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Categoria: Diversos
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 Francisco Jacques Moreira de Alvarenga, da Resistência Armada Nacionalista (RAN), “justiçado(foto) em 28 de junho de 1973 dentro da Escola em que era professor, por um comando da Ação Libertadora Nacional (ALN).Maria do Amparo Almeida Araujo, então militante da ALN e hoje presidente do “Grupo Tortura Nunca Mais”, em Pernambuco, participou dos levantamentos preliminares que propiciaram o “justiçamento” que ela diz não saber quem praticou (depoimento da mesma no livro “Mulheres que Foram à Luta Armada”, do jornalista Luiz Maklouf, 1998). Interessante, para eles todo e qualquer militar do período é assassino e torturador, mas o fato de planejar e mandar matar não os tornam culpados de nada.

Por Vasconcelo Quadros

BRASÍLIA.A sentença da juíza da 1ª Vara Federal Solange Salgado, que mandou investigar em 120 dias o paradeiro dos guerrilheiros desaparecidos no Araguaia, aflorou uma crise latente entre o governo e a área militar. A decisão do governo, anunciada na última semana, de cumprir, sem hesitação, a decisão da Justiça, que determinou ainda a tomada de depoimento, pelas autoridades, dos militares que participaram dos confrontos mais sangrentos, caiu como uma bomba na caserna. Oficiais que participaram da caçada aos guerrilheiros do PC do B no Araguaia se recusam a colaborar com o governo Lula na localização dos restos mortais dos 58 ativistas que desapareceram entre 1972 e 1975. A reação é feroz.

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- Se baterem na minha porta com um martelo, passo fogo. Respondo à bala - diz o coronel Lício Ribeiro Maciel, um dos oficiais da linha de frente da repressão, responsável pela prisão e morte de vários ativistas do PC do B na região do Araguaia.

Temendo mexer ainda mais no vespeiro, as principais autoridades, que na semana passada tomaram a decisão de não recorrer da sentença, refugiaram-se no silêncio e adotaram uma espécie de jogo de empurra. O ministro Nelson Jobim, da Defesa, afirmou que o problema seria do Advogado-Geral da União, José Dias Toffoli, que, por sua vez, não falou sobre o assunto. O caldo, no entanto, já está entornado. Lício anunciou que entrará com um mandado de segurança na Justiça e que será o precursor de uma onda de recursos contra a sentença da juíza. Entre os militares da ativa, e mesmo aqueles que estão no governo, a decisão pelo cumprimento da ordem judicial também não foi bem digerida. Por isso, a ordem no Planalto era a de tratar o assunto com o devido cuidado.

O militar estuda duas alternativas jurídicas para não prestar depoimento sobre o assunto. Primeiro um mandado de segurança preventivo, alegando que cumpriu uma missão pelas Forças Armadas na região. A outra hipótese é entrar com um mandado contra eventual convocação do Exército. Lício atuou na linha de frente da repressão à guerrilha, mas era também oficial do Centro de Informações do Exército (CIEX), especializado em comunicação. Atualmente mora no Rio.

- Pode escrever: não vou colaborar com esses caras, não. Comigo não tem conversa. Não falo com comuna - disse, ao criticar as autoridades que cuidam dos desaparecidos.

Lício cita o atual ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, entre os que estariam mais interessadas nas indenizações do Ministério da Justiça do que em encontrar ossadas. Diz com macabra ironia que errou ao ter prendido o deputado José Genoino (PT-SP), razão pela qual ganhou notoriedade à época. Na guerrilha, o ex-presidente do PT era conhecido como Geraldo.

- Eu deveria tê-lo matado - lamentou, depois de garantir que se não tivesse sido obrigado a deixar a região gravemente ferido, teria pego todos os outros guerrilheiros.

O oficial se apresentava no Araguaia com o codinome de Doutor Asdrúbal. Além do ódio nutrido pela esquerda, também ficou conhecido por participar dos principais conflitos, entre eles o que resultou na morte de quatro guerrilheiros - André Grabóis, Divino Ferreira de Souza, João Gualberto Calatroni e João Alfredo de Campos.

O coronel deixou a região em outubro de 1973, depois de ser baleado no rosto pela guerrilheira Lúcia Maria de Souza, a Sônia, que na mesma ação atingiu no braço o atual prefeito de Curionópolis (PA), Sebastião Rodrigues de Moura, o Major Curió, ex-deputado e o oficial que pertenceu à equipe de Lício.

Lício ficou 30 anos em silêncio sobre sua participação na guerrilha. Hoje na reserva, fala do episódio com raiva. Diz, com ironia, que não lembra mais dos locais onde os mortos teriam sido enterrados.