Cristina e o PNDH - 3 argentino.
  O Brasil que se cuide
Revista Veja - 26/12/2011
Com invasão policial e leis autoritárias, a presidente argentina tenta calar a imprensa livre
Irritada com as vozes que denunciam a corrupção e o populismo em seu governo, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, arremete sistematicamente contra jornais, revistas, canais de televisão e sites da internet. Na semana passada, foram três ataques quase simultâneos contra o jornal Clarín, que desde 2008 trocou a confortável bajulação oficial pelo jornalismo investigativo, crítico - e intolerável para o governo. Na terça-feira 20, um grupo de cinquenta policiais armados invadiu o prédio da rede de TV a cabo e internet Cablevision, do grupo Clarín.
Eles andaram pelos corredores do prédio, revistaram funcionários e exigiram documentos e planilhas financeiras. Dois dias depois, o Senado argentino aprovou uma lei que torna a produção, a comercialização e a distribuição do papel-jornal um bem de “interesse público”. O objetivo é expulsar o Clarín do comando da Papel Prensa, a maior fabricante de papel para jornais da Argentina. Por último, a Secretaria de Direitos Humanos pediu a convocação para depoimento da dona do Clarín, Ernestina Herrera de Noble, acusada de crimes contra a humanidade.
Impelidos pela raiva, os recentes ataques contra a imprensa carecem de justificativa. A intervenção policial na Cablevisión foi ordenada por um juiz de Mendonza a pedido do empresário José Luis Manzano, um dos donos do Grupo Uno. Ele acusou o grupo de concorrência desleal. A Cablevísion, porém, nem sequer opera em Mendonza. O vaidoso Manzano (os argentinos juram que ele colocou prótese de silicone nas nádegas) é conhecido por aliar-se sempre ao poderoso do momento. Foi ministro do interior do governo do também peronista Carlos Menem (1989-1999), do qual saiu sob a acusação de lavagem de dinheiro. Após a ascensão dos Kischner, Manzano prontamente aderiu à nova ordem, mesmo sendo ela a negação de suas crenças liberais. Foi presenteado com uma enxurrada de anúncios estatais. Só neste ano, a receita de publicidade oficial do Grupo Uno cresceu oito vezes. A do Clarín caiu 63%.
A alegação quanto à lei da Papel Prensa é que Clarín e La Nación compraram suas ações durante a ditadura militar. Para tanto, a vendedora das ações, Lidia Papaleo, teria sido submetida a sessões de tortura. A negociação configuraria um crime contra a humanidade. Papaleo, é verdade, foi torturada pelos militares. Mas o fato ocorreu depois da venda das ações. Quando Clarín e La Nación adquiriram participação, Lídia estava sob o achaque da guerrilha de esquerda dos Montoneros.
Ao agredir o Clarín por todos os meios possíveis, Cristina retomou ataques anteriores. Em outubro de 2009, a presidente passou no Legislativo a Lei de Meios. O texto proibia jornais de ter operações em televisão, rádio e internet. O inimigo Clarín, assim, deveria vender seus negócios. A Corte Suprema de Justiça acatou a medida cautelar e impediu que esse artigo da lei entrasse em vigor. Ao enviar policiais à sede da Cablevisíon, o estado avisou que não abandonou a guerra. “O governo não conseguiu desfazer-se da oposição com a Lei de Meios e agora tenta nos destruir de outra maneira”, diz Mártin Etchervers, gerente de comunicação do grupo Clarín.
As ofensivas contra a Papel Prensa foram paralisadas pelo ridículo da situação. O thriller policial escrito pelos cristinistas para justificar a estatização diluiu-se inteiramente pela falta de provas. O que se sabe é que é velho o recurso da censurar jornais limitando a quantidade de papel disponível. Para sufocar o La Nación, Juan Domingo Perón reduziu a importação de papel-jornal, então sem similar na Argentina. O La Nación caiu do terceiro para o sétimo lugar entre os mais vendidos. A Argentina, como sempre, se mantém presa ao seu passado.
Subsecretário por dez dias
A organização juvenil La Cámpora foi criada em 2003 por Máximo Kirchner, filho do falecido Néstor e da presidente Cristina. Composto majoritariamente de homens, o grupo tinha como missão respaldar as políticas oficiais e, vez por outra, enfrentar brutalmente alguns dos inimigos do governo. No primeiro e no segundo mandatos de Cristina, esse último iniciado há três semanas, eles galgaram postos valiosos no poder nacional. Sem experiência profissional nem política, mas contando com uma lealdade incondicional a Cristina, eles lotaram a chefia do gabinete da presidente, a direção da estatizada Aerolíneas Argentinas, a presidência do Fundo de Capital Social (Foncap) e cargos menores em diversos outros ministérios. Na terça-feira 20, a imagem oficial de uma juventude disposta e capaz foi subitamente manchada. Durante uma reunião entre presidentes do Mercosul, em Montevidéu, o corpo do economista Iván Heyn, de 34 anos, foi encontrado no quarto de um hotel. Um dos líderes do La Cámpora, ele estava sem roupas, enforcado no cinto, pendurado no cabide do armário. Apenas dez dias antes, Heyn fora nomeado subsecretário de Comércio Exterior. Ao tomar conhecimento da notícia, Cristina teve queda de pressão e abandonou uma reunião. De volta a Buenos Aires, a presidente o homenageou como “um homem que deixou a classe média alta para ser um garoto que teve de ir à luta para ganhar a vida”. As causas do suicídio ainda estão sendo investigadas.
 

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