Chanceler proibiu que Embaixada do Brasil em Washington mantivesse contato com grupos de exilados cubanos.
Folha divulga 636 telegramas confidenciais trocados entre o Itamaraty e embaixada em Havana
Por Fernanda Odilla e  Rubens Valente
Folha de São Paulo - da Sucursal de Brasília - 25/09/2011
A gestão do então chanceler do governo Itamar Franco (1992-1994), Celso Amorim, hoje ministro da Defesa, proibiu que a Embaixada do Brasil em Washington mantivesse contato com exilados cubanos e aumentou as grades da embaixada em Havana para impedir invasões.
Além disso, expulsou quatro cubanos que invadiram o prédio -dois deles acabaram presos pela polícia do regime.

É o que revelam 636 telegramas confidenciais trocados entre o Itamaraty e a Embaixada do Brasil em Havana, obtidos pela Folha após pedido de desclassificação feito ao Itamaraty e que a partir de hoje são divulgados no Folha Transparência.

Procurado pela reportagem no início da semana passada, Amorim informou na tarde de sexta-feira, pela assessoria, que "o Ministério da Defesa não comentará as informações relativas aos documentos em questão".

Em 1994, o embaixador em Washington, Paulo Tarso Flecha de Lima, pediu autorização ao Itamaraty para participar de um café da manhã em Miami com "entidades representativas da comunidade de tendência moderada".

O objetivo do grupo era "marcar a presença" à margem da Cúpula das Américas, que ocorreria em Miami.
O Itamaraty vetou o encontro, o que deixou o embaixador contrariado. Em telegrama, ele respondeu: "Na realidade, sempre fez parte da tradição do Itamaraty procurar conversar, quando possível, com todos os segmentos envolvidos em confrontos políticos em países ou regiões que, de alguma forma, são importantes para o Brasil".

Os telegramas evidenciam a baixa disposição do Itamaraty, no período 1993-1994, em manter relações com críticos da ditadura de Fidel Castro. A ponto de expulsar quatro deles da embaixada em Havana, em 1993.
 

ABRIGO
Como parte de uma onda de invasões a prédios de embaixadas em Havana, quatro cubanos tentaram sair de Cuba buscando abrigo na Embaixada do Brasil.

Eles tiveram que deixar o prédio no mesmo dia -os documentos não registram a forma como foram convencidos a sair nem seus nomes.


Meses após a invasão, a embaixada brasileira em Cuba pediu autorização para "aumentar e reforçar" a altura das cercas de arame.


Entre 1993 e 1994, invasões semelhantes ocorreram em outras embaixadas na capital cubana. A da Bélgica abrigou mais de 140 cubanos que pretendiam deixar Cuba.


O episódio da invasão ao prédio não é detalhado nos telegramas confidenciais trocados entre Brasília e Havana. As informações do que ocorreu foram localizadas pela Folha nas comunicações do consulado em Miami.


A expulsão dos cubanos repercutiu entre compatriotas exilados, e 75 fizeram um protesto na frente do consulado da cidade norte-americana.


Cobrada sobre a expulsão dos cubanos, a chefe da missão na cidade, Vera Barrouin, queixou-se:
"A imprensa de Miami tem sistematicamente omitido parte de minhas declarações relativas ao fato de que os postulantes de asilo na embaixada [...] declararam não exercer atividades políticas, fator fundamental para que a eles se tivesse aplicado a Convenção de Caracas".


Vera também acionou a polícia e a prefeitura para impedir que um novo protesto fosse realizado perto de um festival de música brasileira -o protesto acabou desmarcado, após a notícia de que os dois cubanos expulsos pelo Brasil tinham sido soltos.
 
 

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