Uma obra de arte só pode ser assim chamada quando transcende o autor e mesmo a época em que foi produzida, em quaisquer de suas expressões. Posso dizer usando esse conceito que o filme Tropa de Elite é uma obra de arte maiúscula. Ao ler o comentário de um dos autores do livro que deu base ao roteiro, Luiz Eduardo Soares, publicado hoje no “Estadão”, confirmei a minha impressão. José Padilha, o diretor, está de parabéns, porque afinal uma obra de arte precisa, em última análise, descrever de forma estilizada a realidade sem ser uma mera reprodução da mesma. Seu filme tem “arte”. É nisso que ela consiste, em representar a verdade para além dos limites do olhar cotidiano e ser a expressão do belo.

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O filme de Padilha, não obstante a violência crua que retrata, é belo. Bem dirigido. Mete a fuça no lameiro das drogas no microuniverso carioca, que espelha fielmente o drama das drogas em escala nacional. As drogas têm representado um cabo-de-guerra entre o que se chama de “conservadores” e os “progressistas”, ala a que indubitavelmente se filia Luiz Eduardo Soares e toda a esquerda nacional. O problema é que para falar com arte e verdade sobre o problema das drogas precisa antes tocar nos pontos decisivos: que esse comércio de morte está na raiz, não da causa da liberdade, mas da sua negação. Na hora em que a câmara focaliza a realidade não dá para desmenti-la: tudo começa em falsas doutrinas como podemos ver no discurso em sala de aula mostrado no filme, de autores postiços como Focault e todos os niilistas da sua laia. Creio que os roteiristas quiseram dar um outro sentido à citação do filósofo francês na película, mais positivo, mas se traíram: a descriminalização das drogas não apenas não é solução para o problema, mas o seu agravamento à escala apocalíptica.

 

Quiseram mostrar a violência policial, a meu ver realista em larga medida, mas para fazê-lo precisaram mostrar que na origem da violência está no tráfico e nos financiadores do tráfico, cabendo à polícia o cumprimento de seu papel constitucionalSó existe o Bope porque traficantes usam metralhadoras e fuzis e porque inventaram o micro-ondas para executar suas vítimas e também porque não hesitam em exterminar seus desafetos, mesmo que estes se concretizem em uma mulher indefesa. Quando a polícia sobe o morro é para encontrar demônios, não anjos, e como tal tem que se preparar para o pior.

 

Isso explica para mim o efeito sensacional que o filme tem causado aos espectadores. Fez-me lembrar meus tempos de infância a assistir os filmes estrelados por John Wayne. Não tinha conversa, no final o mocinho triunfava e o bandido sucumbia. O Tropa de Elite tem seu epílogo quando o chefe dos traficantes é morto, não sem antes usar o micro-ondas para matar um indefeso, executar um moça friamente e matar pelas costas um policial fora de serviço. Vindo da comunalha que prega a descriminalzação das drogas e a tese de que a criminalidade deriva de causas "sociais" um roteiro desse é realmente de surpreender.

 

O texto de Luiz Eduardo Soares soa como um pedido de desculpas para seus parceiros ideológicos, por ter cometido o crime de ter ajudado a produzir um filme tão bom. Quem mandou entregar o roteiro na mão de um diretor competente? Acho que ele deve pensar que o sucesso de público e de crítica que o filme recebeu depõe contra si. E depõe mesmo, a dar crédito ao que tem escrito e praticado. É a negação de sua fé esquerdista. Afinal, a desordem em que o Brasil está metido deriva da ação deletéria da esquerda política que tem subvertido os valores tradicionais, inclusive no que tange á Segurança Pública. Se ele queria denunciar a PM, acabou por denunciar os verdadeiros meliantes, os traficantes de drogas e seus apoiadores políticos e ideológicos. Um tiro pela culatra, para ficarmos nas metáforas policiais.

 

Meu caro leitor, se não viu o filme veja correndo. Paga o ingresso. Um grande filme.

 

Nivaldo Cordeiro

www.nivaldocordeiro.net
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