Por Marcelo Rech

Entre 21 e 23 de agosto, o chanceler colombiano Fernando Araújo Perdomo, esteve no Brasil para participar do Foro de Cooperação América Latina – Ásia do Leste (Focalal), e aproveitou para manter conversações acerca da tranqüilidade com que integrantes da Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), transitam em território brasileiro.

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Fernando Araújo é um personagem emblemático nessa guerra que já dura mais de 40 anos. Seqüestrado pelas Farc em 4 de dezembro de 2000, ele conseguiu fugir do cativeiro em janeiro deste ano, aproveitando-se de uma operação realizada pelo Exército colombiano.


Em fevereiro, foi convidado pelo presidente Álvaro Uribe para substituir a então ministra de Relações Exteriores que teve o pai e um irmão presos, acusados de manter relações com os paramilitares de direita.


Uma de suas missões é fazer com que as embaixadas da Colômbia trabalhem para neutralizar a propaganda feita pelas Farc e seus simpatizantes em todo o mundo, onde além de simpatia, obtém dinheiro que alimenta a guerra.


O ministro experimentou na própria carne o que é ser vítima do narcoterrorismo, conviveu com as Farc por mais de seis anos e se transformou numa das principais peças do governo para derrotar a guerrilha.


Sem meias palavras, afirmou que é mais fácil derrotar as Farc pela força. Como alguém que esteve nas mãos do inimigo por tanto tempo, Araújo tem autoridade para não acreditar num acordo de paz, embora o governo trabalhe nesta direção.


É claro que o escândalo da parapolítica atrapalha e muito. Inclusive, teria sido por conta desse episódio que Uribe estaria mais flexível quanto ao envolvimento de Cuba e Venezuela entre os mediadores de um futuro acordo de paz.


Mas, e o Brasil? O Brasil continua distante como se a Colômbia não fosse um país vizinho e como se as Farc não atuassem no país. O grau de omissão do Brasil é tanto que nos leva a crer que antigos vínculos entre o partido majoritário no governo e a guerrilha, impedem que Lula atue como um verdadeiro líder político regional.


O papel do Brasil nessa luta é fundamental se o país realmente quiser contribuir para o fortalecimento de uma América do Sul livre do terrorismo e do narcotráfico.


Brasil e Colômbia devem fomentar uma cooperação que contribua para a desmobilização dos narcoterroristas.


Para tanto, é preciso dizer com todas as letras que as Farc há muito deixaram de ser um grupo político de esquerda. São bandos armados que fazem dos próprios colombianos suas principais vítimas.


Camponeses e crianças são obrigadas a pegar em armas e têm suas vidas dilaceradas simplesmente por que uma cúpula decidiu não abrir mão dos obscenos lucros obtidos com o tráfico de drogas e armas.


Atualmente, uma área entre 79 e 157 mil hectares é ocupada com o cultivo ilícito de coca. Grande parte da produção destina-se ao comércio das Farc, que troca drogas por armas e munições.


Além disso, as Farc criam grupos de fachada que obrigam os colombianos a abandonarem o país nas regiões onde estão sendo implantados programas de erradicação manual dos plantios de drogas.


De acordo com a representação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), no Equador, desde 2003, mais de 1.500 pessoas deixaram suas casas no departamento de Nariño, no sul da Colômbia, e chegaram a San Lorenzo, onde estão sendo registrados e alojados em oito escolas, uma igreja e em um centro municipal. Cerca de 40% dos colombianos chegam com crianças.


Integrantes do ACNUR avaliam que o êxodo de colombianos é provocado por uma combinação de fatores, em que a violência perpetrada por grupos armados irregulares, fundamentalmente as Farc, se situa entre os principais.


Nesta segunda-feira, o governo colombiano informou que um dos principais comandantes das Farc, Tomás Medina Caracas, conhecido como Negro Acácio morreu após uma intensa troca de tiros como Exército colombiano. Ele era o responsável pelos negócios envolvendo as Farc e o tráfico de drogas.


Negro Acácio também foi sócio do traficante brasileiro Fernandinho Beira-Mar, preso em Guainía em 19 de abril de 2001, quando ficou comprovado que as Farc e o narcotráfico se sustentam e que o Brasil é importante provedor da guerrilha, através do crime organizado.


Negro Acácio era quem geria os recursos obtidos pelas Farc com as drogas e cuidava para que o dinheiro chegasse à cúpula da guerrilha. Antes do traficante brasileiro ser detido, os dois mantinham uma relação de negócios que já durava seis anos. Nas selvas de Vichada, na fronteira com o Brasil e a Venezuela, realizavam a troca de cocaína por fuzis e munição.


Apesar disso, o governo brasileiro prefere tratar o assunto no âmbito da retórica diplomática, ignorando o trabalho que a inteligência já produziu, tanto a civil quanto a militar. É como se o crime organizado no Brasil não tivesse qualquer relação com as Farc.


Enquanto isso, o presidente venezuelano Hugo Chávez surge disposto a mediar um entendimento capaz de pôr fim ao conflito. Ele já se reuniu com familiares de vítimas das Farc e mandou um recado para o líder maior da guerrilha, Manuel Marulanda. Chávez pode ser o elo que faltava, principalmente quando os demais se acovardam.


O governo brasileiro tem medo ou parece não entender que o combate às Farc é parte do processo de combate ao narcotráfico que tanta violência tem produzido nas grandes cidades brasileiras como Rio de Janeiro, São Paulo e até mesmo no entorno do Distrito Federal.


Está claro que a guerrilha não quer a paz. Por meio de eufemismos, mudam o discurso a cada gesto na direção de um entendimento. Por exemplo, quando o govermo colombiano aceitou liberar 163 guerrilheiros das Farc, em 25 de maio deste ano, incluindo Rodrigo Granda, o "chanceler das Farc" a guerrilha recuou e afirmou que não se tratavam de combatentes, mas de desertores.


Enquanto insistir em fechar os olhos para o problema, a única coisa que o governo vai conseguir é aumentar as suspeitas sobre suas relações com um grupo que atua à margem da lei e que lança mão do terrorismo para não perder dinheiro.

[1] Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais e Estratégia e Política de Defesa. Correio eletrônico: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..
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