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No livro Direito à Memória e à Verdade  lançado no Palácio do Planalto, com a presença do Presidente Lula, do Ministro da Defesa, Nelson Jobim , do Ministro da Justiça, Tarso Genro, do secretário de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, de várias autoridades e dos familiares dos mortos e desaparecidos políticos, a morte de José Milton Barbosa, militante da ALN - Aliança Libertadora Nacional -, é descrita da forma abaixo.
A Comissão de Paz e Justiça, que julga os pedidos de indenizações das famílias, depois de ouvir "testemunhas", examinar "documentos" e chegar a conclusões com "provas " muitas vezes inconscistentes, defere ou não os pedidos de indenizações às famílias.

DIREITO À MEMÓRIA E À VERDADE "JOSÉ MILTON BARBOSA (1939-1971)

Número do processo: 264/96

Filiação: Maria das Dores de Paulo

Data e local de nascimento: 22/10/1939, Bonito (PE)

Organização política ou atividade: ALN

Data e local da morte: 05/12/1971, São Paulo (SP)

Relator: Suzana Keniger Lisbôa

Deferido em: 10/04/1997 por 6x1 (voto contra do general Oswaldo Pereira Gomes)

Data da publicação no DOU: 16/04/1997

Pernambucano de Bonito, morto na capital paulista em 05/12/1971, o afrodescendente José Milton tinha sido sargento radiotelegrafista do Exército, formado pela Escola de Sargento das Armas. Foi cassado em 1964, logo após a deposição de João Goulart, militou no PCB, transferiu-se ao PCBR e teve breve passagem pelo MR-8 antes de ingressar na ALN, da qual foi dirigente. Documentos dos órgãos de segurança o indicam como participante do seqüestro do embaixador alemão, da execução do industrial Albert Henning Boilesen e como sendo uma das 21 pessoas mais procuradas em todo o país, no momento de sua prisão e morte.Em 1967 ingressou no curso de Economia da antiga Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual UERJ, onde estudou até o 3º ano, quando foi forçado a entrar para a clandestinidade. Até fevereiro de 1969, trabalhou na SUNAB.

Antes de a CEMDP analisar o caso, praticamente a única informação que constava no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos era que José Milton fora morto em tiroteio no bairro Sumaré, ao lado do cemitério do Araçá, na data citada, sendo enterrado como indigente em Perus, sob o nome falso de Hélio José da Silva. (1)

Nos arquivos secretos do DOPS/SP foi encontrada uma requisição ao IML, marcada com o característico “T” de “terrorista”, tendo como

declarante Altino Pinto de Carvalho. Lavrada com o referido nome falso, informa que ele morrera às 16 horas do dia 5 de dezembro. Mas

trazia em anexo a ficha datiloscópica de José Milton. Constava também o local do tiroteio – esquina das ruas Tácito de Almeida e Cardoso de Almeida – e o horário de entrada do corpo no IML: 21 horas.(2)

Na CEMDP, o parecer da relatora apontou, como evidências de que José Milton não morreu no alegado tiroteio, a diferença de cinco horas entre a morte e a entrada no IML, realçando também o fato de conhecerem os órgãos de segurança a verdadeira identidade do morto. Como elemento determinante, enfatizou as contradições detectadas na análise das fotos do corpo e do laudo necroscópico.(3)

Assinado por Antônio Dácio Franco do Amaral e José Henrique da Fonseca, o laudo de necropsia aponta quatro orifícios de entrada de

projétil de arma de fogo, nenhum na cabeça, mas ao exame interno observaram edema e anemia do encéfalo. O exame da foto, encontrada nos arquivos do DOPS/SP, mostra que, em pleno verão, José Milton trajava roupa pesada, com grossa japona de lã e calça de veludo, tendo o pescoço suspeitamente envolto em lenço ou cachecol, com a possível intenção de acobertar sinais de violência.(4) Mesmo assim, a foto permite visualizar, com nitidez, os ferimentos que provavelmente causaram o edema registrado no laudo: lesões e equimoses no nariz, canto do olho esquerdo, queixo e testa, estranhamente não descritos no laudo.(5)

