Denise Rothenburg - Correio Braziliense - 05/09/2011
O deputado José Guimarães foi cristalino ao dizer que não está preocupado se "Sarney é isso ou aquilo", que "Michel Temer é apenas um aliado e um aliado importante", e que o partido não pode ir para o isolamento porque tem um projeto nacional. Vai aí um certo desprezo pelo PMDB
Passei o fim de semana "internada" no 4 º Congresso do PT.
Quem teve paciência de prestar atenção nos oradores do plenário ontem na parte reservada apenas aos delegados e convidados especiais percebeu que as alianças eleitorais não são ponto pacífico e que, em casa, as críticas ao PMDB rolam soltas. São poucos, é claro, os que se esgoelam abertamente nos microfones contra o PMDB — caso de Markus Sokol, no sábado, e Júlio Turra, da CUT, no domingo. Mas a concordância com eles nos bastidores é grande.A ponto de levar os dirigentes do partido a garantir que o PT manda e cabe ao PMDB apenas o papel de coadjuvante para que os petistas implementem os avanços sociais que o Brasil precisa e que o partido sonha desde a década de 80, quando engatinhavam no projeto de conquistar a Presidência da República.
Hoje, o PT tem todo o conforto, carro oficial, aerolula, aerodilma, ministérios, estatais, presidência da Câmara... Mas, ainda assim, nem todos os seus filiados estão felizes. Os debates de ontem no 4º Congresso foram prova disso. Sokol foi muito aplaudido no sábado, quando disse que seu partido não tem liga com o PMDB. Recepção semelhante teve o sindicalista Júlio, quando citou o Manifesto de Fundação do PT e lembrou que o partido foi criado exatamente para evitar que os trabalhadores servissem de "massa de manobra" e para se contrapor ao que já havia, inclusive o PMDB. Turra citou nominalmente Michel Temer e José Sarney, que dispensam apresentações. Mencionou ainda o desconforto de ter que agradar a bancada ruralista.
Ele não foi o único a falar do incômodo com o "vale-tudo para ter governabilidade entre aspas no Congresso Nacional". Outros petistas, também de alas mais à esquerda, foram nessa linha, tocaram os corações de muitos, mas não o suficiente para fazer com que uma maioria levantasse os crachás na hora do voto. Na prática, a maioria prefere se aliar aos bem diferentes — ou talvez nem tão diferentes assim — e viver no conforto de ser poder e aprovar o que for possível do programa original. Afinal, é esse o jogo do poder.
Os comandantes petistas deixam claro que a aliança é pragmática e não programática. Em seus pronunciamentos para o público interno, não deixam de demonstrar um certo desprezo pelo PMDB. O deputado José Guimarães foi cristalino ao dizer que não está preocupado se "Sarney é isso ou aquilo", que "Michel Temer é apenas um aliado e um aliado importante", e que o partido não pode ir para o isolamento porque tem um projeto nacional. Pragmatismo maior impossível. Rui Falcão foi direto ao dizer que o PT tem o comando do processo e a hegemonia da aliança.
Ninguém sai, ninguém sai
O incrível é que todo esse sentimento de casamento de conveniência é mútuo. Da mesma forma que o PT considera o PMDB um marido que lhe ajuda a pagar as contas, o PMDB tem visão semelhante a respeito do PT. Não ama, mas suporta em nome de um projeto maior — dividir o comando do Brasil e o conforto decorrente dessa situação. Em todas as reuniões reservadas do PMDB, os petistas são criticados. Na semana passada, a turma de Santa Catarina e de Minas Gerais ensaiou uma rebelião. O Rio de Janeiro, que jura não ter mais cargos no governo e só ter desgaste, já fez até um documento desfiando suas reclamações.
Tudo indica que essa convivência não será pacífica nem hoje, nem amanhã. E, ainda assim, ninguém dará um basta nessa união. No plano federal, enquanto houver governo e perspectiva de vitória eleitoral, PT e PMDB continuarão juntos. Nas eleições de 2012, o PT também quer que a aliança aconteça. Prova disso foi o resultado do congresso de ontem, que liberou as alianças de forma bem pragmática.
Os petistas esperam com a decisão de ontem conquistar o apoio do PMDB em São Paulo e levar Temer a rifar a candidatura de Gabriel Chalita a prefeito da capital. O problema é que, do jeito que os petistas tratam o vice-presidente da República em suas reuniões internas, Temer não terá moral entre os peemedebistas para levar seu partido a baixar a cabeça aos projetos do PT. Se o PT quiser mesmo propor esse noivado ao PMDB paulistano, terá que começar tratando com mais respeito e carinho o vice-presidente da República. Do jeito que está hoje, apesar do pragmatismo, esse casamento não sai.

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