Editorial O Globo - O Globo - 20/02/12
Cuba nunca deixou de constar, de alguma forma, da agenda da política externa brasileira. Mesmo, é claro, quando, na ditadura militar, a ilha era a materialização da ameaça comunista próxima à fronteira. Por uma dessas contingências irônicas da História, o general presidente Ernesto Geisel chegou a ficar do mesmo lado de Fidel Castro na defesa do MPLA na descolonização de Angola. Veio o início da redemocratização, em 1985, e, logo no ano seguinte, com José Sarney na presidência, as relações diplomáticas entre os dois países foram reatadas. Não havia mesmo motivo para mantê-las congeladas. Até por complementaridades econômicas, a mais evidente delas a especialização dos dois países na agroindústria canavieira.
O tema ganharia forte tonalidade político-ideológica em 2003, com a chegada a Brasília, na caravana vitoriosa do PT, de militantes com fortes laços com Havana, alguns do círculo de amizade dos irmãos Castro. Passou a existir alto teor de passionalidade no trato com a ilha. Como o antiamericanismo feroz é traço do DNA da esquerda latino-americana, a política externa brasileira foi reciclada para atuar nesta frequência. Daí deriva, entre outros, o erro estratégico da aposta, com todas as fichas, na Rodada de Doha, para compensar o bombardeio da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), malquista por ter se originado em Washington, numa operação de que a Argentina kirchnerista e o Brasil lulopetista participaram com grande alegria, sob aplausos do caudilho Hugo Chávez e do ditador Fidel. No fim, o Brasil e parceiros no Mercosul ficaram sem Doha e sem Alca.
Até mesmo em questões sensíveis como direitos humanos e, dentro deles, a condução de situações delicadas como o asilo político, o Brasil desconsiderou a longa tradição de profissionalismo do Itamaraty. Foi assim na inominável deportação de dois lutadores de boxe cubanos, Guilhermo Rigoundeaux e Erislandy Lara, competidores no Pan do Rio, em 2007, cujo pedido de asilofoi negado, quando estava no Ministério da Justiça Tarso Genro, atual governador do Rio Grande do Sul. Para completar o desatino, o repatriamento foi feito, de forma sugestiva, em avião venezuelano (!). Os dois, felizmente, conseguiram depois escapar de Cuba.
Lula, ainda presidente, desembarcar em Havana na morte de um prisioneiro político em greve de fome, deixar-se fotografar com Raúl e Fidel como velhos companheiros em férias no Caribe, e, na volta ao Brasil, comparar os detidos cubanos por delitos de opinião a presos comuns é uma excrescência, se vista do ângulo dos direitos humanos, mas coerente com a visão ideológica míope desta geração de filhos de Fidel. O mesmo viés explica o fato de a presidenteDilma Rousseff, também em viagem à ilha, equiparar o tratamento abjeto dado a islâmicos acusados de terrorismo, presos na base americana de Guantánamo, aos crimes da ditadura cubana. São questões diferentes. O descumprimento da própria legislação americana na base é inaceitável, e isso pode ser criticado livremente nos Estados Unidos. O mesmo não ocorre com uma ditadura de pouco mais de meio século que transformou Cuba em grande prisão.
Se a democracia e os direitos humanos são fundamentais para a Humanidade — e são —, nada pode justificar um regime que os desrespeite.
Sequer alegados avanços sociais. Mesmo porque as sociedades mais avançados são as em que há mais liberdade. Se há tantos avanços, por que Cuba não abre as fronteiras?

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