Apresentado o voto pela aprovação do requerimento em 19/11/1996, o general Oswaldo Pereira Gomes manifestou-se pelo indeferimento e Paulo Gustavo Gonet Branco pediu vistas dos autos. O processo voltou à pauta em 10/04/1997 e o revisor estabeleceu uma comparação entre as fotografias do corpo e o laudo necroscópico que, embora minucioso, não fazia qualquer referência aos visíveis ferimentos em diversas partes do rosto. Com o argumento de que, “as fotografias emprestam significado relevante à demora ocorrida entre o momento da morte e o da entrega do corpo ao IML, certo de que a polícia, neste período tinha o domínio da situação e ainda que transmitem, de igual sorte, importância à indicação de nome equivocado do cadáver e subseqüente enterro sob o mesmo nome incorreto”, Paulo Gustavo Gonet Branco acompanhou o voto da relatora."

                                                    


Outra versão é a publicada no livro A Verdade Sufocada - A História que a esquerda não quer que o Brasil conheça, do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra que chefiava o DOI na ocasião da morte de José Milton.                                


"Um combate

05/12/1971

No dia 5 de dezembro de 1971, um domingo, eu descansava em minha residência,conversando com o “Velho” Expedito, ouvindo os seus casos da época em que trabalhava como segurança do presidente Getúlio Vargas. Os outros três membros da equipe que dava proteção a mim e a minha família divertiam-se com as aventuras do “Velho”. Ele era um policial experimentado. Já fora da Polícia Federal, da Guarda Civil e agora era da Polícia Militar de São Paulo. Eu confiava demais no “Velho”. Era um “cão de guarda”. De longe “farejava” e sentia a presença de tudo que fosse estranho. Um grande policial e um devotado amigo que sempre se expôs para nos proteger. Pedro Expedito de Morais morreu, já aposentado, como primeiro sargento da PM de São Paulo.

Eram mais ou menos 16 horas, quando o telefone tocou. O oficial de dia pedia a minha presença urgente. Acabara de haver um tiroteio na Rua Cardoso de Almeida, no bairro Sumaré, entre a Polícia Militar e três terroristas.

Na reunião da Comunidade de Informações, na última quarta-feira, eu solicitara ao chefe da 2ª Seção da Polícia Militar que colocasse barreiras para controle de trânsito nos prováveis locais onde os terroristas mais transitavam.

Conforme combinado, após um estudo da Seção de Análise do DOI, escolhemos alguns locais críticos e indicamos as zonas de maior atuação terrorista para que a Polícia Militar montasse as barreiras.

O tiroteio que acabara de ocorrer era fruto do atendimento da Polícia Militar ao nosso pedido e, principalmente, de sua eficiência.

Imediatamente me dirigi ao DOI, tendo ao meu lado, com a metralhadora sempre pronta, o “Velho” Expedito e os outros três membros da equipe. Em pouco tempo me inteirei dos fatos. José Milton Barbosa (Cláudio, Castro ou Rafael), ex-militante do Partido Comunista Brasileiro, sargento expulso do Exército, vinha com sua companheira Linda Tayah (Bia ou Miriam) e Gelson Reicher (Marcos), quando se depararam com a barreira da PM. No carro, transportavam bombas e explosivos, além de armas e munições que usavam em ações e em treinamentos realizados em locais afastados.

Desses treinamentos, participavam com freqüência: Lídia Guerlenda, estudante de Medicina e integrante do Grupo Tático Armado da ALN; Gelson Reicher, também universitário, recém-chegado de Cuba, onde fizera curso de guerrilha; José Milton Barbosa e Linda Tayah, entre outros. Vinham preocupados. No dia anterior, o grupo tivera um problema sério no treinamento. Lídia Guerlenda teve a mão decepada ao manusear, perigosamente, uma bomba de fabricação caseira que explodiu antes de ser arremessada.

