Por O Estado de São Paulo
O coronel Hugo Chávez não está apenas empenhado em impor à Venezuela um regime socialista - o tal “socialismo do século 21”, rótulo que nada mais é que o disfarce de uma ditadura caudilhesca. Ele também está militarizando a política e a sociedade venezuelanas e para isso emprega métodos tomados de empréstimo de Fidel Castro, de Benito Mussolini e de Adolf Hitler. Afinal, cada um desses personagens era “socialista” à sua maneira, embora fossem todos dirigentes totalitários. Servem, portanto, para os propósitos de Chávez.

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Na noite de terça-feira, o caudilho deu um exemplo cabal do que está fazendo com a Venezuela. Anunciou, num grande comício, que vai “desmontar progressivamente” o conceito de propriedade privada, que para ele não tem lugar no socialismo bolivariano. A novidade não é a intenção - é a ênfase que agora dá à questão. De fato, o projeto de reforma da Constituição, que entrou no terceiro turno de discussão na Assembléia Nacional, cria cinco diferentes tipos de propriedade, todas elas, na verdade, controladas ou administradas pelo Estado. Nesse rol, a propriedade privada é apenas tolerada, ficando sujeita às conveniências do Estado e sendo passível de confisco quando “afetar os direitos de terceiros ou da sociedade”. Ou seja, haverá propriedade privada quando e se o caudilho permitir.

Chávez voltou ao tema porque pretende acabar com a livre iniciativa, mas também porque os partidos de oposição começaram a organizar a resistência parlamentar - que, dada a correlação de forças, se sabe que será inútil - contra dispositivos do projeto chavista, entre eles a reeleição indefinida, a destruição do regime federativo pela criação do “poder popular” e a liquidação da propriedade privada. E Chávez não brinca em serviço. A esses partidos e seus líderes - alguns deles ex-companheiros de viagem do bolivarianismo - acusa de traidores da pátria, serviçais da oligarquia e agentes da CIA.

Por sua vez, a presidente da Assembléia, Cilla Flores, uma das signatárias do projeto de reforma constitucional, anunciou que, em dois meses de tramitação, foram realizadas 9 mil consultas sobre modificações do texto fundamental, e 54% dessas audiências foram públicas. O líder do partido Um Novo Tempo, Alfonso Marquina, esclarece, no entanto, que essas consultas não passaram de pantomima. Foram realizadas dentro dos chamados batalhões de estudantes, operários e camponeses, ou seja, entre os seguidores de Chávez. “Cada vez que algum venezuelano quis expor um ponto de vista diferente, foi vaiado, insultado e, em algumas ocasiões, chegou a haver agressões físicas.”

Logo no início de seu governo, Chávez instituiu os “comitês bolivarianos”, grupos de brutamontes incumbidos de impor a disciplina aos habitantes de determinados bairros. Copiou Fidel Castro. De uns tempos para cá, principalmente depois que criou o Partido Socialista Unido da Venezuela, adotou também métodos nazi-fascistas. No comício de terça-feira, por exemplo, tomou o juramento de fidelidade do comitê do partido que organizará o referendo de 2 de dezembro, sobre a nova constituição. No mesmo comício, ouviu o juramento de 14 mil “soldados” que constituirão os “batalhões de elite” do bolivarianismo - a linha de frente que se incumbirá de “convencer” os venezuelanos de que o socialismo do século 21 será o paraíso na Terra. Chávez também está organizando “batalhões de apoio” e “batalhões de retaguarda”. No lugar da camisa negra ou do uniforme cáqui, seus membros vestem camisas vermelhas. Já quebram algumas cabeças, mas ainda não enfiam óleo de rícino goela abaixo dos recalcitrantes. Logo, logo, chegam lá.

Chávez também está organizando a Milícia Nacional Bolivariana, com uma estrutura paralela à das Forças Armadas e obviamente para defender os interesses do Partido Socialista Unido da Venezuela e de seu líder máximo, e não os do Estado. Qualquer semelhança com as SS nazistas não será mera coincidência.

A razão de ser dessa milícia foi explicitada por Chávez, na terça-feira, também em resposta a seus críticos: “O que se passa é que eles têm medo da Milícia Nacional Bolivariana, que já tem quase 1 milhão de milicianos. Vamos ver quem vai se meter conosco!”

É esse o regime que o presidente Lula quer como sócio no Mercosul.
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