Na Espanha, ex-presos criticam postura brasileira quanto a dissidentes
Priscila Guilayn - O Globo - 31/01/2012
MADRI. Os 8 mil quilômetros que separam Cuba e Espanha não são impedimento para que os exilados neste segundo maior polo de oposição (depois de Miami) ao regime dos irmãos Castro acompanhem toda e qualquer notícia sobre a ilha. Principalmente se o assunto é a visita oficial da presidente Dilma Rousseff. Para os ex-presos políticos, a atitude da mandatária de não se reunir com dissidentes é incoerente.
- Não acredito que Dilma Rousseff tenha o interesse sincero, por menor que seja, de defender os direitos humanos em Cuba. E não acredito que sua visita tenha, neste aspecto, uma mínima influência. Uma gota de água doce não muda o sabor do mar - opina o roteirista e jornalista Ricardo González Alfonso, um dos 12 presos da chamada Primavera Negra que foram libertados entre 2010 e 2011 e hoje vivem em Madri.
Texto completo
"Trabalho autônomo e libertação de presos não são novidades"
Os sete anos e quatro meses que Ricardo González ficou preso - de um total de 20 anos de pena - por discordar do regime cubano já viraram lembranças distantes, apesar dos muitos problemas de saúde, heranças do cárcere, dos quais padece. Ele não deixou familiares para trás: trouxe para Madri sua mulher, sua ex-mulher e seus três filhos. Mesmo assim, longe da ilha diz sentir-se uma raiz sem terra. Na Espanha, como dissidente ativo,acaba de lançar o livro "Emigrar ao patíbulo", com crônicas escritas na prisão, dá conferências e escreve artigos para jornais internacionais:
- Até agora não há mudança. Nenhuma. Trabalhadores autônomos, por exemplo, já havia: eu fui um deles, vendendo amendoim e churros nas ruas para poder aumentar meu orçamento como jornalista. Liberação de presos para a chegada do Papa? Já fizeram isso na visita papal de 1998. Meu cunhado saiu da prisão naquele momento. O que você acha do médico que receita uma aspirina para um doente de câncer terminal? É o que o regime está fazendo. Enquanto isso, mantém o sistema de partido único, que caracteriza os governos autoritários. E, depois de 50 anos no poder, decidem que poderão ficar outros dez! É uma chacota!
Os dissidentes que permanecem em Cuba, com os quais Dilma não se encontrará, são para Ricardo um dos elementos que contribuirão para o "perecimento" do atual regime. E, portanto, vê como positivo o visto concedido à blogueira cubana Yoani Sánchez, para que possa estar presente na apresentação do documentário "Conexão Cuba-Honduras", do cineasta Dado Galvão. No entanto, ressalta que a atitude do governo brasileiro mostra uma das incoerências da visita de Dilma.
- Acredito que desta vez Yoani conseguirá viajar (a blogueira nunca obteve a permissão do governo cubano para sair da ilha). Mas, embora seja algo bom, é uma medida que favorece uma pessoa. E o que acontece com os outros 11 milhões de cubanos, que estão privados do direito de ir e vir? Sobre isso, Dilma Rousseff não falará em sua visita a Cuba? - questiona González. - Rousseff vai tratar dos interesses do Brasil, e tocar em violações de direitos humanos atrapalharia seus objetivos.
O jornalista independente Alejandro González Raga, também do Grupo dos 75, que saiu da prisão (cumpriu cinco dos 14 anos de pena), em 2008, diretamente para o aeroporto de Havana, e de lá, para o de Barajas, em Madri, opina que Dilma deveria "falar com clareza". González Raga é um dos fundadores e vice-presidente do Observatório Cubano de Direitos Humanos:
- Se ela não expõe com clareza uma posição a favor do direito de pensar e de se expressar, sua visita acabará servindo para desviar a atenção da realidade cubana. Falta consistência nesta visita - afirma o jornalista, que há seis meses trabalha no departamento de manutenção de um hospital madrilenho. - O ministro das Relações Exteriores (Antonio Patriota) foi infeliz ao dizer que a situação em Cuba não é urgente. Mesmo que não seja prioridade na agenda, o que entendo perfeitamente, deveria ser tratado.
Sua mulher, Bertha Bueno, que faz parte das Damas de Branco, toca na ferida:
- Wilman Villar morreu por isso: tentando denunciar as violações de direitos humanos. O que mais tem que acontecer para que reconheçam a realidade cubana?

 

Comments powered by CComment