Por MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA
Confesso que não gosto de filmes brasileiros e, portanto, não os assisto. A arte ou seu arremedo sempre retrata a cultura de uma dada sociedade, e emprego aqui o termo cultura no sentido do complexo de valores, comportamentos e atitudes sociais. Nesse sentido nossos filmes mostram nossa visão de mundo, exaltando o que nos é caro: anti-valores e anti-heróis. Vão da glamourização dos bandidos transformados em mocinhos a satanização dos mocinhos transformados em bandidos. E as chamadas obras cinematográficas, produzidas comodamente à sombra do governo, normalmente apelam para a pornografia, transformando em lixo o que poderia ser arte.

Texto completo  

O mesmo se dá com novelas, influentes meios de moldar comportamentos, onde a glorificação do mau-caratismo é comum sendo que os vilões é que empolgam os telespectadores. Além do mais, através dos folhetins eletrônicos é possível passar, de forma subliminar, a ideologia do poder político do momento. Exemplifico com a novela Paraíso Tropical, que resvalava, sem que a grande maioria o percebesse, para um tipo de doutrinação relativa a luta de classes e para o incentivo do preconceito do negro contra o branco (recorde-se que uma ministra do presidente Lula da Silva afirmou não ser preconceito o negro hostilizar e odiar o branco, porque esse é um direito da raça negra). Na novela, várias vezes Bebel, a prostituta, chamou sua rival de branca azeda e de outros termos depreciativos, além de fazer críticas à posição social da loura, noiva do personagem Olavo. Fico imaginando se a “branca azeda” retrucasse com algum insulto relativo aos negros. Provavelmente a Rede Globo seria processada e o autor da novela preso sob a acusação de crime hediondo e inafiançável.

Mas se não gosto de filmes nacionais acabei abrindo uma exceção e fui ver Tropa de Elite. Sai do cinema impressionada. Pela primeira vez descortinava-se na pobreza da cinematografia brasileira algo de valor, realista, sem o vezo esquerdopata que só atribui direitos aos bandidos e os trata como coitadinhos, que por serem vítimas da sociedade são livres para cometerem crimes bárbaros que sempre devem ser perdoados.

Tropa de Elite passou longe do insuportável pieguismo do politicamente correto. Mostrou com crueza e clareza o cerne da violência urbana ligada ao narcotráfico, mantido por usuários de drogas muitos dos quais pertencentes a juventude dourada da zona sul, do Rio de Janeiro. Vestidos de branco, eles participam de passeatas em nome da paz enquanto alimentam o tráfico. Dotados de “consciência social”, fazendo parte de ONGs, sobem o morro para hipocritamente fazer suas “caridades”, enquanto cheiram e compram cocaína e outras drogas para consumir e vender.

Significativamente o filme mostra jovens consumidores de drogas como estudantes de Direito. Eles deveriam ser dotados de consciência legal, mas odeiam a polícia que reprime os companheiros do tráfico. Ironicamente, os bons-mocinhos e mocinhas, amigos dos traficantes, pagarão caro por suas “bondades”. Um dos rapazes será supliciado no “micro ondas” (tortura das mais cruéis que consiste em colocar a pessoa dentro de uma pilha de pneus e atear fogo para queimá-la lentamente). Uma das moças será morta à tiros. Tais cenas mostram que bandido não tem escrúpulos nem piedade, o que torna impossível que policiais tratem tais criminosos bestiais com flores e afagos.

Para enfrentar as bestas-feras, encasteladas nos morros, só o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), do Rio de Janeiro. Seus policiais passam por treinamento extremamente rigoroso e não estão contaminados pela corrupção que envolve parte da polícia que se rendeu ao sistema. Nesse sentido o termo elite relacionado à tropa está correto e não deturpado pela esquerda petista, pois elite não significa “ricos malvados”, mas produto de qualidade, podendo existir elites econômicas, políticas, intelectuais, etc., que são grupos que se destacam na sociedade por seu padrão de excelência.

Referindo-se ao sistema o capitão Nascimento, figura de herói (aquele capaz de dar a vida por sua causa e não um jogador de futebol) representada magistralmente pelo ator Wagner Moura, coloca a mensagem mais importante do filme, aquela que todos no íntimo sabem, mas fingem ignorar: “ou o policial se corrompe, ou se omite, ou vai para a guerra”. O capitão Nascimento sabe que poucos como ele irão para a guerra, e que a luta pode parecer inglória diante do sistema, mas tem consciência de que, não obstante a escolha que pode ser paga com a vida, o Bope faz a necessária diferença.

No momento político que atravessamos, onde os Poderes Constituídos estão mais apodrecidos do que nunca, mais corruptores e corruptos do que nunca, mais cínicos do que nunca, que já não se sabe quem é autoridade e quem é bandido, que não existem oposições para valer e partidos se entregam ao Executivo como manda a ministra do turismo, relaxando e gozando, ou surge um “Batalhão de Operações Políticas Especiais”, ou estamos de vez derrotados pelo sistema.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 
Adicionar comentário