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Categoria: Forças Armadas
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 JB - Editorial
Quase 80% dos blindados têm mais de 34 anos, e 58% das viaturas, mais de duas décadas. Não bastassem os desafios de praxe ­ no subcontinente, o Exército identificou focos de instabilidade regional, ameaça de terrorismo e fronteiras extremamente porosas ­.

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As Forças Armadas também são chamadas a colaborar em missões de manutenção de paz no exterior. "As Nações Unidas querem tropas e comando do Brasil em outros continentes, graças ao êxito da missão no Haiti", reforçou Peri. Em meio à escalada de violência das grandes cidades, novamente surgem as três forças como solução pacificadora, mesmo que temporária, como visto recentemente no Rio. E uma vez mais, cumprem a missão com bravura, apesar das condições adversas. Mas fica a lição: se o Brasil quer mesmo a paz, tem de dotar as Forças Armadas de recursos para a guerra. MERECEM MAIS ATENÇÃO do governo e da sociedade as palavras do comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, durante reunião da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, na semana passada.

O militar traçou um quadro angustiante da situação por que passam as Forças Armadas brasileiras, que operam com maquinário ultrapassado, efetivo diminuto e orçamento limitado. De acordo com o general, 78% dos blindados hoje em operação têm mais de 34 anos (são, portanto, anteriores à era da informática) e 58% das viaturas, mais de duas décadas.

Peri ressaltou que o Brasil é o país sul-americano que menos gasta em defesa, além de manter um efetivo que supera apenas o do Exército argentino. O projeto de lei orçamentária prevê, para 2008, recursos na ordem de R$ 2 bilhões (pouco mais de US$ 1,1 bilhão) para o Exército. Embora seja 50% maior que o planejado para 2007, ainda está longe de suprir as necessidades da caserna. Para se ter uma idéia, o Chile investe US$ 2,7 bilhões ao ano; a Venezuela, US$ 6 bilhões; e a Colômbia, US$ 3,7 bilhões.

Para o comandante, mais importante que ampliar o número de quartéis e brigadas é dar condições para que a atual estrutura possa operar. Nesse intuito, Peri defende não apenas programas de reaparelhamento e modernização da força como a reestruturação do Exército para adequar-se à conjuntura mundial, sobretudo no subcontinente em que o Brasil se insere. Com 15,7 mil quilômetros de fronteiras, é natural que as atenções dos militares se voltem aos vizinhos. Mas o cobertor curto preocupa. "É preciso entender que temos não só de manter como repor material, para fazer frente às novas ameaças, principalmente nas fronteiras. E isso não é paranóia", destacou Peri.

Em consonância com os temores daqueles que vêem a Amazônia sendo vilipendiada, aos poucos, pela ação do tráfico de drogas e da biopirataria, o general ressaltou a importância de se melhorar as condições das brigadas que atuam naquela região ­ tida como principal prioridade do Exército. Dos 900 quartéis que defendem as fronteiras nacionais, 71 estão situados na selva, guardados por 25 mil homens. É pouco para garantir a vigilância de uma região repleta de superlativos. A Amazônia representa 56% do território nacional, faz fronteira com sete países e possui um dos maiores bancos genéticos e a maior província mineralógica do mundo. Fatores que despertam a cobiça estrangeira desde tempos imemoriais e tornam imperativa a presença maciça de soldados bem treinados e capacitados.