José Milton, Linda Tayah e Gelson, todos de um Grupo Tático Armado (GTA) da ALN, apanhados de surpresa, abandonaram o carro. José Milton, com uma metralhadora INA, Linda e Gelson, cada um com um revólver .38, invadiram uma casa e fizeram os moradores como reféns. Gelson Reicher fugiu do cerco polícial, pelos fundos da casa. José Milton e Linda, pulando muros, em desabalada carreira e sempre atirando, tentaram a fuga. O tiroteio foi intenso. No final, José Milton estava morto e Linda Tayah, ferida na cabeça, foi presa. O soldado PM Alcides Rodrigues de Souza também foi ferido no braço e na coxa

José Milton Barbosa usava documentos falsos com o nome de Alexandre Rodrigues de Miranda. Seus codinomes eram Cláudio, Castro, Rafael, Camilo, Rui, Thomaz, Zé, Matos e Alberto.

José Milton Barbosa participou, dentre outras ações de:

- 8 assaltos a bancos,

- 5 assaltos a supermercados,

- 4 assaltos a estabelecimentos diversos,

 - 5 assaltos a carros transportadores de valores

- 2 assaltos a indústrias,

- Seqüestro do embaixador da Alemanha, quando foi assassinado o agente

Irlando de Sousa Régis e feridos gravemente o policial federal Luís Antônio

Sampaio e o agente José Banharo da Silva;

- “Justiçamento” do militante Marcio Leite Toledo;

- “Justiçamento” do industrial Henning Albert Boilesen;

- Colocação de bomba na Supergel; e

- Atentado contra a ponte do Jaguaré."

                                                           


Vejamos , depoimentos dados por Linda Tayah, sua companheira  de vida e que estava com ele no momento de sua morte,  no livro Mulheres que foram à luta Armada de Luiz Maklouf  Carvalho, publicado em 1998. Portanto, sem pressão nenhuma do regime militar..

--" O Zé milton era muito bom de tiro- e nós aproveitamos para treinar um pouco.(...) Eu só vi a explosão, ela sem a mão, tudo ensanguentado,as pontas dos ossos aparecendo, os gritos desesperados de dor." - pág 48; (   Linda refere-se a Lídia Guerlenda)

-" Nesse momento de aflição, em que a urgência de socorrer Lídia se sobrepunha a tudo mais, ela, josé Milton Barbosa e G elson Reicher - o jornalista, apavorado, tirara o time de campo- empenham-se como podem para tomar providências e organizar mais um providencial seqüestro de médico. Na tarde do dia seguinte, 5 de dezembro, os três circulam num fusca cheio de armas pela avenida Sumaré. Percebem  com alguma antecedência que logo à frente se desenrola uma ostensiva Operação Arrastão da Polícia Militar.Param o carro, pegam as armas e, tentando disfarçar,entram no portão do sobrado 3240 - como se morassem lá ou estivessem chegando. (...)  Há um primeiro tiroteio - mas os três conseguem escapar  pelo muro dos fundos."

"Linda tem um .38 .Gelson outro. Zé Milton uma INA. Perseguidos chegam à rua Veríssimo da Glória. Gelson se esconde na residência  de número 62. Linda e Zé fazem refém , no meio da via, o soldado Valdomiro Trombeta.  Obrigam-no a parar um Galaxie, fazem os ocupantes descerem e se prostarem no chão. Linda toma o volante, .38 na mão - Zé Milton, INA  engatilhada, coage o soldado a entrar com ele no banco da frente." ( ...) página 252.

"Linda é baleada. Zé Milton está morto. Gelson conseguiu fugir .
Essa é a história que se lê nos depoimentos dos PMs que participaram do cerco - mas Linda tem reparos a fazer.


Eu não atirei. O Zè estava tentando fazer o policial entrar no carro , e de repente ouvimos tiros, eles chegando pra cima de nós. A INA do Zé falhou. Ele tirou a pistola. Me acertaram um tiro. Quando eu olhei o Zé estava debruçado no volante, com os olhos entreabertos. Desmaiei, voltei a mim, peguei um cigarro na japona e ele saiu todo manchado de sangue. Lembro que me enfiaram numa C-14, cheia de sangue, e me levaram direto para a Oban." Pag 253

                                    


  O jornal  A Ação, impresso pela ALN, organização dos três militantes, publicou na na página 7 , sob o título " Guerrilheiro tomba em combate" o seguinte:

"(...)Tombou o companheiro José Milton Barbosa, depois de permitir a fuga a um dos companheiros, eliminar um policial e colocar quatro fora de combate. Outra companheira foi interceptada, saindo ferida gravemente."

