Miranda Sá
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Os volteios da memória nos levam ao passado, envolvendo dados relacionados entre si como num psicodrama… Lendo o noticiário sobre o congresso do PT fui levado a um documento do Partidão – o Manifesto de Agosto – e, curiosamente à célebre obra de Oscar Wilde, ‘O Retrato de Dorian Grey’.
Para realçar ainda mais a correspondência mútua das propostas do antigo movimento comunista e o livro que enfrentou o reacionarismo vitoriano, encontrei um texto (acho que de Rubem Alves) que radiografou o meu pensamento.
Os conceitos são poéticos, por isso, anotei-os: “O amor é a coisa mais triste quando se desfaz. É triste por causa do retrato: porque ele faz lembrar uma felicidade que se teve e que não se tem mais. O retrato é uma sepultura”.
Pois bem. O Retrato de Dorian Grey é uma ficção que conta a história de um jovem na Inglaterra do século XIX, que pela beleza extraordinária foi seduzido pelo pintor místico Basil Hallward a tornar-se modelo de um retrato.
As forças alegóricas do artista transferiram para o quadro a representação de todas as marcas da decadência humana, vícios e perversões, enquanto o seu modelo se conservava permanentemente jovem e belo.
Esta é a semelhança que encontrei com o PT. O partido que surgiu com novo tipo propondo rejuvenescer as idéias socialistas, sem o policialismo stalinista e sem a burocracia dominante nos PPCC. O partido que adotou a democracia interna nas suas resoluções e que se ligava indissoluvelmente à sociedade. O seu quadro foi a realidade brasileira, aonde envelheceu, ficou feio, horripilante.
Os dirigentes do PT pensam em mantê-lo jovem como vanguarda da retaguarda. Adotam propostas que foram válidas historicamente para o stalinismo, mas que hoje servem apenas de máscara para a licenciosidade que deformou a organização política e ideologicamente.
É inimaginável que este congresso, realizado após oito anos de governo Lula e oito meses de Dilma, queira ferir a Constituição inserindo nela um marco regulatório da comunicação social, um eufemismo de censura. E ainda exige urgência para o Congresso Nacional votar essa regulamentação fascista na Carta Magna.
Interessante é saber através do jornalismo político que há menos de um mês o partido havia desistido – a pedido da presidente Dilma – de impor censura à mídia. O recuo atual só tem duas explicações: o temor de que a perseguição aos ladrões do Erário carimbe Lula como cúmplice da ladroagem, e que a reportagem investigativa da Veja sobre Zé Dirceu desnude o lobismo e as conspirações no seio do PT-governo.
Incorporando-se a Lula e a Zé Dirceu, surgem duas cicatrizes profundas no Retrato do PT que, por eles, abandona o princípio democrático de que a informação é um direito do povo. É assim que o ‘controle’ do conteúdo da imprensa transfigura a defesa da liberdade que fazia o partido na sua mocidade.
As rugas de despudor hipócrita e cínico entram no rosto do quadro, quando a cúpula partidária fala em “combater sem tréguas a corrupção”, e que Lula já vinha combatendo os corruptos…
O esgar vicioso sai das pinceladas de impostura e falsidade nos discursos que criminalizam os meios de comunicação como agentes do esvaziamento da política e satanização dos partidos. E de lembrar que, na campanha eleitoral, a cara formosa dos petistas sorria falando pela boca de Dilma que “Prefiro barulho da imprensa livre, ao silêncio da ditadura!”
Outra deformação sinistra no Retrato do PT vem com a defesa de nova CPMF, traição aos princípios sociais democráticos contra os impostos, que o partido diz defender. E está também na mentira de que extinção da velha CPMF foi uma “subtração” às boas intenções do governo Lula no campo da saúde…
A decrepitude monstruosa que contrastava com a beleza imperecível de Dorian Grey tem a mesma conformação do Retrato do PT e da sua tentativa de remoçar com propostas congressuais. de um extremismo superado.

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