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Categoria: Diversos
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 Por MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA
A absolvição de Renan Calheiros provocou mais indignação do que o normal. É isso significa cansaço cívico da Nação causado por saturação das bandalheiras cometidas pelos políticos. Note-se que as reações não vieram apenas da elite (termo, aliás, incorretamente usado pela esquerda), dos letrados, dos cansados. Pela manhã, ao me entregar um jornal, a zeladora do prédio onde moro, senhora simples, mas digna, me disse com ar horrorizado e olhos postos na manchete que indicava a absolvição de Calheiros: “não é possível, não posso acreditar que isso aconteceu a esse aí”.

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O mesmo estupor foi demonstrado pelos porteiros e outra senhora que me ajuda nos trabalhos domésticos duas vezes por semana. Eles não são ricos nem poderosos, mas gente de pouca instrução, que paga suas contas em dia, que manda os filhos para a escola pública na esperança de que a educação dê a eles uma vida com melhor qualidade, vida que eles não puderam ter.

Na Internet jorram mensagens de indignação, de inconformismo diante da monumental desfaçatez dos quarenta e seis senadores da República.  Nem os muitos mensaleiros perdoados por seus pares, nem os fragorosos escândalos que começaram na esfera do Executivo com o caso Waldomiro Diniz provocaram tamanha reação. Talvez, porque Calheiros, ao tentar justificar o injustificável fato de um lobista de empreiteira entregar pagamento mensal a sua amante, afrontou aos que possuem um mínimo de discernimento. Foi como se ele dissesse: o povo é idiota, portanto, é fácil enganá-lo com uma lorota qualquer. 

 Além do lobista acumularam-se pilhas de documentos, de fotos de empresas fantasmas, de acusações de sonegação fiscal, de compras feitas por laranjas. Nas disso foi dado como prova contra Renan Calheiros que, acenando com denúncias semelhantes, intimidou seus pares e foi absolvido.

Trinta senadores pediram a cassação do presidente do Senado. Quarenta (que número significativo a lembrar os 40 de Ali-Babá e os 40 mensaleiros) o absolveram. Seis se abstiveram de votar, colaborando, assim com o companheiro e atestando sua índole de covardes, de pusilânimes, dos que se escondem sem coragem de assumir seus atos.

Todos os tristes episódios que vêm se multiplicando nesse governo mostram com é pobre, abjeta, imoral nossa cultura cívica. Comparemos, por exemplo, o Brasil com o Japão. Neste país renunciou o premiê Shinzo Abe por conta de suspeita de corrupção. Sua aprovação popular que era de 70% quando assumiu o cargo havia caído para 29%, o que demonstra que no Japão tem povo no sentido de impor conduta e direção aos governantes. E na sua despedida em cadeia de televisão, disse Shinzo Abe: “eu me vejo incapaz de cumprir minhas promessas – e eu me tornei um obstáculo para cumpri-las”.“É hora de alguém mais viável assumi-las”. Nessas breves palavras, quanta diferença em relação ao que se passa entre nós, quando mesmo em face das mais claras evidências, altas autoridades que deviam dar exemplo se agarram desavergonhadamente aos cargos demonstrando que a elas só interessa o poder pelo poder.

Mas quem foi o grande ganhador no escândalo Renan Calheiros? Teria sido o senador que se manteve no cargo mesmo sendo indigno dele? Teria sido o Senado? Claro que não. O senador tem agora sua biografia manchada de forma indelével, em que pese a memória curta do povo. O Senado sai do episódio sórdido ainda mais desmoralizado, o que atinge o Congresso Nacional como um todo. O grande ganhador de fato foi o PT e sua figura símbolo, Lula da Silva, chave para a permanência no poder dos companheiros e agregados.

Afinal, no recente congresso petista, entre as decisões tomadas estava a de extinguir o Senado. Daí é só um passo para acabar com o Congresso e seus “picaretas” (antiga expressão de Lula da Silva) e partir para a “democracia de massas”, quer dizer, de massas de manobra do PT.

Renan é bom companheiro, ninguém (pelo menos do PT) pode negar. Ele teve apoio explícito do presidente da República, foi defendido ardorosamente pela tropa de choque petista do Senado. Contudo, o senador devia conhecer as leis do PT, ou seja: esmagar quem apóia; triturar que não reza pela cartilha, jogar fora o que não tem mais serventia, desmoralizar, intimidar, perseguir, castigar, manter o poder a qualquer custo.

Eliminado o Senado restaria a Câmara já domesticada, mantendo-se, assim, a fachada de democracia à lá Chávez. Ficaria, então, muito fácil, a aprovação do terceiro mandado presidencial.

Resta perguntar, como fez um dos meus correspondentes: “que legado essa geração de políticos vai deixar para a história?”. Ele mesmo responde: “Como a história é escrita por intelectuais cooptados pelo poder, nossos netos ficarão sabendo que houve no Brasil um Lincoln tropical, um pobre operário retirante que salvou os pobres e foi o maior estadista do século XXI”.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

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