Dissidente cubana Yoani Sánchez diz que visita de presidente semana que vem não pode ser só "tapete vermelho"
Flávia Marreiro - Folha de São Paulo - 27/01/2012
A blogueira cubana Yoani Sánchez espera que a presidente Dilma Rousseff escute "a maravilhosa diversidade de vozes cubanas" na visita que fará a Cuba na próxima terça e que esteja tão preocupada com os investimentos brasileiros na ilha quanto com os direitos dos cidadãos cubanos comuns.
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"Que essa visita não seja apenas de tapete vermelho", afirmou Sánchez à Folha.
A premiada blogueira opositora do regime dos Castro recebeu anteontem da Embaixada brasileira em Havana visto de turista para visitar o Brasil no próximo mês.
Ela solicitou o documento para participar, no dia 10, do lançamento do documentário "Conexão Cuba-Honduras", de Dado Galvão, em Jequié (Bahia).
Para estar presente no evento, porém, falta o mais difícil: a anuência do governo cubano.
Folha - A sra. vê alguma sinalização política de Brasília na concessão do visto de turista?
Yoani Sánchez - Queria ter essa esperança. Estou entre a esperança e o ceticismo. Sem dúvida nenhuma, é um gesto positivo, de respeito ao meu trabalho jornalístico, a mim como cidadã, antes de ter a ver com a carta que enviei à Dilma ou o apelo pela ajuda dela.
Cumpriu-se um trâmite burocrático de uma simples cidadã, e isso talvez seja importante simbolicamente também. Entreguei todos os requisitos, antecedentes penais e tudo que pediam no tempo requerido. Não havia um só motivo para não conceder o visto e eu o recebi.
Tenho um passaporte cheio de visto de vários lugares, do Chile, da Espanha. Nos últimos quatro anos tem sido assim: eu recebo o visto para entrar em outros países, mas não para sair daqui.
Folha - O que a sra. espera da visita de Dilma?
Esperamos dela uma agenda muito mais ampla do que contatos com o governo e com a chancelaria. Esperamos que ela esteja interessada não só no estado da construção do porto de Mariel [obra financiada pelo BNDES e feita pela Odebrecht], mas também no estado da construção dos direitos cidadãos em Cuba.
Que essa visita não seja apenas de tapete vermelho, que ela se aproxime e consiga escutar a maravilhosa diversidade de vozes cubanas.
Dilma chega a Cuba num período complicado, de aumento da agressividade oficial, de radicalização do discurso por causa da morte do dissidente Wilman Villar, há oito dias.
Tem havido detenções e muita violência verbal contra nós. Desde a morte dele, aumentou a vigilância. Ontem [anteontem] justamente, quando fui à embaixada brasileira apanhar meu passaporte, havia dois homens em dois carros me vigiando.
Folha - A sra. pediu um encontro com a presidente Dilma. Algum sinal de que vá acontecer?
Até agora não há nenhuma sinalização. Creio que não haverá espaço.
Folha - A sra. se comparou a Dilma, na foto em que ela aparece sendo julgada por militares durante a ditadura. Por quê?
A foto de Dilma é emblemática, me impressionou muito. É como eu me sinto nesse momento: embora não tenha sido condenada nem julgada, eu também me sinto numa prisão em formato de ilha, na qual as grades são o mar. Apesar das diferenças de momento histórico, o que há de semelhante, creio, é a covardia do repressor.
Folha - Qual é a situação de força dos opositores em Cuba? Há ambiente para uma "primavera cubana"?
A primavera cubana ainda não está madura. É como um fruto ainda na árvore: tem de passar frio, sol. Há muito medo.
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Yoani 
Luiz Felipe Lampreia
http://oglobo.globo.com/blogs/lampreia/ 
A concessão do visto de entrada no Brasil a Yoani Sanchez- essa destemida porém serena blogueira que fielmente retrata a desesperança dos cubanos sob o regime castrista- foi um resultado já significativo da próxima visita da nossa presidente a Cuba. Negar este visto teria sido desastroso. Concedê-lo foi uma iniciativa rápida,acertada e expressiva.
  Fidel continua obsessivo e impiedoso, escrevendo no jornal oficial um artigo que  fala de  "mentiras descaradas" e afirma que Wilman Villar era apenas um preso comum que “ se suicidou” fazendo uma greve de fome, como se alguém pudesse cometer tal barbaridade.O velho  líder cubano jamais permitiria uma autorização a Yoani para afastar-se do país e, se não fosse piorar ainda mais sua péssima imagem, teria mandado prende-la há muito tempo. Espera-se porém que Raul prossiga em seu difícil caminho de abertura gradual  e conceda a Yoani o direito de sair de Cuba para vir ao Brasil em gesto igualmente significativo, como o de Dilma.
 

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