e seu tempo. Quando você não é prudente e não escolhe seu caminho e seu tempo, você só tem a perder. Todas as vezes que eu deixei de ser prudente na escolha do meu tempo e do meu caminho, eu perdi. O que poderia dizer agora ao governador, se ele me perguntasse, era que tome cuidado com o seu tempo e com a sua escolha. A escolha não só do caminho, mas daqueles que estão perto. Comece a monitorar os que estão por perto, não monitore só os que estão longe, fique de olho nos dois. Acho que em 2010 será a hora de Minas.

ISTOÉ – A oposição a Lula tem sido incompetente?

Itamar – Nós não temos oposição. Que me desculpem alguns partidos, falta uma voz forte, com coerência. A oposição brasileira está preocupada com pesquisas que indicam que o presidente está forte e ficam calados. Os empresários criticam a CPMF, que eu até acho que está correto, mas não passam disso. Eles querem só as coisas em benefício deles.



 
 "Não poderia pôr um espelho embaixo das saias das mulheres para ver se ela (Lilian Ramos) estava sem calcinha"


ISTOÉ – O sr. é um crítico da criação do Ministério da Defesa. Por quê?

Itamar – O governo copiou esse modelo de regimes parlamentaristas. Está errado. Não é certo um ministro da Defesa ficar discutindo centímetros entre cadeiras de avião ou se uma pista deve ser maior ou menor.

ISTOÉ – Há risco de um novo apagão energético?

Itamar – Por sorte e por azar, nosso País não cresceu. Se tivéssemos crescido 4%, estaríamos numa crise energética. Plano o governo tem, falta governo. O que não se pode é entregar o setor energético aos estrangeiros.

ISTOÉ – Hugo Chávez é um parceiro importante para o Brasil?

Itamar – Ele nunca será nosso parceiro. Pode manter boas relações conosco, mas já mostrou que não é nosso parceiro. Ele xinga os EUA, mas entrega o petróleo para eles.

ISTOÉ – O Mercosul tem futuro?

Itamar – É preciso que exista uma concertação regional, senão ficaremos enfraquecidos.

ISTOÉ – O sr. se desiludiu com a política?

Itamar – Hoje eu perdi o fervor político. Não digo que eu perdi o fervor patriótico, mas o político eu perdi.

ISTOÉ – Isso significa que o sr. não disputará mais nenhuma eleição?
Itamar – Em 2008, não. Para 2010, o cenário que eu trabalho hoje é que Minas não pode ter dois candidatos a presidente da República. Se não mudar, o candidato é o governador Aécio Neves. Há muito sereno e muito sol até 2010. Quem não é candidato é bom se guardar do sol e do sereno.

ISTOÉ – Como o sr. avalia, hoje, o episódio Lilian Ramos (modelo fotografada sem calcinha ao lado de Itamar no Sambódromo, durante o Carnaval de 1993)?

Itamar – Estou convencido de que foi um golpe que armaram contra mim. Hoje, eu imagino até quem o fez, só não quero dizer o nome. Mas tem uma coisa: eu não poderia colocar um espelho embaixo das saias das mulheres para olhar se ela estava sem calcinha. Eu jamais imaginaria. Ninguém sensato pode imaginar que o presidente da República pudesse receber uma mulher pelada.

ISTOÉ – O sr. está solteiro?

Itamar – Eu tenho uma companheira.
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