 " José Milton Barbosa , "Cláudio" ou  "Castro" , tombou heroicamente após vários anos de militância revolucionária."(...) - página 253


A Verdade Sufocada - Carlos Alberto Brilhante Ustra - Página 392

"Em 1971, no DOI, durante o interrogatório preliminar, Linda declarou:

“Só sei que o “Rafael” não conseguiu disparar a metralhadora, assim como eu não consegui disparar o revólver.

O policial se lançou no cano da metralhadora e se lançou no meu revólver. Não sei como ele conseguiu, mas se lançou. Sei que o “Rafael” foi alvejado primeiro do que eu, morreu no local mesmo, quase que instantaneamente e eu fiquei ferida na cabeça.”

Observação: Rafael era um dos codinomes de José Milton - Este depoimento foi arquivado no inquérito.

Em 1972, quando ouvida na 2ª Auditoria da Circunscrição Judiciária Militar, na presença do juiz auditor, do Conselho Permanente de Justiça, do procurador de Justiça e de seu advogado de defesa ela declarou:

“Viajava no interior de um automóvel com seu companheiro José Milton Barbosa, pela Rua Cardoso de Almeida, quando se viram diante de uma “operação arrastão”, da polícia. José Milton e “Marcos” estavam armados, logo saltaram do carro e travaram tiroteio com a polícia. Aliás, diz que só viu José Milton acionar o gatilho de uma metralhadora, mas esta não funcionou, e não sabe em que termos houve tiroteio, pois o certo é que José Milton correu e logo foi atingido. A interroganda correu atrás dele, e o viu morto, sendo também atingida, na cabeça, perdendo os sentidos.”

Segundo o livro Dos filhos deste solo, de Nilmário Miranda, após a aprovação da Lei 9.140/95 - que indenizava mortos e desaparecidos políticos que estavam sob a guarda do Estado - e a constituição da Comissão Especial, que julgaria os pedidos de indenização, foi localizada Linda Tayah e seu filho. Ainda, segundo o livro, Linda fez, na ocasião, as seguintes declarações:

“... Quando voltei a mim, vi José Milton sentado ao volante desmaiado, não percebendo nele nenhum ferimento. Puseram-nos em duas peruas diferentes e nos levaram à Oban, para salas diferentes.

Eu estava lúcida, embora em estado de choque...”

 

Depois de tantas versões dadas por Linda e, depois de discutirem até se o José Milton estava ou não de japona no momento da morte, fato confirmado por Linda no livro Mulheres que foram à luta armada, a relatora na Comissão Especial Suzana Keniger Lisboa, para decidir sobre a indenização, escolheu a última versão de Linda e declarou, segundo o mesmo livro de Nilmário:

“... que é impossível precisar em que estado ele chegou à Oban, mas é certo que de lá saiu morto.”

“Voto pela inclusão do nome de José Milton Barbosa por ter sido assassinado dentro da Oban, antro maior dos torturadores de São Paulo.”

E assim, de mentiras em mentiras, eles vão falseando a verdade, passando-se por vítimas, escolhendo a versão que mais lhes interessa dos fatos.

A indenização foi concedida.

 

1- A respeito  de seu sepultamento com nome falso , todos os militantes que eram mortos  e estavam com nomes falsos eram sepultados , segundo a lei , com os nomes que usavam , já que os documentos falsos eram tirados com certidões de nascimento em cartórios , portanto para todos os efeitos verdadeiros.  Leia mais a respeito no livro  A Verdade Sufocada ( A vala do Cemitério de Perus - pagina 471)

2/3- Um tiroteio às 16 horas , até que todos os trâmites legais fossem cumpridos, o corpo só poderia demorar a entrar no IML. Hoje, um corpo , de um morto na  rua, passa às vezes 8 horas para ser recolhido. O fato da ficha ter um T de terrorista, depois de uma situação como  essa , naquela época, só poderia ser identificado como tal, independente de se saber ou não quem era.

4 - Quanto à japona , basta ler as declarações de sua companheira

5- Se existem essas marcas não descritas no laudo, depois de invadir casas, pular muros, lutar com um policial, é provável que houvesse escoriações.

Depois de tantas contradições, deduza o leitor  qual a verdade !!!...

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