Por Paulo Moura, cientista político

Reina a controvérsia entre empresários, políticos, jornalistas e cientistas políticos no momento em que a intenção de Lula disputar um terceiro mandato consecutivo vem à tona. Uns acham que se Lula tiver oportunidade vai tentar mudar a Constituição e aprovar sua possibilidade manter o trono. Outros acham que Lula é um democrata nato e não vai mudar a regra do jogo em benefício próprio. Outros, ainda, afirmam que apenas a companheirada cada vez mais numerosa que Lula emprega no governo é que deseja manter a boquinha, mesmo sem o aval de Lula.

Texto completo

Em primeiro lugar, convém esclarecer, não se está profetizando que Lula vai tentar um terceiro mandato. Mas sim, que ele quer ficar no cargo, a exemplo de Fidel e Chávez, até que a morte o separe da boquinha.

Subestimar a inteligência alheia induz os arrogantes ao erro. Até os petistas perceberam que, para chegar aonde querem, isto é, no socialismo reafirmado por seu 3º Congresso, seria preciso, primeiro, dar alguns passos à direita. Neutralizada a resistência dos setores conservadores para eleger Lula, está dado o primeiro passo para a lenta e enrustida caminhada do governo petista em direção à esquerda.

O governo Lula é de transição, rezam os burocratas do PT. Transição de um "modelo neoliberal" para outro, socialmente justo, distribuidor de riqueza, promotor do desenvolvimento e da construção do paraíso nessa terra abençoada por Deus e bonita por natureza, mais que beleza; dizem eles.

Como dizia Aristóteles, todo o discurso é uma meia verdade que esconde, por omissão, aquilo que, de fato, deseja o orador. A lacuna proposital na seqüência da caracterização do regime "justo, distribuidor de riqueza e promotor do desenvolvimento" do mantra petista, é a palavra "socialista". Isso os petistas só dizem com clareza nos seus Congressos herméticos e distantes das classes populares. A classe trabalhadora, dizia Lênin, é socialista desde criancinha, mas, por não saber como é bom o paraíso, necessita de uma vanguarda profissional que a leve aonde não quer, apenas porque desconhece.

O 3º Congresso petista foi claro. O destino que os petistas planejam para o Brasil é socialista. O PT terá candidato próprio em 2010. O governo Lula é de transição para o socialismo. O socialismo será implantado lenta e gradualmente. Lula afirmou claramente que ele e o PT são inseparáveis e que "não dá para pensar o PT sem ele e nem ele sem o PT". Lula disse, também, que os petistas não devem ter vergonha de defender os companheiros a quem o Procurador Público Federal caracterizou como quadrilheiros e assaltantes de cofres públicos e assinou embaixo. Ou seja, para os petistas, será muito difícil engolir a interrupção da transição para o socialismo e a perda dos empregos e chave do cofre do Estado patrimonialista. A eventual derrota eleitoral dos fracos nomes que o PT teria a apresentar aos eleitores em 2010 não faz parte da equação estratégica de Lula e sua turma.

Aécio Neves é um político centrista, mais peemedebista que tucano; com pedigree geneticamente fabricado para o exercício da presidência. O neto de Tancredo jamais daria continuidade à transição petista para o socialismo. Por isso, os petistas já tratam de vasculhar as ligações do mineiro com o valerioduto. Ciro Gomes é de direita, mas finge bem que é de esquerda. De fato, é um populista e personalista que, se eleito, tratará de expulsar o petismo do governo para solapar as condições de um eventual retorno de Lula em 2014.

Serra está à esquerda do PT em termos de política econômica. A única diferença entre Serra e Lula do ponto de vista programático é que o socialismo do tucano é mais light. Por isso, Serra é um perigo para o petismo. Ele pode roubar as bandeiras de Lula exatamente como Lula roubou a de FHC em 2002. Serra é mais competente e experiente que Lula e todos os petistas juntos. Não obstante, todos os antes citados, menos Alckmin, sonham que Lula não será candidato e poderá apoiá-los em 2010. Gente grande acreditando em Papai Noel é dose. Se Alckmin se eleger prefeito de São Paulo, talvez tenha chance de polarizar com o petismo, combatendo essa nostalgia stalinista que embala os sonhos de poder eterno da burocracia petista.

A chave do sucesso de Lula está na armadilha dos benefícios imediatos que impedem a percepção dos prejuízos futuros. A regra vale para a turma que ganha bolsa esmola e para a turma que ganha bolsa juros. Os grandes empresários do país, e nisso Lula tem razão, não têm motivos para querer Lula fora do governo se raciocinarem apenas com o bolso cheio de hoje. Aliás, eles seriam os primeiros a apoiar mais um mandato para o petista. O convívio com Lula nos convescotes em Brasília e uns bons trocados no bolso entorpecem qualquer um que não queira enxergar o futuro.

Lula é um democrata afirmam os que já tomaram uns uísques com ele em recepções palacianas. Ele não fará o jogo dos seus assessores. Fará o seu, dizem... Certamente não o viram dizer, no congresso do PT, que ele e o partido são inseparáveis. Certamente não viram o congresso do PT aprovar um plebiscito pela anulação da privatização da Vale do Rio Doce. Todos preferem acreditar que Lula, mesmo dizendo-se inseparável do PT, não sabe de nada do que seus discípulos praticam.

Enquanto a economia mundial estiver indo bem, graças ao ninho que os tucanos fizeram para Lula, o combate ao petismo somente poderá ser feito no terreno ideológico e por quem sabe ler os sinais escondidos sob o método de avanços e recuos com que o PT vai testando as possibilidades de acelerar sua transição para o socialismo. Se colar, colou. Se não colar, retira-se a MP da pauta, reformula-se o texto e tenta-se mais adiante outra vez, até colar.

Lula e o PT estão praticando esse método com o projeto do 3º mandato já. Só não vê quem não quer. Se avaliarem que a tentativa do novo mandato em 2010 será contraproducente, não tentarão. Mas, até agora, estão operando bem a estratégia de aprovação desse golpe. Ao incentivar o debate precoce sobre 2010, Lula estimula o contraste entre os atuais postulantes e ele mesmo, no seu melhor momento desse segundo mandato.

Quando aqueles que hoje patrocinam e apóiam o PT abrirem os olhos, já será tarde demais. Todas as migalhas acumuladas hoje terão virado prejuízo irreparável no momento em que a transição petista para a sociedade mais justa e igualitária tiver chegado ao destino, deixando de ser retórica para ser prática. O segundo mandato de Lula está mais à esquerda do que o primeiro. O terceiro estaria mais ainda. O quarto...
Adicionar comentário